CAPITULO EXTRAIDO DO LIVRO - ROMANCE - REALIDADE EM FICÇÃO BASEADO EM CASOS REAIS de Américo Martins
GUIDA
O objetivo dos pais era que ela viesse a ser doutora. Era uma forma de terminar ali o ciclo de subserviência da família.
Guida veio logo de pequenina para Coimbra. Os pais, vindos de uma pequena Vila da Beira Alta, onde estavam ali todas as raízes ancestrais da família, talvez dos tempos do Viriato, ganhavam a vida servindo senhores.
Tornaram-se adultos no início da década de 40, já começou a despontar uma visão do futuro pela juventude. Ouvia-se rádio e já se falava em Televisão. Já havia muita gente que lia jornais e a Europa acabava de sair de um período de guerras, mas tudo indicava que estava a iniciar um período de desenvolvimento franco. À medida que os jovens começavam a dar sinais que haveriam de sair do marasmo.
Casaram e transparentes a servir os senhores como caseiros na Quinta. Era um casal jovem, os dois tinham concluído a primária e criar o gosto pela leitura e evolução. Sentiam pena não ter podido continuar, mas encaravam o futuro com esperança.
Os filhos dos Senhores seus Patrões, foram-se formados em Coimbra e por lá submetidos a exercer Medicina, Magistratura e Cargos Governativos.
Estes, nas suas residências em Coimbra, precisavam de alguém de muita confiança, que eles tomasse conta da casa.
Foi este jovem casal da terra de origem, sem vícios de cidade e de total confiança que já vinha dos seus antepassados.
Guida, era a primeira filha e viria a ser uma única, iniciava a escola primária. Para o jovem casal desenhava-se a grande oportunidade de quebrar aqui a corrente do servilismo aos patrões todos poderosos que embora também gostassem de os ajudar, mas era sempre na condição de serem sempre seus serviços, quais eram quais eram as condições.
Assim, os pais de Guida, a viver na cidade da Universidade, também a hipótese de um dia verem a sua filha entrar numa Universidade e vir a ser doutora e assim passaria ela à condição de suprema e teria terminado nos seus pais a ultima geração de serviços ao serviço de senhores.
Não quiseram ter mais filhos para não comprometerem as possibilidades de poderem apoiar a Guida financeiramente até concluir o curso.
Assim foi, a Guida termina o curso na Universidade e ela própria, sem nada de isto dizer aos pais, achava que devia sair de Coimbra para se libertar de – filha de porteiros.
Era início da década de 70 sec. XX e o complexo de classes ainda se fazia notar imenso.
Ainda se dizia que: Lisboa era Portugal e o resto era paisagem. Assim, quem quisesse tentar um futuro promissor, teria que passar pela capital.
Guida, informa os pais de que tinha concorrido para o Ministério e implicava ir para Lisboa.
Os pais, sem lhe dizerem nada, começam a tentar mover influências para que a sua filha fosse seleccionada para entrar para o Ministério.
Estavam habituados a ouvir dizer que para se entrar para um bom lugar, só com uma boa cunha.
Às escondidas da filha, tentam uma cunha possível. Vão à terra, trazem um cordeiro vivo para oferecer a uma pessoa importante dos Ministérios, que já perguntado aos seus patrões quem era.
A ideia de oferecer o cordeiro vivo, era para ser prova de que o cordeiro estava de boa saúde. E se o oferecesse já morto e esfolado, poderia ficar a desconfiar que o animal poderia não estar de boa saúde e não comeriam a carne com tanto gosto.
Quando o animal chegou ao destino que os pais de Guida queriam, já a Guida estava seleccionada havia muito tempo e já estava o lugar à sua espera.
Guida tinha terminado o curso com classificação suficiente para não precisar de cunhas. Ela própria era contra as cunhas. Dizia que só os incompetentes e incapazes é que precisavam de cunhas.
Guida entrou para um Ministério e com o seu curso de Economia, também consultorias em empresas privadas.
Começou a relacionar-se com gente do alto capitalismo. Vivia-se um marcelista da primavera.
O grande capital já sabia que essa primavera não duraria muito mais tempo e então preparava-se para a mudança. Talvez não seja tão inteligente como pensavam que eram e não seiam calcular e prever o futuro que se aproximava.
Os filhos das famílias famosas da Linha do Estoril que andavam na
universidade, preparavam-se para assumir o poder logo que se desse a viragem
Os pais deles, nesse momento eram quem dominavam o poder. Em alguns casos diretamente como governantes eles próprios, noutros, afastados do poder, mas influenciando as decisões governamentais através do domínio dos órgãos de informação, proprietários das grandes empresas que detinham quase toda economia do país, colocados em lugares de decisão: magistrados, governadores, lugares cimeiros da hierarquia militar e por aí fora.
Também havia alguns filhos destes, muito confusos, desatinavam, saíam do circuito capitalista deixando de ser vistos, alguns até iam para o estrangeiro, mostrando que estavam contra o sistema.
Outros, passavam anos na universidade, dominados pelo tédio, pois estar a esforçar a cabeça para ser doutor para quê? Dinheiro já tinham que chegava para viver a sua vida na condição de senhores com todos os meios que uma vida regalada exige.
Divertiam-se, comprando belos e potentes carros de últimos modelos e exibindo-os junto da alta sociedade.
Como na altura ainda não havia grandes auto-estradas para fazer o gosto ao acelerador desses bólides, alguns perdiam a paciência em qualquer troçozinho de via rápida, carregavam desmesuradamente sem acelerador, ainda eram principiantes - tinham de adquirir uma Carta pagando aulas sem ir à escola, com o nome e conhecimentos que tinham a obtenção da Carta de Condução, mesmo sem preparação, estava garantida. Mas depois ao pegarem nos seus potentes carros, não tinham unhas para isso e lá se despistavam contra os muros e rochas que por vezes acabava com a morte de alguns.
Os que se preparavam para substituírem os seus pais no poder, viesse qual regime viesse a seguir, alguns provocavam a sua própria prisão, provocando as policias sempre que tinham oportunidade, pois sabiam que no dia seguir a família iria tirá-los da cadeia e assim iam marcando pontos para quando da mudança de regime que viria mais ano menos ano, quem tinha mais tempo de prisão, seria quem teria mais hipóteses de reivindicar o lugar de Ministro. Tinha sido assim em todos os países que mudaram do capitalismo para o socialismo com golpes de estado. E em Portugal não viria a ser diferente.
Havia alguns que faltavam às aulas na faculdade, iam aos bairros da lata, pegavam em meia dúzia de voluntários, iam ocupar qualquer casa desabitada.
Claro que logo de seguida o responsável por essa atitude era preso, mas a família todo-poderosa, sabia e lá ia a correr contactar o responsável policial por essa área para porem o menino cá fora. Por vezes nem uma noite dormia na Esquadra
Ele saía todo vitorioso, satisfeito por tudo ter corrido exatamente como previu. E assim estava a marcar pontos para o seu curriculum para um dia ter quase garantido que seria ministro do regime a seguir, mostrando ao seu papá que bajulava sua excelência o Presidente por onde quer que andasse, que ele também sabia compreender o mundo e fazer politica de outra maneira, para um dia também ser governante e poderoso.
Guida, continuava toda entusiasmada na vida promissora, dando garantias aos seus pais em Coimbra que o esforço que fizeram não foi em vão. Estava a seguir uma carreira promissora no Estado, tinha-se de
facto quebrado a corrente do servilismo. Ela agora era uma funcionária Técnica Superior, tinha adjuntos, tinha auxiliares e funcionários obedientes que estavam sempre prontos para lhe irem buscar um café e ainda por cima com sorrisos e obrigado - Sra. Doutora!
Nos seus tempos extras em consultoria financeira, também ia conhecendo figuras importantes e influentes, começava a relacionar-se de igual para igual com gente que os pais nunca imaginariam. - A alta sociedade da Linha do Estoril.
A Guida, para além de ser uma jovem bela e sincera, era também uma excelente técnica na sua especialidade.
Há quem diga que as grandes famílias não têm pátria nem família. Dão a imagem de clãs fechados, mas estão sempre abertos a novos elementos do exterior, venham eles de onde vierem, desde que se justifique uma mais-valia para o clã.
Não tardaram em lhe fazer convites para momentos de lazer, vindos da alta sociedade da Linha do Estoril, empresários para os quais fazia consultoria e, Guida passou a passar mais tempo em passeios e convívios lá para os lados da Linha, vindos de convites de residentes desta área, do que em idas a Coimbra visitar os seus pais.
A vida de Guida começava a transformar-se. Surge pretendente e namorico no grupo da Linha.
Ele, jovem que conheceu uma licenciatura com o andar dos tempos, pois o que era preciso era o canudo para ser tratado por doutor. Classificação para concorrer a lugares bons não precisos. Tinha o seu lugar à espera nas empresas familiares.
Se um dia precisasse de ser ministro, aplicar-se-ia aquela máxima do professor de economia: que um dia disse ao aluno mais cábula - que teria o lugar de ministro garantido!
Pedro, para além de gostar mesmo da Guida, convinha-lhe casar com ela: era uma mulher apresentável, bem-falante, social, inteligente e prometia ser uma boa futura administradora das suas próprias empresas.
Pedro era um homem pacato. Não fazem parte daqueles que viam a insegurança da mudança do regime. Que andavam tão baralhados que cada medida que tomavam, depois ficavam a pensar que tinha tomado a pior.
Pedro não, ele continuava a construir o futuro, atento ao futuro.
A entrada de Guida para o grupo, veio agitar um pouco como águas dentro do grupo.
As meninas do grupo, sentiam-se um pouco ultrapassadas por uma provinciana, que nem se sabia bem quais as suas origens nem a cor do sangue. Tinham a certeza de que não era azul como o delas, se queriam fazer passar.
O Pedro era um dos futuros maridos promissores para qualquer uma delas. Pertencia ao clã e pelo clã ficaria.
Mas apareceu uma Guida e tudo se alterou.
O Pedro também nunca tinha decidido ficar pelo grupo do clã. Achava que todas eram a continuidade e ele achava que injetar um pouco de sangue novo, renovaria os glóbulos “azuis” - neste caso não aplicável a glóbulos azuis.
Não era fácil para as meninas do grupo, que até eram bastantes e famosas, perderem um dos melhores promissores futuros da linhagem.
Desde os tempos do Liceu, passando pelos tempos da Faculdade que as intimidades existiam entre algumas e o Pedro. Desde de lhe terem aparecido na cama de surpresa, passando pelas noites de copos e charros com sexo à mistura, até à queca rápida encostada ao carro numa noite de verão escaldante e nas bancadas do autódromo.
A desconhecida que caiu de para-quedas no grupo, ainda haveria de ter momentos desagradáveis pela frente. Elas iriam à luta.
Guida era uma mulher íntegra, consciente, senhora de si, sabia o que queria e o que poderia ter ao seu alcance. A entrada para este grupo e o namoro com um poderoso de sangue azul, nunca estivera nos planos da sua vida. Foi uma consequência da situação que se lhe deparou no seguimento da sua vida profissional. Mas ela também passou a gostar de Pedro.
Pedro fê-la acreditar. E ela não estava ali para brincar aos namoros. Nisso, era muito diferente das meninas da Linha. Era de facto uma Beirã de pleno sentido. E disso se prezava.
Começava-lhe a voltar à memória o antigo grupo e amigos que criara logo que se fixou em Lisboa. Alguns já os conheciam de Coimbra. Outros, rapazes e raparigas quase todos do interior do país que tinham vindo para a capital uns para estudarem e após concluírem os seus cursos por Lisboa ficaram. Outros continuavam a estudar, trabalhando de dia já em bons empregos e estudando à noite para concluírem os seus cursos. Mas era uma geração de oriundos do interior do país muito promissora que mais tarde viriam e vieram ocupar cargos de responsabilidade na administração pública e privada. Havia-os em todos os cursos. Desde a medicina ao direito, ciências e engenharia. Nesta altura já se ministravam em Portugal cerca de 300 cursos superiores.
Mas a Guida voltava a pensar que, se tinha tomado a decisão do grupo da Linha é porque alguma coisa lhe indicava que estava a seguir o caminho certo.
Quanto a Pedro, não estava arrependida. Era um homem íntegro, consciente e sensato. Respeitava-a. Não tinha dúvidas de que ele gostava dela. Era um bom engenheiro na sua especialidade. Por isso só tinha que enfrentar as meninas do grupo que não se queriam convencer, que o Pedro já não era delas.
A Necas, era a que tinha mais dificuldade em aceitar que o Pedro iria mesmo passar para uma vinda da província e entrou ali para muita coisa alterar.
Não é fácil para um clã que está habituado a sempre que prevê uma alteração no grupo ou inclusão de algum elemento, haver reunião geral para auscultar todas as partes. E mesmo quando se trata de dificuldades de alguém, toda a gente contribui para melhorar a situação desse alguém.
Mas a entrada de Guida nenhum grupo não tinha sido uma entrada normal de um elemento. Guida entrou ali já obtido pelos seus recursos profissionais que viria trazer uma importante mais-valia a essa sociedade.
Voltamos ao princípio, de que as grandes e famosas famílias não têm pátria nem família. Estas famílias são compostas pelos melhores elementos das sociedades. Assim como se mesmo algum elemento da família, mesmo com o sangue da própria família, dá para o torto, não hesita em pô-lo de parte e atirá-lo para uma ostracização.
Mas a Necas ainda tinha que mostrar daquilo que era capaz. Sentiu-se mesmo ultrapassada. E ainda por cima, tinha tirado o mesmo curso que Guida.
Não sabia porque Pedro tinha preterido uma economista de sangue azul e com fortuna própria, por outra economista que nem se sabia bem qual era cor do seu sangue e sabiam que era filha de porteiros.
Mas os cursos também foram sido tirados de uma maneira diferente. Enquanto Guida tinha tirado um curso aplicando todo o seu esforço a juntar à sua suprema inteligência e que o seu futuro dependeria muito da classificação com que terminaria o curso, a Necas, ia passando ao sabor do nome da família, porque havia muitos nomes da família pelas cátedras das faculdades, e quem não conhecia estes nomes em Lisboa e arredores?
A Necas, decide experimentar a capacidade de resistência da Guida. Começam as tropelias, falsidades, dezenas de chamadas telefónicas secretas e seguidas. Tudo valia para tentar desestabilizar Guida. Quando se encontravam pessoalmente, lá vinham os cumprimentos de desprezo, querendo-lhe dizer que aquela sociedade não era a sociedade dela. Aquela sociedade era uma sociedade de mulheres da elite da socialite, elegantes e com nome. Que se sabiam arranjar de acordo com todas as situações. Se fosse preciso ir às compras a Londres para se aperaltarem para uma determinada festa da sociedade, apanharia o avião de manha para Londres ou Paris e à tarde regressaria com a indumentária adequada para representar bem a classe. - Muitos destes jovens tinham nacionalidade dupla.
Mas Guida, por natureza, era uma mulher elegante e para ficar ainda mais bonita que as da Linha, nem precisava de se aperaltar tanto. Era uma mulher alta acima da média, esbelta e feminina, daí alguma inveja das meninas da Linha
Necas, perguntava-lhe quanta vezes já tinha ido de propósito às compras a Londres ou Paris!
Claro que Guida já tinha passado por Londres e Paris mas não de propósito às compras. Tinha passado meio ano em Harvard na Universidade a tirar uma especialização em ciências financeiras com uma bolsa de estudos, coisa que a Necas nunca conseguiu.
Os ataques de Necas estavam de facto a deixar Guida um bocado desorientada. Não perdeu mais tempo. Perguntou ao Pedro o que era aquilo?
Pedro, também não perdeu tempo. Pôs a Necas em sentido!
Normalizada a situação, veio o casamento. Nova oportunidade para o grupinho da Necas voltar a atacar.
Viriam as matronas provincianas a escorregar dos saltos altos a transpirar por todos os poros e sempre caladas – o casamento era em Junho – os homens com os fatos que tinham comprado para o casamento, que estariam sempre calados ou falariam do Benfica ou do Sporting. Pior ainda, o beberete era servido com requintes de alta sociedade nos jardins da moradia dos pais de Pedro. Como é que aqueles “pacóvios” todos se saberiam comportar?
Provavelmente iriam deitar os copos todos abaixo das bandejas dos criados fardados que andavam a servir pelo relvado e entre as árvores do grande jardim.
Era hábito dizer-se na família que sempre que vinha um elemento de outra sociedade, muita coisa não correria bem. Aí talvez tivessem razão, pois de facto para saber aquelas etiquetas todas e códigos de família só tirando um curso.
Para alem dos hábitos e costumes, cultura própria, linguagem própria – a linguagem era a parte mais complicada. Era como a música: ao som do toque assim se fala: desde falar-se só em estrangeiro, português da Linha, e, nas horas próprias o vernáculo também fazia parte do Dicionário.
Mas aquelas famílias vindas da Beira, não tinham aqueles hábitos ou vícios. Não se saíram mal na festa do casamento. Defenderam bem a honra da sua Dama
Estávamos no início da década de 70. Nem todos se conseguiam livrar ao Serviço Militar no Ultramar. Mas por magia, alguns conseguiam ficar logo na cidade onde aterrava o avião. Ir para o mato era para os menos afortunados.
Nuno, chegou a Luanda, aterra no aeroporto Craveiro Lopes, já tinha os familiares à sua espera e para lhe meterem um bom descapotável nas mãos para começar a apanhar o cheiro da terra de África. Para ele já não era a primeira vez. Já tinha ido várias vezes a Luanda.
Enquanto acabava o curso na Universidade de Coimbra e adiava a ida para o Ultramar como militar, deslocou-se várias vezes a Angola. Aliás, desde muito novo que ia a Angola. Ainda tentou concluir o curso na Universidade de Luanda, mas ainda não havia a cátedra do curso dele nesta Universidade, Direito. Dizia ele com muita convicção, que seria um curso que nunca se ensinaria em Angola. Mas logo a seguir, esse mesmo curso, teve início em Sá da Bandeira.
A família de Nuno, tinha Fazendas por Angola fora.
Lá estava no aeroporto à sua espera, toda a família de Luanda. Já havia várias gerações desta família naturais de Angola, com cruzamentos de cores.
Sozinho com a prima no descapotável de 2 Lugares, segue atrás dos familiares, desce a Av. Lisboa e para ir para o Grafanil (campo militar que recebia toda a tropa que chegava da Metrópole - Lisboa) precisava de apanhar a 2ª Circular Norton de Matos, mas quando chegou à Rotunda da Igreja de Nsª Sr.ª de Fátima, enganou-se e em vez de virar à direita seguindo o carro dos familiares que o conduziria ao Grafanil, ele e a “prima” por engano ou por crer, viraram à esquerda em direcção ao Largo das Ingombotas e daí para a Maria da Fonte »Mutamba »Portugália e Versalles.
Como a Versalles estava com um ambiente um pouco militarizado, arrancam no descapotável em direção à marginal e logo a seguir ao Banco de Portugal, abancam numa daquelas cervejarias que tinham na porta - Reservado direito a admissão.
A prima, a Bela, era uma mestiça quase branca, cabelos compridos louros encaracolados em caracóis louros prateados – mas um louro natural e não pintada – que já conhecia bem Portugal – na altura Metrópole – tinha tirado medicina em Coimbra e conhecia o grupo da Linha do Estoril. Era natural de Malange e quase tinha passado metade dos seus 27 anos na metrópole. Mas os pais também já eram naturais de Angola. Pai branco puro e louro provavelmente descendente dos Bóeres Holandeses, mas tinha sangue e descendência à mistura de portugueses de Trás-os-Montes, e mãe mulata clara.
O pai ao visitá-la em Coimbra quando ela na faculdade, ficou muito chocado quando viu os filhos dos proprietários grandes de Angola estudantes em Coimbra de calças rotas no traseiro, com as nádegas a verem-se. Pensava ele que andavam com as calças assim por terem vergonha de pedir dinheiro ao pai (que tinha tanto dinheiro) para comprar calças das melhores que existissem! ..
Mas não! .. eles fazemiam parte da geração de estudantes ultramarinos que protestavam contra qualquer coisa que também não sabiam bem o quê. Desleixo da roupa, significava desprezo sem saberem de quem, nem quê!
Pressentiam a mudança e não seria nada meiga, mas não sabiam para onde iriam. Era a geração dos hyupis. Geração que na África do Sul estava muito em voga e dominava como na sociedade mundial.
Raramente ou poucos se envolvem nos protestos que os estudantes naturais de Portugal continental organizavam contra a guerra do ultramar.
O Nuno, estudando Direito, mesmo sendo de uma das famílias mais influentes do país, não conseguiu safar-se a ir para o mato. Ele bem mexeu os cordelinhos para ficar a dar aulas como assistente em Luanda, mas como na altura ainda não havia faculdade de Direito em Luanda, noutra área não conseguiu e não teve outra saída se não ir para o mato.
Tinha, era uma condição especial em relação aos outros. Sempre que era permitido aterrar um avião particular na pista de terra batida, era visitado pela lindíssima loura de cara redondinha e sempre sorridente, de cabelos encaracolados.
Mais tarde, restou o aparecer essa loira nos cabelos encaracolados e passou a aparecer uma avioneta que trazia uma também loira mas os cabelos bem lisos sem sangue de origem africano à mistura.
Nuno, chegou a casar-se com a Bela médica mestiça de cabelos louros encaracolados, mas foi casamento de pouca dura. Quando a mãe da Bela o quis encostar à parede por lhe estar a deixar a filha logo após o casamento, ele advertiu-a de que ele tinha cursado Direito em Coimbra, e a senhora calou-se logo. Era o objetivo dele, intimidá-la com a fama da cátedra de Direito de Coimbra.
GUIDA, não estava a conseguir integrar-se tão bem na sociedade da Linha e na família poderosa como base antes. Ou melhor, estavam-lhe às coisas que ela não imaginava.
Dizia ela que, aquilo era mesmo uma sociedade secreta. Muitas diferenças nem os próprios as revelavam cá fora. O Pedro parece que também se desinteressou um pouco com a integração rápida e plena da Guida na sua família. Ou talvez a quisesse deixar à vontade dela, para que fosse ela própria a ver com os seus próprios olhos as diferenças.
Havia na realidade códigos de identidade próprios para estas pessoas.
Mas Guida, agora já com um filho, sendo mulher de têmpera rija, não se deixava esmorecer. Também não queria estar a falar sobre todos os pormenores ao Pedro. Sabia que ele estava atento e que estava do lado dela.
Guida, parou para pensar. Seria que a classe a que ela pertencia estava condenada a ser olhada sempre de cima?
O seu primo, que tinha ido para o Técnico, IST. Instituto Superior Técnico de Lisboa. Universidade por onde passava a nata Lisboeta que pensava tirar um curso de engenharia e que na realidade era uma das Universidades melhores do país e da Europa na área de engenharia.
Luís, primo de Guida, entrou para o Técnico, graças ao seu esforço com que tinha terminado os estudos secundários e também uma ajudinha do seu pai, que conhecia alguns professores do Técnico e lá foi a cunhazita.
Luís, levava a lição bem repetida pelo pai, para que se desse sempre bem com os futuros colegas, pois a maioria deles eram filhos de gente muito importante e no futuro poder-lhe-iam ser úteis.
Luís não esqueceu a lição e logo de inicio um colega quis-se fazer amigo dele, porque também Luís era melhor aluno que ele - Diogo.
Luís e Diogo começaram desde o inicio do curso a ser amigos e logo se aperceberam que um, o Luís pertencia à classe Média baixa e Diogo pertencia à classe Alta. Mas nem por isso deixaram de continuar a reforçar a amizade entre os dois. Também estudavam e faziam os trabalhos em grupo.
Diogo, começou a convidar Luís também para os momentos de diversão. Mas Luís logo se apercebe que ele não tinha condições para acompanhar o amigo nas horas e momentos livres. Ele tinha que contar os tostões todos que o pai lhe dava, porque mal dava para comprar os livros e despesas inerentes à universidade.
O amigo, esse andava sempre cheio de dinheiro nos bolsos, tinha conta bancária em nome dele, tinha um apartamento próprio pertinho do Técnico, na Pereira Carrilho, tinha carro com motorista às ordens. Enfim, tinha tudo aquilo que uma pessoa pode aspirar depois de ter tido sucesso na vida.
Mas mesmo assim, Diogo não subestimava Luís. Luís tinha conquistado a sua confiança e estima. Também porque no curso, reconhecia que Luís era melhor que ele. Mas para além disso, achou no Luís um bom amigo como nunca tinha tido. Também porque antes de ter ido para a universidade nunca tinha tido a oportunidade de arranjar amigos ao seu gosto. Eram-lhe sempre impostos pelos grupinhos onde era integrado pela classe social à qual pertencia. Ao começar a conviver com Luís, achou como se tivesse libertado de umas amarras sociais. Queria começar a viver uma nova vida, mais livre, sair do círculo apertado que sempre tinha pertencido desde pequeno. Então, não hesitava em convidar Luís para todos os momentos de alegria e diversão. Apresentava mesmo Luís com muito gosto às suas amigas que pertenciam também à alta sociedade.
Aí, Luís, começou a sentir-se até um bocado lisonjeado pela sorte que estava a ter e passou a não rejeitar nenhum convite que o amigo lhe fizesse, mesmo com as dificuldades financeiras que tinha. Já se tinha habituado a que do bolso do amigo, sairia sempre uma nota que resolvesse o seu embaraço financeiro.
Começou a habituar-se a que muitas das tardes, quando desciam as escadarias do Técnico para a Alam. Afonso Henriques, estava ali um
Volkswagen modelo carocha mas já dos modernos, com o para-choques largo - com chouffer à espera do menino Diogo.
Nas primeiras vezes, quando tinha ali o motorista à espera, despedia-se de Luís de uma forma diferente. Mas depois começou a ser diferente.
Começou a convidar Luís se queria boleia, o seu motorista ia pô-lo a
casa. Luís agradecia e dizia-lhe que não precisava, pois morava perto e não era necessária da boleia.
Passados andamentos, Diogo, antes de começar a descer as escadarias, perguntava a Luís se estava livre e se queria ir passar um bocado bem passado. Luís não rejeitava, pois já sabia que do amigo teria que sair coisa boa
Diogo sinalizado ao motorista para se ir embora e, ele e Luís começavam a descer a Manuel da Maia a pé seguindo para Pereira Carrilho, ao meio paravam, subiam o elevador e lá estavam eles no apartamento onde após uma chamadinha de Diogo, lá apareciam como duas garles: atraentes simpáticas e gostosas.
Luís não se mostrava desambientado, já tinha aprendido que não podia dar a entender que se sentia diminuído em relação à classe de Diogo. Elas eram da classe de Diogo. E ele não estava ali para desperdiçar tal oportunidade. Para ele, era um sonho. Com é que era possível, sendo ele da classe baixa, estar a viver situações como se pertencesse à classe alta?
Deparava-se com um problema!.. tinha feito um acordo com o pai! Que todas as tardes quando saísse do Técnico, iria ajudá-lo umas horitas na loja da Alm. Reis, que era dali que o pai conhecia alguns professores do Técnico quando iam lá comprarem o jornal. Por isso, não podia perder muito tempo no apartamento do amigo com as garles.
Luís, estava a gostar muito daqueles divertimentos que Diogo lhe estava a proporcionar, mas havia coisas que não estava de acordo e até o revoltavam um bocado.
A forma como Diogo tratava o motorista. O motorista de Diogo, era o Sr. António. Um senhor de 60 anos que tinha nascido e criado com a família de Diogo. Por isso, António, estava habituado ao menino Digo desde que o menino tinha nascido. Assim como Diogo estava habituado a António desde sempre como era tratado lá em casa.
Para Luís, Diogo tratava o motorista António como se fosse um escravo.
Um dia, Luís ganhou coragem e disse-lhe que não deveria tratar assim o motorista. Além do mais, António era um homem com idade para ser pai dele, era bom motorista, educado, respeitador e obediente. Não via a razão porque o devia tratar assim!..
Diogo respondeu-lhe que, havia pessoas que nascem para ser escravos. E António pertencia a essas pessoas. Era assim que António devia e gostava de ser tratado, dizia Diogo! Diogo tinha sido ensinado que estas pessoas eram assim que deveriam ser tratadas.
Mas Luís, não encaixava esta teoria. Em muitas teorias aprendidas no Técnico, Luís estava de acordo com Diogo, mas esta de como se deviam tratar as pessoas serviçais, Luís divergia de Diogo.
António, o motorista de Diogo, tinha nascido numa família de serviçais da família Diogo. Depois de crescer e tirar a carta de condução, foi convidado pelos mesmos para motorista da família. Cedo demonstrou ser um bom motorista, era casado e tinha mulher e filhos. Bom profissional e boa pessoa. Por isso foi sempre o motorista pessoal do mais importante membro da família Diogo.
Com o 25 de Abril, esse membro nº 1 da família, que era o pai de Diogo, teve que se ausentar forçadamente (depois de um dia de trabalho quando regressava, a casa sua Vivenda estava cercada pelo COPCON para o prenderem). Para não ser preso e dizia-se seriam julgados no Campo Pequeno, fugiu a salto para o estrangeiro. Assim, o motorista António, foi posto ao serviço exclusivo do menino Diogo.
António estava habituado desde, havia muitos anos a conduzir o patriarca Diogo e era tratado como tal.
Era um motorista responsável, já quase ninguém lhe dava ordens. Havia décadas que era o motorista nº 1 da família Diogo. De um momento para o outro, vê-se a ser tratado por um “miúdo” de uma forma inconcebível e inaceitável.
A família Diogo, também o tinha esquecido António um pouco. Porque, quando o patriarca Diogo teve que fugir para o Brasil, António foi visto a conversar com elementos do COPCON frente à residência dos patrões. Aí, os patrões perderam a confiança que tinham nele. Porque até ali, sempre pensaram que António não era de aderir aos socialismos/comunismos. Mas mesmo assim, não o quiseram mandar embora. Puseram-no como motorista do menino Diogo e assim o menino se encarregaria de o vigiar se continuaria a falar com alguém suspeito do socialismo ou não.
António, quando esperava pelo menino Diogo junto ao Técnico, muitas vezes tinha que se afastar para mais longe enquanto as lutas entre facões partidárias dentro do Técnico chegavam a vias de facto (era o período revolucionário pós 25 de abril), nas quais Diogo estava sempre planejados. Algumas vezes o chegou a ver no terraço dos edifícios barricado atrás de mesas do refeitório que tinha sido levadas para lá para esse efeito. Batalhas estas que por vezes só a presença de elementos dos Comandos Militares é que os faziam terminar com estas cenas.
Tinha também a oportunidade de panorâmica como se movimentavam certos motoristas de figuras importantes que ele conhecia bem, que iam levar e trazer os meninos e meninas ao colégio próximo do Técnico que era frequentado pelos filhos da sociedade alta. Muitos motoristas eram acompanhados por guarda-costas para dar proteção às crianças que transportavam na viatura que conduziam. Nenhum desses motoristas estava a passar por situação tão humilhante como ele. Mas ele também já tinha 60 anos, embora tivessem vivido esses 60 anos ao serviço da família Diogo, dos quais trinta como motorizado estimado. Agora não lhe restava outra alternativa se não aceitar uma situação.
Mas como muita confiança confiança na matriarca Diogo, um dia pensa em apresentar uma situação à Senhora. Ela diz-lhe que a culpa também foi dele ou da classe dele, que fez o 25 de Abril. Porque se não, o marido nunca teria de ter fugido para o estrangeiro e ele, António continuaria a ser o seu motorista.
António ainda aguentou mais algum tempo. Mas depois de ter vivido uma vida a conduzir bons carros, a falar com senhores de respeito e ser respeitado, até já lhe dispensar que fosse abrir um porta para o Senhor entrar, e aos 60 anos ser posto um ser motorista de um menino irreverente, a conduzir um pequeno Volkswagen de duas portas em que o “senhor” o obrigava a abrir sempre a porta para entrar, desanimou completamente da vida.
António, decida pôr termo à vida e suicida-se.
SEMPRE que Luís saía do Técnico e pensava ir ajudar o pai ao Quiosque, por força das circunstâncias, por vezes passava junto ao Colégio dos filhos da classe superior.
Antes do 25 de Abril, costumava ver frente aos portões, os porteiros e guardas de serviço particular, bem ataviados e aprumados, sempre a olhar para todos os lados, ora metiam as mãos nos bolsos, ora as tiravam para não fazerem má figura.
Tinham, era que estar sempre alerta e demonstrar à Direção do Colégio que estava a prestar um bom serviço e se algum desconhecido se abeirasse do Colégio seria logo detetado e o desconhecido se aperceberia logo que estava a ser topado e ele próprio se pirava logo, nem era preciso mandá-lo embora. Assim, a segurança das crianças e dos adolescentes e jovens, - pois ali se começava da pré-primária até estar apto a entrar para a faculdade –estava garantida.
Passados alguns meses após o 25 de Abril, esses serviços tão aprumados e zelosos, desaparam.
As adolescentes passaram a não usar tão rigorosamente as fardas. As saias plissadas pela barriga das pernas, passou acima dos joelhos. Passaram a vir em correria ao Portão, ver passar as manifestações dos estudantes do Técnico, de punho erguido e boinas à Che Guevara em direcção à Praça do Chile onde em algumas também o Diogo lá vinha. O Luís não, porque não tinha tempo para isso, tinha que ir ajudar o pai.
Não demorou muito em que ao fim das tardes, até o colégio fechar,
Rua Pereira Carrilho – Lisboa 1975
eram frequentes os bons carros conduzidos por homens de gravata e por vezes já de idade avançada, colavam-se à frente do colégio à espera que as meninas mais crescidas saíssem aos pares ou isoladas e começassem a andar pelos passeios e seguiam-nas com as brutas máquinas por vezes quase com a roda por cima do lancil do passeio e com o vidro do lado do passeio todo aberto e ele quase a meter a cabeça fora por esse vidro tentando seduzir as meninas com palavras e até mostrando-lhes notas avultadas para conseguir a sedução da adolescente que poderia ser sua filha ou por vezes até neta.
As adolescentes, empurrando-se uma à outra, com sorrisos baixinhos, tentando demonstrar que sabia muito bem o que ele queria, porque tinha chegado a “liberdade” e ela estava ali para ser uma mulher, mas também deixava transparecer o medo da situação e a forma como se tentavam esgueirar para um passei para onde tivessem mais possibilidades de escapar à perseguição pedófila.
O professor deste colégio, que também saía e corria para o cervejaria habitual na Almi. Reis, agarrava-se ao telefone do estabelecimento (ainda não era a era dos telemóveis) e desatava a fazer chamadas seguidas, enquanto aos amigos que já estavam sentados à mesa com as imperais, lhes fazia confusão: como é que aquele indivíduo nem sequer queria conversar com eles e passava o tempo a fazer chamadas e depois quando regressava para junto deles vinha todo nervoso e mal chegava arrancava sem ninguém saber para onde ele ia.
Um dia, este professor, haveria de ser apanhado a assaltar a loja de familiares, precisando de dinheiro urgente para saldar contas de negócios da droga.
No grupo de amigos e colegas de Luís, não eram todos do Técnico. Também havia de outras faculdades. De Direito, também havia alguns.
O Diniz, uma das suas batalhas, era que a sua faculdade, estava a ser invadida por gente que não podia ser. A faculdade de Direito não fora criada para aquela gente. Dizia ele.
Então e depois o que é feito de nós?....Perguntava Diniz!
Luís tinha uma amiga que frequentava Direito. Dizia-lhe ela que, quando passava por alguns exames na faculdade, alguns professores, ao olharem para ela, começavam a ler e reler bem toda a documentação, fixavam os olhos nela e diziam: Não conheço o nome do seu pai!
Luís, viria a dar um bom engenheiro e um bom administrador de Empresas, mas todo aquele período que passou logo antes e pós 25 de Abril até se formar e como bom observador que era, ia observando toda aquela evolução e mudança da sociedade de: antes e pós 25 de Abril.
Descia a Pereira Carrilho, antes de ir fazer umas horas na loja do pai, quis petiscar na Tasca/Restaurante, entrou e sentou-se na mesa corrida para seis lugares sem toalhas, que já tinha sido adaptada aos novos tempos: à
colectivização. Sabia que nesse restaurante já se corria risco se se pedisse sopa; se se entrasse de gravata ou se tentasse cantar o fado, porque por esses tempos: gravata, caldo verde e fado, eram considerados fascismo.
Não era que ele como estudante alguma vez pensasse usar gravata, mas o amigo Diogo tinha-o avisado, porque o Diogo antes do 25 de Abril, às vezes até ia de gravata para o Técnico, talvez para mostrar a boa qualidade dos fatos e gravatas de seda Italiana que vestia, para fazer a distinção!.. que a seguir ao 25 de Abril passou a andar o mais abandalhado possível e de boina Che Guevara. Mas esse Restaurante também era frequentado por funcionários de uma empresa Financeira sediada na zona, que antes do 25 de Abril, entravam e sentavam-se bem engravatados, em mesas só de 2 ou 4 lugares e com conversas na surdina, falando da sua vida na linha do Estoril e das suas vivendas.
No pós 25 de Abril e já no verão quente de 75 esses mesmos funcionários da Empresa Financeira, chegavam com as camisas todas desabotoadas, falando alto, uns sentando-se nas mesas coletivizadas, enquanto outros descarregavam enormes pilhas de jornais (diários de notícias - que nessa altura também era conhecido por Izveztya ou Pravda) quando tinha um diretor que mais tarde viria a ser um escritor (para alguns) e nele se dirigiam insultos a Luís Vaz de Camões.
Nessa tarde, Luís senta-se num dos lugares da ponta da mesa de seis lugares.
D. Zulmira, dona do estabelecimento, já habituada a ele, ela também tinha um filho no Técnico, que eram amigos, dirigiu-se a ele tratando-o por filho e lamentando-se das mudanças a que foi obrigada, ela e o seu marido , sujeitarem-se com toda aquela gente.
O filho tinha resistido às aderências socialistas, mantinha-se com suas convicções políticas mas sem aderir aos partidos. Até criticava aquela gente da Financeira que havia pouco tempo, quando se queriam fazer notar costumavam usar a expressão em voz alta: Sua Excelência o Presidente do Conselho! Professor Doutor Marcelo Caetano !!! e nessa altura já era camarada para aqui, camarada para ali, alguns deles até usavam foice e martelo como amuletos no corta-unhas e lapela do casaco.
Ainda a D. Zulmira estava a falar com Luís e entra um casal jovem, de trinta anos, de boa aparência mas demonstravam ser forasteiros e sentaram-se na mesa, nos 2 lugares da outra ponta da mesa.
D. Zulmira põe fim à conversa com Luís e vai atender o jovem casal.
Mal distribuir a ser servidos e configurar a comer, o marido do jovem casal mete conversa com Luís.
A esposa do jovem casal não olhava para o Luís, não tirava os olhos da comida e do prato, enquanto o seu marido cada vez demonstrava mais entusiasmo em falar com Luís.
Luís não negava a oportunidade ao forasteiro de falar à vontade e dizer o que lhe ia na alma. Rápido entrou na política. Nessa altura as conversas resvalavam rapidamente para a área da política.
Luís fazia-se um bom ouvidor e era o que o seu interlocutor queria, estava a despejar as suas convicções tão rápidas que parecia que saía de uma cassete. Luís já não tinha dúvidas de qual era a área politica em que se situava o forasteiro.
A esposa do forasteiro, mulher elegante e bela, aparência de ser mulher polida, culta e de bem, mantinha-se sem ter dado uma palavra e por vezes parece que até se abstraia da conversa do marido, provavelmente já teria ouvido aquela cassete muitas vezes e antes de ele falar já saberia o que ele iria dizer.
O forasteiro começa a identificar-se e apresenta-se como Eng. Agrário – antes, Regente Agrícola.
Continuava a exibir o seu heroísmo na implantação da Reforma Agrária Revolucionária no Alentejo, enquanto Luís o escutava com atenção metendo só de vez em quando uma palavrinha com dificuldade, porque o forasteiro não lhe dava hipótese de mais.
O forasteiro continuava a descrever as suas acções de comando, com metralhadora G3 - arma que só os militares a poderiam usar – (Luís nem sabia que tipo de arma era aquela, ainda não tinha servido a tropa) - seguido de grupos de acompanhantes preparados para tomarem as
propriedades depois de ele ter disparado uns tiros em direcção ao Monte. Pois os proprietários já se teriam esgueirado, uns de carro, outros de tractor, outros a cavalo ou a correr com medo da morte pelos montes e planícies.
Proprietários esses, que antes tinham recebido o Regente Agrícola como seu Técnico de respeito e de confiança, mal saberiam eles que mais tarde os haveria de correr a tiro das suas propriedades para fora.
Luís, escutava a descrição de todas estas loucas aventuras dada pelo homem que repetidamente evocava os exemplos dos camaradas da URSS.
Mas Luís já tinha lido um livro escrito por um médico francês que esteve 10 anos a fazer a revolução soviética e regressou novamente à Europa depois de ver a chacina de 40 milhões de camponeses por não aceitarem entregar como suas terras para o socialismo.
O forasteiro no que ia dizendo, deixava transparecer os ensinamentos dos cursos de Sindicalismo ministrados por moscovitas e cubanos sediados por aquelas bandas do Alentejo, que até mudou de cor e se espumava todo quando as descrevia para o ouvinte Luís.
Luís, aí decide começar a falar e questioná-lo.
Põe-lhe a questão da FAIXA que dias antes tinha aparecido num dos Telejornais, colocado num Porto Marítimo dos Açores que dizia: NATO! .. SALVA-NOS! .. face à ameaça que pairava dos vasos de guerra soviéticos a circular ao largo da costa portuguesa?
O forasteiro baralhou-se todo, porque na cassete não vinha resposta a perguntas dessas contra a URSS, mas depois de balbuciar um bocado lá se recompôs e disse: se Portugal tinha uma Aliança há tanto tempo com a Inglaterra, porque é que não deveria anular essa aliança, e passar a pertencer à URSS! ..
GUIDA, continuava na sua luta de adaptação à sua nova sociedade.
Sendo filha única, não estava habituada a uma família muito numerosa. Foi uma criação sempre muito só com os pais
Pertencia a uma geração que se possui um pouco dos familiares. Pertencia à geração que fez a ponte da sociedade antiga para a sociedade moderna.
A sociedade antiga, eram as numerosas famílias, que tinham passado fome. A vida era quase uma sobrevivência. Era uma luta terrível por um palmo de terra. A forma de aliviar esse terrível constrangimento, era emigrar parte das famílias. Por vezes, famílias de: sete; oito, nove ou dez irmãos, ficavam reduzidos a um ou dois em Portugal.
Dos antepassados de Guida, também tinha havido, levas de emigração.
Tios-avôs tinham partido para África e por lá ficaram constituindo família.
Dois deles, depois de terem deixado a terra, casaram por procuração e nunca mais voltaram à terra que os viu nascer e partir. Por lá foram gerando famílias africanas, mas só de brancos.
O outro (tinham partido três) casou com uma mulher africana. Depois de lá estar, não conseguiu resistir aos calores de África que estimulavam a atracção pelo sexo oposto.
Este tinha seguido a profissão de funcionário estatal – Chefe de Posto Administrativo. Destacado para os confins de Angola, viver sozinho 24 horas por dia, sete dias por semana e trezentos e sessenta e cinco dias por ano na grande casa que lhe tinham distribuído, era triste e penalizante.
Desanuviava um pouco quando ao anoitecer e vinha alguma frescura, ele saía da comprida varanda coberta com uma capa bem preparada de folhas de Palmeira, descia os três degraus e punha-se a andar pelo meio da mata dos frondosos Jacarandás centenários que formavam uma larga e linda avenida com algumas centenas de metros de comprimento em terra batida, rodeados pelos imponentes Embondeiros. A mata das lianas estava algumas centenas de metros afastada. Os Cipaios, se encarregavam de mobilizar centenas de aldeões nativos com catanas para manterem sempre essa mata espessa bem afastada
O Chefe de Posto Administrativo, passava o tempo a instruir e dar diretrizes aos nativos, o tempo ia passando sem tédio, mas quando terminavam essas horas, os fins-de-semana, porque eles partiam para o mato e estavam para lá anos seguidos onde trabalhavam e viviam nas mesmas instalações durante esse tempo todo.
Não resistiu ao isolamento e chamou para companheira íntima, uma nativa daquelas que antes tinha sido sua serviçal.
O seu pensamento era tê-la ali só para lhe fazer companhia permanente e íntima e quando passassem os quatro anos e tivesse direito a ir passar seis meses de férias à Metrópole (Portugal) que era um direito que esses funcionários tinham em compensação de estarem quatro anos em total isolamento no sertão, aí ele teria a oportunidade de em Portugal arranjar uma cara-metade e essa relação terminaria.
Mas nessa época os cuidados contracetivos ainda eram vagos, quer no pensamento das pessoas, quer nos utensílios. Assim, não tardaram em vir frutos do amor.
Com rebentos, dava-lhe mais poder natural à sua companheira para reivindicar a continuidade sem fim como sua mulher.
Para ele, tornava-se mais difícil abandonar aquela mulher que já era mãe de duas lindas meninas e ir a Portugal procurar outra mulher para a sua futura família que ele sempre ambicionou.
Com o tempo, foi perdendo as esperanças e acabou por pôr de parte a ideia de ir a Portugal à procura da mulher da sua vida e acabou por interiorizar aquela que já era mãe de duas filhas e já vinha outro a caminho para dar continuidade a uma prole que viria a ser de seis.
Assim, conduziu-se mais à vida do Sertão e até passou a ser um funcionário mais dedicado, pois passava praticamente todo o tempo dedicado à actividade profissional.
Os seus dois irmãos, esses tinham seguido a vida de fazendeiros, plantação de café, sisal e outros produtos agrícolas africanos.
Enriqueceram e criaram os filhos da melhor forma, dando-lhes instrução académica.
Estes, por lá organizaram a vida, já um bocado ligados às cidades, seguindo as pisadas dos seus pais ligados aos negócios.
Casaram e constituíram famílias verdadeiramente de cultura africana. A ligação deles à terra de origem dos seus pais tinha-se esmorecido e praticamente deixou de fazer parte do seu pensamento. Para eles, Portugal era visto como um país estrangeiro do outro lado do mundo na Europa.
Se alguma vez lhes apetecesse ir passar férias com as suas mulheres ao estrangeiro, era para a África do Sul que se dirigiam
Portugal nunca deveria nos seus horizontes. Até porque guardavam lá no fundo da memória, como tristes hipóteses que os seus pais eles contavam de quando eram jovens na terra que os viu nascer. Por isso a terra dos pais era para esquecer definitivamente.
A ideia de os seus pais, nunca terem querido voltar à terra onde nasceram, para eles essas terras seriam terras e gentes desprezíveis. Para compor essa ideia, contribuía também a figura que algumas pessoas iam chegando das terras dos pais, que eram pessoas provenientes das aldeias, meios rurais e quase analfabetas que iam para o meio rural das fazendas próximas dos seus pais.
Esses vindos de Portugal, em geral eram homens e depois de estar algum tempo em África e não isolamento das Fazendas, acabavam por se ligar a uma nativa para as suas necessidades sexuais. Depois de passados uns tempos, terem amealhado uns dinheiros e passarem a terem um estatuto de africanos, querendo mostrar que já tinham poder e pertenciam a uma classe superior endinheirada, passavam a ter também umas visitas de uma branca, vinda da cidade, uma tournée por aquelas Fazendas, passava uns dias com um, esse depois passava-a outro e assim sucessivamente a “actriz” depois de fazer uma boa colheita, sim porque ela não ia apanhar os grãos de café, mas ia fazer-se pagar bem paga pelas noites de prazer sexual que ia proporcionar aos fazendeiros.
Para ela eram umas ricas férias, hotel completo, pagavam-lhe uma diária extraordinária e por vezes ainda lhes conseguia surripiar o que eles tinham nas gavetas de atendimento ao público, enquanto eles iam ao armazém buscar mercadoria para entregar ao cliente que estava frente ao balcão
Quando ela achava que ali já não havia mais nada a sacar, esse próprio lhe indicava o amigo da outra Fazenda que já estava à espera dela, como se fosse para uma noite de núpcias.
Ela, como “actriz” batida naquelas andanças, sabia dar a cor e o tempero para a primeira noite se tornar fantasiada como ele queria.
A “actriz” depois de ter o baú bem cheio, regressava à cidade e lá voltava ela ao seu bairro típico, cruzando as pernas de minicalções mais um sutiã, largando sorrisos e olhares a quem passasse por ali e tivesse aspeto de potencial cliente.
Os europeus nascidos em África, afastavam-se destes ambientes. Isto era próprio dos que tinham vindo de terras de Portugal e Europa que muitos deles nem sabiam muito bem onde ficavam, porque também não se interessaram muito em saber.
Havia também os –boeres – descendentes de holandeses que por lá ficaram quando do pouco tempo que Angola esteve sob o domínio da Holanda. Depôs de Angola voltar ao domínio dos portugueses, alguns holandeses preferiram ficar mesmo sob domínio dos portugueses e havia-os espalhados sobretudo por centro e norte de Angola, preferiam fazer vida com mulheres africanas e viver particularmente da caça.
Para os descendentes dos portugueses vindos de Portugal, as longínquas terras de Portugal, eram para esquecer. Estavam a formar uma nova sociedade em África que seria a sociedade do futuro.
Por vezes, alguns tentavam vir a Portugal e dar uma volta pela Europa, eram raros os que se decidiam continuar por terras de Europa.
Com raras excepções.
Uma estudante de Luanda, veio tirar o seu curso a Coimbra. Durante os cinco anos que permaneceu em Coimbra, gostou tanto de Coimbra que depois de regressar a Luanda, passado pouco tempo e estando mesmo bem colocada a exercer, sentia imensas saudades de Coimbra, das quatro estações do ano, da Primavera das flores, o calor seco e saudável do Verão, as tonalidades das folhagens do Outono, do Inverno das neves. Enquanto em África, dizia-me ela, o tempo era sempre o mesmo.
Em Lisboa, cruzei-me com um cidadão euro/africano que veio passar férias a Portugal e dizia-me ele que nesta cidade não se podia andar com tanta gente na rua.
A sociedade que eles estavam a criar em África, era uma sociedade à maneira deles. Menos privações e mais abundância. Menos limitações e mais espaços livres e diversões.
Para além de estarem a criar uma sociedade de culturas diferentes, também estavam a criar uma sociedade de gentes diferentes.
Para além dos euro/africanos, havia os mestiços que em termos de aceitação, ascendiam logo a seguir.
Faziam-se grandes farras em família nos seus espaços privados e particulares.
Era vulgar fazerem-se convívios arrojados de família sem qualquer comemoração especial, com bandas de música ao vivo, onde participavam largas dezenas de convidados de todas as idades, para se irem conhecendo e integrando.
Chegavam-se a ver festas destas onde só havia euro/africanos (brancos nascidos em África. Em convívios os euro-africanos evitavam os europeus, incluindo os portugueses acabados de chegar da Europa. Chegou a acontecer a portugueses acabados de chegar do Portugal europeu e dizerem que já havia muito tempo que estavam em Angola, para serem aceites pelos brancos angolanos nos seus convívios.
Mas também se viam muitos convívios destes onde se viam muitos mestiços.
Africanos, (negros) raramente se viam nestes convívios de brancos.
Quando alguma jovem branca se apaixonava por algum negro, quase que era uma maldição para a família dela, salvo algumas exceções.
Para a família dele, negro, era uma vitória. Havia situações e casos em que os familiares dele, chegavam a organizar-se em defesa de que a ligação de um negro com uma jovem branca, se concretizasse em casamento. Não seria só um caso entre os dois namorados, os familiares dele empenhavam-se fortemente nesse sentido
COMO todos os euro/africanos, os primos de Guida, foram fortemente surpreendidos com a situação que se lhes deparava com a ascensão das ex-colónias portuguesas à independência.
Todos os euro/africanos aspiravam a uma independência para a sua Terra Natal, em que a única coisa que mudaria, seria deixarem de pertencer a Portugal. Deixarem de ser uma Província Ultramarina e passariam a ser um país independente.
Com o decorrer do processo da independência, definir a aperceber-se que o fim iria ser completamente diferente ea ideia de afinal poderem vir parar à terra dos seus pais, começava cada vez a ser mais provável. - Assim aconteceu.
Com a vinda para Portugal, já casados e com filhos pequenos e adolescentes, não podia ser posto de parte que pedia ajuda aos familiares de Portugal que não conheciam, mas sabiam que existiam.
Guida, nunca tinha esquecido que também tinha primos em África. Tinha visto umas fotografias quando era pequena, dos seus tios com umas crianças ao colo, que seriam os primos que tinha em África. Mas já tinha passado algumas dezenas de anos e a imagem estava um pouco esbatida na memória. Em todo o caso, o apelo familiar chamou-a atenção que viriam aí primos de África.
Vieram, chegou a encontrar-se, mas os africanos depois das primeiras ajudas para amaciar o choque da abrupta chegada de África, criada a desenrascar-se pelas grandes cidades, outros não querendo regressar às terras dos seus antepassados preferiram ir formar a cidade de raiz , Vila Nova de Santo André, aí puderam manter alguns dos seus hábitos que traziam de África não se sujeitando às tradições dos seus antepassados e também existem situações antigas que não queriam estar a enfrentar.
Nesta nova cidade, nos seus encontros nas esplanadas e locais de convívio, tentavam manter os mesmos costumes que traziam de África.
Dentro de algum tempo, valendo-se do seu expediente adquirido por terras imensamente vastas passaram a ser independentes e a fazer a sua vida própria.
Essas crianças que vieram de África, foram crescendo por terras Lusas e tornaram-se em homens e mulheres. Desses jovens casais que vieram de África outras crianças foram nascendo por estas terras, mas sempre sendo integradas na cultura dessas comunidades que se foram formando por estas terras e que foram mantendo a sua nostalgia pelas terras que tinham deixado.
Não lhes saiam do pensamento essas terras que tinham deixado e os já nascidos por estas terras foram bebendo essa cultura e passar a sentir saudades das terras onde tinham nascido os seus pais, como se eles lá tivesse nascido também. Chegavam a dizer mesmo: se o 25 de Abril não tivesse acontecido, eles seriam cidadãos africanos e seria lá que eles estariam. Embora a verdade não fosse bem assim.
Os euro/africanos que vieram em crianças de África e os que nasceram em Portugal, todos em conjunto, foram formando blocos sociais, quer em grupos de convívio, quer nas empresas onde trabalhavam, criando uma cultura que não era, nem própria dos seus pais, que correspondesse a África, nem bem própria da sociedade onde viviam.
Estavam a tentar criar uma cultura própria deles, semi-secreta que só eles a poderiam entender.
Os valores que eles estavam a tentar criar e defender, em parte seriam uma ilusão. Não teriam muito futuro em terras europeias. Mas o principal objectivo deles era quase que um protesto por terem sido forçados a abandonar África e virem para Portugal. A culpa seria toda dos outros. Quando na realidade, grande parte da culpa fora deles. Adormeceram à sombra da Bananeira. Pensaram eles que o paraíso estava conquistado e garantido para eternamente. Quando na realidade não estava. Qualquer pessoa que chegasse de fora no inicio da década de setenta às províncias ultramarinas portuguesas, via logo que uma grande mudança social estaria em breve para acontecer em terras africanas sob o domínio de Portugal.
Guida teve uns breves contactos com os seus novos primos, a sociedade onde ela agora estava integrada, não lhe permitia ser um popular, boazinha acolhedora, que seria esta a cultura da sua família.
Chegou-se um questionar a si próprio, se critério tido alguma sorte em ter entrado para a família que entrou.
A sociedade onde ela agora estava integrada, tinha de facto códigos de conduta e regra a cumprir e cumprir. Já tinha aprendido que caso não respeitasse essas regras, poderia estar corrigido à exclusão. Já tinha lido os livros da família e já conhecia um bocado regras da sua nova família. Já ia no terceiro filho. Dois rapazes e uma rapariga. Já tinha interiorizado que as grandes e importantes famílias não têm os filhos que cada mãe deseja ter, têm os filhos que a família acha que devem ter e em geral são muitos. Ela pariu seis, mas não os criou todos. Gostou de amamentar com o seu próprio leite os dois primeiros, que seria os que eventualmente teria tido se casado dentro da sua classe. A partir do terceiro, mal nasciam, passavam a ser criados pelas amas lá em casa.
Depois de estar dentro dessa família e ver o que teria de ser, ainda lhe passou várias vezes renunciar e ir viver a sua vida própria da sua cultura própria de que tinha tantas saudades. Mas conhecia várias histórias de mulheres dessa sociedade à qual ela agora pertencia que por querem estrebuchar um pouco e tentar alterar as regras que lhe eram impostas, foram deitadas ao isolamento e abandono. E ela, não queria passar por tais hipóteses.
Imagine uma mulher de luta e de vencer, não desarmava. Sabia que era inteligente e afinal a vida que ela tinha imaginado para ela própria, estava-lhe a fugir muito.
Conhecia histórias de idênticas à dela, que ela de nenhuma maneira queria que lhe acontecesse.
Utilizando a sua inteligência e sabedoria, impôs-se para não se deixar ostracizar e criar como suas próprias regras, começando por Pedro seu marido.
Pedro torceu o nariz, dizendo-lhe que corria um elevado risco, se tentasse alterar as regras no clã familiar. Eram regras que já vinham de muitas gerações que nunca ninguém se tinha atrevido a alterar. Ele próprio, assustava-o só a ideia de que alguém se atreveria a alterar essas regras, embora não discordando de Guida, manteve-se à margem.
Guida preparou-se bem para iniciar essa nova era. Só tinha duas pesquisas: ou aceitava quase que ser escravizada pelo clã, ou puxava da sua sabedoria e impunha as novas regras.
Ela passaria a ser uma mulher de pleno poder dentro do clã para determinar e não continuar a ser olhada como mais uma para esquecer e pôr de parte até que a morte a levasse e os seis filhos que já tinha dado ao clã, já estavam a ser educados de forma a verem a mãe como uma mãe que ficou um pouco louca e eles, apesar de serem filhos dela, eram sim elementos de pleno direito dentro do clã e passariam a usufruir e ser vistos de pleno sangue clã.
Mas Guida estava a criar uma nova era dentro do clã. Haviam elementos do clã que ainda tentaram impedir as ideias de Guida, valendo-se das suas falsas afirmações «opções que são próprias de elementos destes clãs quando querem ostracizar alguém dentro do clã quando as opções destas não lhe convêm» mas Guida estava fornecida e haveria de levar a dela prá frente e levou.
Passou a estabelecer regras de educação dos seus filhos.
Passou a ir visitar e dar assistência aos seus pais e familiares sempre que quisesse e entendesse.
Passou a criar a sua vida própria como se estivesse dentro do seu meio familiar e cultural de origem ao qual pertencia com total independência e à-vontade.
Mas respeitou plenamente os princípios do clã ao qual agora estava integrado e cumpria rigorosamente a cultura desta família.
Estabeleceu novas regras, que obrigou o clã a entrar na nova era moderna.
O seu marido Pedro, passou a concordar plenamente com a sua esposa Guida e passou a considerar-la uma heroína, chegando ele mesmo e mais alguns elementos deste clã, a dizer que uma mulher estas, já há muito tempo que deveria ter entrado para o clã.
Este clã, hoje segue e vive uma nova era de costumes e cultura, que muito tem contribuído para a modernização e progresso do clã familiar, evitando assim que caísse no marasmo e a agonia que aconteceu a alguns clãs familiares que não sabemam ou não foram capacitados de introduzir as mudanças necessárias para novos e atuais tempos, levando muitos a finar e desaparecerem, por não terem tido a sorte de para lá ter entrado uma GUIDA.