quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã -- Crónica especial - o Pedro - 22-11-2023




O PEDRO

Pedro (nome fictício), adolescente de 14 anos, quase todos os dias desde muito pequeno, via terras de Espanha, até de uma pequena janela do seu quarto onde dormia com seus irmãos. Assim que acabou de se levantar e metro a cabeça por essa pequena janela, logo a seguir aos seus terrenos e montanhas mais afastados e os vinhedos de Portugal, lá estavam as encostas de terras de Espanha a perder-se no horizonte, mesmo antes de partir para a escola todas as manhãs, era a primeira paisagem que lhe dava cirurgia pela frente. Ouvia falar de gente de Espanha que lhe deixou curiosidade, até tinha um tio-avô casado em Espanha, que não teria filhos e Pedro ainda poderia vir a herdar parte dos seus bens em Espanha.

Com 14 anos, surge-lhe a oportunidade que tanto desejava, ir a Espanha passar uns dias. Como já tinha físico de adulto, um grupo de amigos já adultos, ofereceu-lhe a possibilidade de os poder acompanhar e a passagem para Espanha seria durante a noite atravessando o Douro a nadar.

Durante a noite, já junto ao rio correndo cheio com as águas de algumas Turbinas da Barragem a funcionar, os outros já com experiência de atravessar o rio durante a noite, disseram-lhe muito vagamente como desviar atravessar o rio nessas condições. Despiu toda a sua roupa e atou-a à cabeça, os outros lançaram-se ao rio, mas Pedro um pouco atrapalhado pela primeira vez a atravessar o rio e de noite, segue-os, mas atirou-se de salto para a água e fez muito barulho. Já um pouco atrasado dos outros, já só vejo o foco de uma lanterna em cima dele vindo de Espanha e ouve uma voz dizer: traz cá a escopeta! Era um espanhol que estava a dormir na sua vinha a guardar as uvas, era habitual alguns portugueses irem de noite às uvas a essa vinha. Pedro, ao ver-se nessa situação e já estava para lá da veia d`água, segue os conselhos que os outros lhe tinham dado, caso se visse em apuros, deixe-se levar pela água até estar em águas mais mansas, assim fez e foi parar a centenas de metros de distância de onde se desviou da água. Os outros, não os viram mais, pensaram que Pedro se assustou e voltou para trás. Ao sair da água, Pedro tinha a roupa toda molhada, não dava para o vestir, sonoro com ela nas mãos até o ponto de encontro que tinham combinado caso se perdessem uns dos outros, mas esse trajeto era pelo meio de penedos e arvoredos cheios de espinhos, ficou todo arranhado nas pernas e parte do corpo. Ao chegar lá nem vê-los, pensei que Pedro se teria incomodado e voltado para trás.

Era um cruzeiro no meio de um cruzamento de estradas em cima de uma base redonda com três degraus, seria cerca das duas da manhã, Pedro já um pouco cansado, sentou-se na base do cruzeiro, surgiu uma luz de automóvel e Pedro clamou- se, o automobilista ao reduzir a velocidade junto aos cruzamentos atraídos de contornar o cruzeiro que fazia de rotunda, apercebeu-se que estava ali um jovem, parou e viu que estava só com a roupa amarrada em volta do corpo tapando só as partes íntimas, Disse em espanhol a Pedro o que estava ali a fazer, Pedro como não percebeu nada de espanhol, ficou a olhar calado mas viu que dentro do carro seguia uma senhora ao lado do condutor, mais atrapalhado ficou por estar naquele estado, o condutor ainda pensou que se trataria de alguém perturbado mental, insistiu novamente questionado se era português mas já em português, Pedro disse-lhe que sim, o condutor observa que não se trataria de alguém perturbado mental e disse-lhe que entrasse no carro para o banco de trás . Pedro ainda hesitou com a vergonha de como estava, mas não podia perder aquela oportunidade, porque outra não poderia vir.

Seguiram de carro até a localidade mais próxima, Villarino. Junto a umas vivendas o carro parou e o condutor saiu mais a senhora que o acompanhava e disse para Pedro sair também, disse-lhe para entrar num anexo da vivenda e para esperar, onde estava uma cama, chegou com uns panos para lhe limpar o sangue , umas pomadas e fez-lhe tratamento, disse-lhe se tinha fome, sempre a falar num português perfeitamente compreensível para Pedro, Pedro disse-lhe que não. Então, disse-lhe para dormir descansado até de manhã.

De manhã, apareceu uma jovem mulher (a empregada) com comida para Pedro, de seguida chegou o homem que o tinha socorrido e disse a Pedro para onde queria ir, Pedro disse-lhe que ia para a festa dos touros de Formuselho. O homem disse a Pedro que ia trabalhar no hospital (era médico) mas estava para o lado oposto a Fermuselle. Assim, como Pedro era jovem, em pouco tempo chegaria lá a pé. A esposa do médico, disse com sorriso para Pedro, que quando voltasse por ali lhe levasse um quilo de café português, porque era melhor que o café espanhol. Partiram e não os viram mais.

Pedro inicia uma caminhada em direção a Fermuselle, impunha-se agora a travessia de mais um rio, o Tormes, afluente do Douro do lado de Espanha. A visão que Pedro tinha vista de Portugal de toda aquela paisagem, era quase plana entre as duas localidades, Villarino e Fermuselle, mas no terreno era muito diferente e bem mais acidentada, morros e baixos fundos a contorno, descida e subida das margens quase verticais e fundas do rio Tormes ao fazer todo esse percurso. Por campos e caminhos rurais, Pedro tentava passar o mais desesperado possível, evitando qualquer aproximação e contato com as pessoas que andavam a trabalhar nos campos, para não ter de falar e denunciar-se que era português perdido.

Já em Fermuselle, consegui encontrar portugueses, eram muitos, tinham ido à festa dos touros, cruzou-se com os que o tinham deixado no rio, não quis mais nada com eles. Rápido se integrou num grupo mais ou menos da sua idade. À noite, havia que dormir, mas o dinheiro não abundava pelos bolsos, o seu grupo, soube da informação de que o Alcaide teria posto à disposição um casarão escola para os portugueses poderem dormir lá.

Apareceram muitos portugueses para dormir na escola, não caberiam lá todos, o Alcaide decidiu que ficava exclusivo só para mulheres, uma prima de Pedro, embora afastada, que era professora, ali quis valer-se do parentesco, chamou Pedro e disse à organização que não conseguiria ficar ali toda a noite sem ter alguém conhecido por perto, a organização aceitou que Pedro dormisse também na escola junto da professora, o salão estava lotado, dormiam em cima das mesas carteiras e dos bancos onde os alunos se sentavam.

No dia seguinte, havia mais um dia de festa. À noite partiram para Portugal, todos tinham passado para Espanha a salto, de regresso continuaram de passar também a salto. O grupo era grande, não era fácil iludir as autoridades fronteiriças, espanholas e portuguesas, tiveram sorte porque foram informados que por volta das 04:00h da manhã, as turbinas da barragem parariam de trabalhar, o rio ficaria com pouca corrente e seria possível atravessá -lo a pé em qualquer site.

Assim aconteceu, era um grupo grande, sabiam muito e o silêncio seria fundamental para fazerem a travessia do rio para Portugal, mas faziam muito barulho, alguns já vinham tossindo por terem estado várias horas parados deitados dos muros e fragas de papo para o ar a apanhar orvalheira, Pedro foi um deles e de regresso a Portugal, precisou de várias semanas para se ver livre da grande constipação que apanhou.

Pedro não esqueceu o que a mulher do médico que o salvou disse. Mais uma vez teria de ir para Espanha clandestinamente em relação à família e às autoridades fronteiriças. Aproveitou novamente uma festa em Espanha, mas desta vez já bem organizada e lá foi com o quilo de café para a senhora. A senhora quando o viu, disse-lhe que ela lhe tinha dito aquilo a brincar, mas em todo o caso agradeceu-lhe muito e disse-lhe que sempre que fosse a Espanha os fosse visitar.

Alguns anos depois, Pedro, mas agora já de automóvel e o falar espanhol suficiente, foi visitar o homem que o tinha socorrido da maior aflição que já tinha apanhado na sua vida. Já não estavam lá, tinham sido transferidos e ninguém lhe soube dizer ao certo para onde tinha ido o médico que o tinha socorrido da primeira grande aflição da sua vida, mesmo que fosse em Madrid, Pedro teria ido visitá-los.

Américo Martins

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - Crónica dos Tempos - 26-10-2023

 









CRONICA DOS TEMPOS – 26-09-2023.

Os anos passam, a vida muda, os pensamentos mudam, fisicamente também mudamos, mas nos pensamentos, uns mudam mais outros mudam menos e, nada como ir ao BAU buscar aquelas fotos que muitos já nem sabem que existe ou até se existiram. Certo é que, elas existem e perduram nos tempos, para hoje nos podermos confrontar com elas, ver em que mudámos e no que não mudámos.

Uns/umas, provavelmente já não se lembrarão destes momentos, por muito interessantes que tenham sido quando aconteceram, mas a vida dali para a frente também não foi igual para todos, passaram muitos anos, eramos jovens na flor da juventude, não sabíamos e nem quereríamos saber o que nos esperava dali para a frente porque o futuro é sempre uma incerteza e das incertezas muitos têm medo.

O que queríamos era viver aqueles tempos, com a responsabilidade de uma juventude responsável.

Hoje, aqueles que mais nos lembramos desses tempos, ao fazer uma retrospetiva no tempo, até ficamos um pouco banzados.

Por vezes, passo fisicamente por esses locais, paro para ver as alterações físicas desses locais, naturais ou feitas pelo homem, nem parecem os mesmos de outros tempos, lá capturo uma foto ou um vídeo para fazer comparação, mas não há comparação a fazer, outras vezes até passo sem parar o carro e esqueço.

Nós pessoas, passamos pelo ciclo da vida e, os anos não perdoam, mas ao olhar para as fotos e imagens e o que fomos fisicamente noutros tempos, que se não víssemos as imagens nem quereríamos acreditar que poderíamos ser nós, isso danos um certo alento, quem sabe, talvez nos aumente o tempo de vida e a qualidade da mesma. Mesmo que assim não seja ou aconteça, só vermos a nossa juventude em imagens do passado já nos dá momentos de alegria.

As últimas décadas do sec. XX, foram pródigas em apresentar grupos de juventude, embora das mesmas gerações, mas com pensamentos e visões diferentes. Por muito contraditório que pareça, os que mais escola entre quatro paredes tinham, foram os que menos conseguiram acompanhar os tempos, mas foram estes que mais lugares de governação ocuparam. Por isso, nos dias de hoje há muitos países a caminhar para o abismo, porque o mundo de hoje não se compadece ser governado por gente sem conhecimento do passado, do presente e visão do futuro. 

Em todo este tempo desde a nossa juventude até agora, muita coisa alterou, nesses tempos, todos queríamos era igual, diferenças não era importante, mas na realidade elas existiam. Iniciava-se a cultura da igualdade, coisa que nunca existiu nem nunca existirá, há e deve existir sim, respeito de uns para os outros e cada um viva o melhor com suas capacidades.

Em redor das sardinhas ou das castanhas até largávamos vernáculos com as queimadelas das sardinhas ou das castanhas, mas depois de bem comer e bem beber, toda aquela juventude queria era sacudir o corpo, abanar o capacete, havia que queimar as gorduras a mais que foram ingeridas, decidimos ir acabar na Discoteca O Forte, junto ao mar no Estoril, alugamo-la só par nós, eramos cerca de 60, a música era boa, vontade de nos divertirmos não faltava, mas os amores quentes não adiam nem querem perder os momentos certos, era a força da juventude, eramos uma juventude saudável e cheia de vida e imaginação não faltava. Por amor que não estaria a não ser correspondido, alguém fez gestos de se querer atirar ao mar, quem estava por perto e se apercebeu deitou-lhe logo a mão, deu nas vistas, logo uma estudante de psicologia e uma estudante de medicina tomaram conta dela, solidariedade não faltava.

Quem diria que pouco tempo antes, aquela que comia sardinhas e pernas de frango assado ali mesmo naquelas brasas no sopé da serra com o cheiro e aroma agradável das urzes e plantas diversas, contando umas anedotas em voz alta de partir a rir quem as ouvia, pouco tempo depois se quereria atirar ao mar, mas não, seria apenas um gesto para chamar à atenção das suas pretensões, coisas da juventude quando se tudo se quer de tudo o que se pensa, mas tudo acabou em bem.

Hoje, recordamos com saudade esses tempos áureos, somos diferentes, alguns já não estão entre nós, um, faleceu pouco tempo depois ao cair do cimo da parede da vivenda que andava a construir. A vida é assim, transformámo-nos e ficámos diferentes, por vezes, para pensarmos que somos nós aqueles que estamos na foto, aqueles que estávamos lá, até temos de fazer um exercício de pensamento para acreditarmos em nós próprios.

 AmerMart



quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - Crónica 240 - 21-09-2023

Foto dos Tempos

Foto dos Tempos






Assistimos a uma transformação do país bastante acelerada que muitos não querem ver, talvez porque não lhes interessa.

Mas o tempo não perdoa, os efeitos para a transformação acelerada que está a acontecer já foram lançados há muito tempo.

Com uma mudança precipitada de regime em Portugal, o país começou a transformar-se noutro país, as pessoas já constituídas, muitos deles transformaram-se rapidamente também em outras pessoas, os já nascidos e ainda não constituídos já se formaram pessoas diferentes, os que nasceram a seguir já resultantes de geração em geração serão muito diferentes.

Mas porque é que este processo social de transformação é tão estranho e fora do comum! As pessoas em 1974 já esperavam e queriam uma mudança, a que já estava em andamento com o fim de Salazar e o começo de Marcelo Caetano, transição da ditadura para uma democracia controlada, embora lenta e alguns desejosos de que uma mudança fosse mais rápida, mas estava a ser aceito e já estava a produzir os seus efeitos. 

Meados de 1973 estava eu ​​fora de Portugal, chegou um amigo que tinha vindo passar férias em Portugal, disse que em Portugal já se vivia melhor que em alguns países, quase todos já tinham automóvel, alguns já iam de automóvel regar à horta. 

Marcelo Caetano, já tinha começado a mudança, mas bem calculada, ele sabia e conhecia-os bem, quem estava à espera do momento para o assalto. Já tinha dado a oportunidade a Mário Soares de ir discursar aos territórios ultramarinos expor as suas ideias e opiniões para a mudança e, lá foi bem recebido e protegido fazendo os seus discursos das varandas dos palácios dos Governos Civis, os militares a cumprir missão militar por lá, ouviam-no com atenção.

Para muitos dos que estavam à espera da oportunidade para o assalto, não lhes interessava a mudança suave e progressiva do país e com a independência dos territórios ultramarinos a seu devido tempo, passando por uma fase de autonomia para a preparação estrutural e depois a independência total .

Não lhes interessava assim, porque assim eles não tinham a oportunidade de assalto ao poder em Portugal e de entregar os territórios ultramarinos aos seus camaradas das grandes potências que os sustentavam havia algum tempo para que eles fizessem esse favor. Assim, havia que manipular a situação e fazer o golpe militar com armas em Portugal, gerando a confusão para melhor eles poderem tomar o poder.

Depois de fortes convulsões com algumas mortes pelo meio e perseguições em massa a ponto de terem de fugir para o estrangeiro, calcula-se que cerca de 60.000 quadros e empresários, o país ficou com muitos lugares vagos, mas estes lugares seriam rapidamente ocupados por quem não tinha formação nem preparação para os ocupar. Dizia um que acabou de ocupar um desses lugares de responsabilidade numa empresas de maior marca em Portugal e ainda hoje é a empresa pública mais falada em Portugal mas que tem sido um sorvedouro de dinheiros públicos, que foi questionado, porque ele só tinha a 4ª classe e o que teve de fugir deixando o lugar vago tinha formação académica curso profissional completo a nível de bacharelato, o novo ocupante que todos os dias saía às 15:00h para ir preparar a manifestação de rua, dizia que a 4ª classe chagava muito bem, ele só tinha que fazer e mandar fazer o que o partido lhe dizia a ele para ele dizer aos seus subordinados.

Também um pequeno/médio empresário de uma gráfica com 45 trabalhadores, disse que a sorte dele e do sindicalista, foi ele não ter uma arma na mão, quando o sindicalista entrou pela porta dentro gritando: camaradas isto agora é vosso. O proprietário teve de fugir pelas traseiras, mas passado meio ano a gráfica faliu, fechou as portas e todos os trabalhadores foram para o desemprego. Nesses tempos, aconteceu isso a milhares de empresas em Portugal.

Portugal, um país que estava a atrair investimentos estrangeiros a um bom ritmo, inverteu esse sentido e, investimentos estrangeiros passaram a fugir de Portugal e o mesmo passou a acontecer com muitos dos investidores portugueses, foram investir no estrangeiro.

As poucas empresas que não tiveram de passar por este processo, algumas multinacionais e, mesmo assim, quando um administrador de uma multinacional que já estava em Portugal há mais de cem anos e uma grande parte do capital já era portuguesa, ao não querer deixar que a sua empresa fosse assaltada para ser destruída, porque era assim que os que tinham tomado o poder queriam destruir a produção para assim melhor poderem instalar o comunismo soviético em Portugal, alguns trabalhadores da empresa disseram ao administrador que ficasse calado porque se não punham-no na fronteira. Aconteceu que ele não deixou assaltar a empresa, não o colocouam na fronteira e ainda hoje 2023 é uma das empresas mais prósperas da economia portuguesa sustentando o Estado português e muitos funcionários portugueses.

A partir daí,  em quase todas as empresas, públicas e privadas de dimensão superior, os lugares eram ocupados por pessoas que pouco ou nada tinham preparação para o fazer. Houve uma pressão na entrega de diplomas, médios e superiores quase fictícios que foram dados sem a preparação necessária, para iludir técnicos superiores. Atualmente passeiam-se ainda nos corredores do poder figuras que vivem reformas douradas, com níveis e condições de vida que indiciam viver em mansões e com boas fortunas, de cargos de poder que vieram ocupando ao longo dos quase 50 anos, que começaram como moços de recados do partido, obtiveram o canudo de doutor sem quase porem os pés numa faculdade.  Também muitos desses novos formados foram os que viriam a ocupar muitos dos cargos responsáveis ​​nas empresas, mas a cunha e a influência partidária viriam a desempenhar um papel muito importante na colocação de novos responsáveis ​​nos lugares de responsabilidade. As influências de saias e calças, também viriam a ser das primeiras para essa gente chegar aos bons lugares e, tudo isto se manteve até aos dias de hoje com poucas exceções.

Assim, os efeitos destes tempos permaneceram e, não tardaram muito tempo em que as empresas se desmoronaram e desapareceram e, os efeitos sociais vieram a ficar à vista. Os políticos emergidos desses tempos, nunca poderiam ser muito bons e, seus filhos e netos sempre foram os preferidos dos partidos para pôr nos lugares bem remunerados, porque eram os que mais cartazes foram colocados nas paredes para conquistar votos eleitorais para o partido. Depois de permanecerem no poder, a principal preocupação destes é governar para as eleições.

A sociedade subsídio-dependente não tardou em começar a aparecer no nosso país, porque é uma das principais armas para o socialismo se instalar num país, porque é a partir daí que o partido tem mais participantes garantidos. Basta ver que, desde que começou a era dos subsídios, o político que ganha as eleições é sempre aquele que promete mais subsídios.

 

sábado, 2 de setembro de 2023

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - Crónica 239 -02-09-2023 - Sociedade em mudanças aceleradas.

Há publico para este comércio
Pessoas diferentes








 

CRÓNICA 239 – Volta a Portugal de hoje, de ontem e de amanhã- Sociedade em mudanças aceleradas.

Numa livraria a mais de 10.000 km de Portugal, inícios da década de 70 seg. XX, vi um livro que o título me chamou à atenção, autor desconhecido mas comprei-o, já não o tenho porque ia numa mala que se extraviou num aeroporto, esse livro tinha sido escrito 10 anos antes e o autor dizia que, dentro de alguns centenas de anos muitas das pessoas fisicamente não se distinguiram entre sexos, ou seja, sexo masculino e sexo feminino fisicamente seriam muito parecidos.

Não precisou de centenas de anos, bastou passarem algumas décadas, resta é saber se se caminha para o bem ou para o mal da humanidade, os porquês são muitos e já quase todas as pessoas sabem muitos deles.

Atualmente já sabemos que as sociedades nas últimas décadas adotaram formas de viver e de estar na vida que contribuíram muito para a diminuição de nascimentos em determinadas regiões do globo terrestre. Não fora as grandes movimentações em massa, que uns lhe chamam migrantes os globalistas, emigrantes segundo a literatura, ficaram-me bem na memória quando dos meus exames admissão à universidade, nos textos de português vinha lá o significado de: migrante aquele que se desloca de dentro da região do seu próprio país; imigrante aquele que entra num país vindo de outro país; e emigrante aquele que se desloca do seu país para outro país. Mas atualmente há muitas pessoas que fazem e entendem conforme a convenção a ele e ao seu grupo social, leis e regras para esses pouco valem.

Para essas regiões que por vezes englobam vários países, é o caso da Europa, para começarem a receber pessoas em força para colmatar a grande queda demográfica gerada por leis também fabricadas na Europa pela nova sociedade europeia, tiveram de ser gerados conflitos do outro lado do mediterrâneo, que era para depois as pessoas fugidas às guerras poderem entrar em massa na Europa de uma forma abrupta procurando o estatuto de refugiados, não tendo leis e disposições que impedissem essas entradas em massa, porque a Europa já estava com problemas muito sérios com a sustentabilidade demográfica e de uma forma legal já não conseguiu resolver o problema. Finais da década de noventa, em Paris ouvi uma conversa enquanto eu esperava numa fila num Banco para ser atendido, as pessoas que diziam que se os magrebinos queriam paralisar Paris de um momento para o outro era só quererem, quase os serviços primários em todos os edifícios de Paris estavam a ser desempenhados pelos magrebinos. Mas por esta via, a Europa resolveu parte da demografia laboral, mas a sustentabilidade continua por resolver, a resolução é ilusória, mas aumentou a instabilidade social descontroladamente e, os problemas para a Europa não diminuíram, aumentaram e passaram a ser outros, talvez em maior quantidade e ainda mais difícil de resolver.

Do lado sul do mediterrâneo, já há muito que preparavam como atravessar o mediterrâneo para a Europa em massa e sem controlo.

Dois ou três anos antes de rebentar a que lhe quiseram chamar primavera árabe, num país árabe mediterrânico, falava eu com um cidadão que se dizia bastante culto, dizia que até tinha aprendido a distinguir os europeus de nacionalidade de cada país pelo passar a sua mão pela pele da cara de quem quisessem identificar, deixei-lhe passar a mão pela minha cara, mas enganou-se, disse-me que eu era italiano, quando na realidade sou português de origem e antepassados longincos nascido e criado em Portugal. Com sorriso na cara, dizia ele: entrar na Europa é só atravessar o mediterrâneo e apontava mesmo com o dedo para o lado do mediterrâneo em direção à Europa e dizia: em francês, porque só admitia no país dele falar em: árabe ou francês, as língua oficiais dos países árabes e dizia: qualquer dia começamos a atravessar o mediterrâneo e estamos na Europa. Mas essa primavera chamada árabe transformou-se mais num inferno, coisa que os árabes não souberam prever, ou souberam e mesmo assim preferiram a travessia de forma tão desastrosa a continuar no continente africano.

Voltando à semelhança física entre as pessoas dos dois sexos, acontece-nos com frequência, ver pessoas bem perto de nós e estarmos com muitas dúvidas se é homem ou mulher, provavelmente muitas dessas pessoas serão bissexuais, mas alguns deles até serão heterossexuais.

Viajava eu com duas colegas, entrámos numa fábrica querendo falar com a responsável e a interessada na reunião dirigiu-se ao guichê da receção e disse: bom dia, meu senhor, e continuou a falar com ele/ela como se fosse um homem, tinha aparência física e voz se homem, mas eu desconfiei logo que poderia não ser homem. Curiosamente, a pessoa que se dirigiu ao guichê, depois, em tom de brincadeira sentiu-se defraudada, pois era uma pessoa formada com 5 anos de universidade incluindo a área da sociologia, mas confundiu a pessoa fisicamente pelo bom disfarce aparente, porque depois foi chamada pelo nome de mulher e socialmente era mulher.

Estamos numa sociedade em transformação acelerada: culturalmente, mentalmente e fisicamente. Dirão alguns: é dos tempos modernos e não há senão aceitar e adaptarmo-nos. Mas também dirão outros. Não, da forma como as mudanças estão a ser impostas forçadamente, não tem nada com os tempos modernos, tem sim a ver com a sociedade mundial, tem-se estado a dividir em dois blocos: os globalistas que querem impor um tipo de sociedade que é a que a eles lhes convém, e, os não globalistas que não querem aceitar a sociedade que os globalistas querem impor, porque acham que será um desastre para a humanidade e por isso a querem travar.

 

 

 

terça-feira, 4 de julho de 2023

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã: Europa - 04-07-2023

 
Decréscimo de economias europeias nos últimos 50 anos








                                                                          EUROPA

Vivemos tempos incertos, a Europa está a passar por situações das mais aflitivas que já terão passado desde que existe como Europa, desde a sociedade à economia e à segurança.

Começando pela segurança, andaram adormecidos em reuniões famosas queimando tempo a decidindo quantas cores deviam ter bandeiras de grupos de todos os vegetarianos, impedindo que muitos nascessem e como se desviassem marcassem a data para morrer, até que uma guerra lhes/nos batesse à porta. Agora, enquanto vão sofrendo e fazendo esforço penalizando os cidadãos para ver como hão-de suster essa guerra, mas a guerra interna cada vez se agudiza mais e é mais real.

Na economia, os números que vão sendo apresentados são de pouca confiança. Quem os apresenta, acredita mais neles do que os a quem são dirigidos. Quem os apresenta, aprendeu a trabalhar com números de convenção, desde a primeira escola que frequentou até à última escola que frequentou. Depois, também essas pessoas vêm de quem já lidou com esses números fantasiosos, mas voltando aos que agora estão a lidar com esses números, eles, ao entrarem pelos caminhos que entraram, entraram por caminhos com muros muito altos, sem hipóteses de saltarem fora desses caminhos emparedados, assim, só tinham um caminho a seguir, era segui-lo, e seguiram-no, voltar para trás não lhes era possível. Assim, eles próprios se foram autoconvencendo que se calhar estavam a seguir o caminho certo até, porque nunca tive a hipótese ou oportunidade de trilhar outro caminho. E, assim vão vivendo, apresentando números em que só eles próprios acreditam. É esta economia que temos numa Europa que cada vez são mais os que já não acreditam. Mas, os que ainda acreditam, também já não acreditam, mas fazem que acreditam, vão tomando decisões de imposição, conforme a pressão que vão sentido de cada lado, sempre à espera que dê certo, que alguém aprove.

Socialmente, a situação é muito mais satisfatória, porque a falta de recursos ainda se vai controlar, mas a falta de ideias é muito mais difícil de controlar, ou melhor dizendo, ideias erradas causam situações muito mais perigosas, porque a economia e finanças só falharam e faltou para alguns, que são os que na realidade funcionam e fazem funcionar essa economia e essas finanças.

Os europeus que sempre tomaram conta da Europa e tornaram-se no continente mais próspero do planeta, tempos que também foram vítimas da sua própria vulnerabilidade. Depois de terem construído uma Europa com esforço e trabalho de acordo com as possibilidades de cada um, e assim os resultados apareceram também a corresponder a esse esforço, acharam que poderiam dar um ar de graça de beneméritos e, foi aí que quem sempre esperou por essa oportunidade não perdeu tempo e avançou de imediato. Logo, os beneméritos não tiveram mais oportunidade de controlar o seu mundo que construíram. Os aproveitadores não mais recuaram, o avanço foi-lhes mais fácil do que eles pensavam. Assim, tomaram conta da riqueza criada, retiraram-se a sua parte para passarem a viver como Lordes e, foram entregando todas as outras partes a quem os iriam ajudar a pôr fim ao mundo criado por outros. Esse mundo está quase a acabar. Diziam muitos desses ajudados, que a Europa em breve se chamaria Eurábia, outros que ainda se encontravam do lado de lá, que havia um mundo novo que os esperava do lado de cá, era fácil, era só atravessar o mediterrâneo.

Agora, já quase todos juntos deste lado do mediterrâneo, vão lançar os golpes de ataque e de experimentar forças, para ver com que as armas devem iniciar a batalha final.

Mas há uma terceira força, que é muito confusa, são intelectuais europeus especialistas e difusores de assuntos europeus que seguem caminho aos zig-zags.  São eles que difundem as notícias, falsas ou verdadeiras, mas mais falsas do que verdadeiras. Custa a creditar, que eles não sabiam, que se os que planeiam chamar Eurábia à Europa, se um dia sofreram algum poder, os primeiros a ser vítimas eram, esses que agora difundem notícias, mais falsas que verdadeiras  .

Mas há uma esperança nos europeus, esses que aprenderam a tratar os números com verdade, porque sentiram e sente se erram, o erro lhes cai no corpo, por isso ouvem os que apresentam números falsos, como se fossem gente passageira, deixá-los cair por si próprio. Quando caírem, alguém os levantará e lhes dirá: segue por este caminho e vem connosco porque é este caminho que nos leva à Europa.

 



terça-feira, 6 de junho de 2023

Do livro: Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã: 06-06-2023

Carviçais
Mogadouro


 

 




 O QUE ACONTECEU A ESTA REGIÃO! Em 50 anos perdeu 2/3 (dois terços da população)

 

Um novo Sol iluminava a região, todos acreditavam numa nova era de progresso, os produtos da região passariam a ser valorizados.

O vinho e o trigo que em alguns anos de produção mais abundante, até aí teriam de ser consumidos de forma inapropriada, mas avizinhava-se uma nova era e tudo passaria a ser diferente. O tempo de nos anos de muita uva tinha de se vender ao desbarato ou até se estragava, esse período teria acabado para sempre.

 Era princípios do sec. XX, O Rei de Portugal mandava inaugurar a Ponte Ferroviária/Rodoviária do Pocinho sobre o Rio Douro, o progresso subia às montanhas e em breve seriam atravessadas e percorridas diariamente duas vezes, pelas potentes máquinas que transportariam mercadorias e pessoas até aos confins do Nordeste Transmontano.

Não tardou o grande sobressalto do assassinato do Rei e a partir daí tudo iria ser alterado, o país entrou em contínuas suspensões de obras a construir, o desejado comboio só haveria de chegar a Carviçais em 1917.

Para o senhor Manuel (nome fictício) mesmo assim já era uma grande ajuda, da sua aldeia que ficava ainda a uns bons quilómetros, carregava as suas pipas de vinho no carro das vacas e com uma dormida pelo caminho conseguia colocar as pipas de vinho na estação de comboios em Carviçais. Habitou-se a pernoitar sempre no mesmo sítio, quase que se tornou familiar, quando falava deles era como se falasse de alguém da família, mas ele não era o único a pernoitar naquela Ex-Albergaria, pois essa estrada já era muito antiga desde há centenas de anos quando a travessia do Douro para sul era na Barca D`Alva, e haveria de se transformara em Estalagem, sempre gerida por gerações contínuas e sucessivas da mesma família que haveriam de dar continuidade para sempre  que se iam transformando em bons gestores e, com a continuidade a linha ferroviária se estender até Mogadouro e Duas Igrejas, e de a era do automóvel também em grande progresso, as populações pela região aumentavam, muitas aldeias da região passaram a ultrapassar os mil habitantes e outras se aproximavam com o mesmo numero de habitantes, várias povoações chegaram a ter várias escolas e vários médicos permanentes e todas as aldeias passaram a ter novas e boas escolas cheias de crianças que viriam a dar dos melhores técnicos e governantes ao país.

Do nada, muitos cidadãos e famílias transformavam-se em possuidores de médias riquezas e famílias abastadas e alguns até superiores.

Também, em grande progresso não faltariam clientes com abundância para manter este estabelecimento sempre a progredir.

O senhor Manuel, criou cinco filhos, três raparigas e dois rapazes, alguns emigraram, mas outros ficaram a dar continuidade à exploração das suas propriedades e desses vieram vários netos, também para dar continuidade às gerações.

Os netos do senhor Manuel, foram muito utilizadores da Linha do sabor nas décadas de 60, 70 e 80, nas deslocações para escolas, vida militar e trabalho.

Passando a possuir a bela máquina comoda e rápida o automóvel, passaram também a frequentar a Casa de Pastos e Estadias que já o seu avô frequentou quando se deslocava a transportar as suas mercadorias em carros de vacas para a estação de Carviçais e, onde agora não faltava sempre no balcão à disposição do cliente a boa garrafa de aguardente de produção própria à discrição do cliente para poder por o cheirinho no bom café que era servido ao balcão. As pessoas que agora geriam e exploravam este estabelecimento continuavam a ser os descendentes dos que a geriam no tempo do avô Manuel e, com o encerramento da linha finais da década de 80, o movimento automóvel aumentou e os clientes neste estabelecimento à beira da estrada também aumentou muito.

Os responsáveis não tinham mãos a medir, nas horas de movimento gritavam pelos filhos ou filhas, que já na era do telemóvel, descobrir os milagres do telemóvel para eles era mais importante que tudo, mas a mãe  ao ver os clientes parados frente ao balcão à espera que alguém lhes dissesse bom dia e o que desejavam, foi assim que a mãe e o pai e seus antepassados criaram a Grande Casa de Pastos e Estadias, eles filhos/filhas achavam que a vida deles não precisariam daquilo, já tinham alguns estudos e seriam uns futuros funcionários do estado bem remunerados sem precisarem de se chatearam muito com a vida.

Os tempos mudaram rápido, mas não como muita gente pensava, a média das famílias da região que andava pelos 5 filhos passou em duas ou três décadas a um ou dois filhos e, sem gente não há criação de riqueza, nem para a produzir nem para a consumir e, a economia reduz-se para números insignificantes e tudo entra em difault – economia entra em incumprimento - e muitos cidadãos passam a ser dependentes do Estado.

Essas casa que foram durante muitas gerações a criação de muita gente, que formaram doutores e engenheiros, agora exibem a tabuleta de: vende-se, com alguém sentado/sentada à frente permanentemente a olhar para o telemóvel… as gerações desapareceram e, como disse recentemente bum professor catedrático na área da demografia e economia, disse: quando um povo deixa o seu espaço desocupado, outros povos o virão ocupar.

O que aconteceu a esta região que foi das primeiras na Península Ibérica a ser habitada há centenas de milhares de anos, que deu novos mundos au mundo, quem viajou por Áfricas e Américas, a grande maioria dos portugueses que encontrava  eram oriundo desta região, quem foi que que fez muitos dos trabalhos na Europa da 2ª metade do seculo XX.

O QUE ACONTECEU A ESTA REGIÃO!

 

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Do Livro - Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã: O Inverso das Gerações - 12-05-2023

Fuentes de Oñoro

Vale du Loire






                                                    O INVERSO DAS GERAÇÕES               

 

A Europa iniciava uma fase que viria trazer para sempre mudanças profundas.

Ele, partira com a mochila às costas, nessa data, mochilas só os militares, porque se um civil pensasse usar uma mochila, seria dado e tratado no mínimo como rapazola ou até como tolo.

Quando o barco avistou terra na região de Le Equitene, José, dançaricou de um lado barco para o outro. O barco haveria de aportar em La Rochelle.

Seus familiares, ali para os lados da Beira Alta, ter se iam despedido dele, talvez para sempre. Porque partia para uma Grande Guerra fratricida.

Eles, ali pelas planícies da Normandia, morriam aos milhares e eram carne para canhão. Este foi um dos poucos que se safou.

As durezas das terras da Beira Alta não lhe tinham deixado grandes saudades. Após os seus tempos militares, optou por ficar à procura de uma vida melhor, ali pelos lados Du Loire.

Mais acontecimentos haviam de marcar a época. O início da Revolução Soviética, as aparições em Fátima.

José(agora Josef) que quando partiu da sua terra, não sabia uma única palavra em francês, bem à maneira portuguesa, não tardou em se adaptar às rudes palavras do Agricultor francês que lhe deu trabalho. Le baeuf, no seu pensamento continuava a ser a vaca, igual à que tinha deixado na sua terra. Os utensílios já eram um pouco mais evoluídos e sofisticados do que aqueles que tinha deixado pelas terras da Beira Alta.

As únicas palavras em estrangeiro que ele conhecia antes de ter partido, talvez despedido para sempre, foi quando pelos seus 18 anos, numa arrojada aventura se deslocou a Vilar Formoso e correndo sérios riscos, tentou por entre os pinheiros atravessar a fronteira e percorrer algumas centenas de metros paralelo à Raia Seca (Linha de Fronteira) e penetrar em Fuentes de Oñoro para comprar uma caixa de pitilhos(cigarros).


Ali, a tratar dos animais e de volta das alfaias agrícolas nas margens e Vale do Loire, mesmo que tivesse conseguido fixar as poucas palavras





que foi obrigado a balbuciar em Fuentes de Oñoro para conseguir pedir os pitilhos, não lhe serviriam para nada.

Mas ele continuava a descobrir um novo mundo. A sua terra não lhe saía do pensamento. Quem sabe, talvez um dia pudesse voltar a vela.

Dias, meses e anos passavam, já se ia entendendo com aquela linguagem desconhecida. Já começava a ter umas saídas autorizadas pelo patrão, o marché a quem cumprimentava já com um bonjour e se despedia com um merci.

Continuava a alimentar o seu ambicionado e legitimo desejo de vir buscar uma beirã da sua terra, para formar família, mas as dificuldades eram enormes, quer impostas pelo seu patrão, quer pelas burocracias consulares e fronteiriças que o assustavam e o aterrorizavam e assim, lá continuava ele cada vez se adaptando aos ares neblinais e sol do meio dia do Loire passando por entre as torres dos Chátaus que ele admirava bastante e até gostava de ver mesmo nos dias em que estavam todo o dia encobertos pelo nevoeiro, vendo-se só o cimo das chaminés mais altas.

A empregada du marché, que não era muito bem tratada pelos seus patrões, rapariga para os vinte e poucos anos, quase tantos como ele, perdeu o complexo do estrangeiro desconhecido deixado pela guerra e talvez sem família na sua terra desconhecida que ninguém saberia bem onde seria e passou a responder ao bonjour do desconhecido.

Não queria de forma alguma, admitir que dentro em breve não viria matar saudades da sua terra, pois já que Deus e o destino o tinham poupado aos canhões e em vez de estarem os seus ossos a apodrecer na vala comum, continuava a viver a vida em plena saúde e com objetivos de vida.

Para ele, o casamento só faria sentido se fosse com uma mulher virgem e essa garantia só as da sua terra. Essas sim, porque com saias de burel e até quase aos pés, todas iriam à Igreja com ramo de Laranjeira, salvo alguma mais atrevida e espevitada que quando a guardar as ovelhas nas encostas da Serra Estrela, se enamorava de um pastor e aí as tentações da carne suplantavam todos os esforços e as hipóteses de fecundação se iniciavam antes do casamento.

Josef, ia sabendo que a garçonne du marché já tinha tido vários namorados, mas começava a aceitar que em França era assim.

Foi ali que acabou por ficar e dar o nó com esta.

A partir daí, cada vez mais teria de aceitar mais a nova sociedade que o estava a adotar.

Vieram filhos, a idade ia avançando e as esperanças de voltar à sua terra natal começavam a desvanecer-se. Nunca mais viu as terras que o viram nascer.

Novos tempos vieram e os seus descendentes deixando o Vale du Loire rumaram em direção a Paris. O oposto da terra de son père

Passados tempos, nova Grande Guerra surgiu e a família foi-se perdendo com os tempos e as novas modernidades, os horizontes de Portugal para algum descendente desta família diluíram-se.

Novos tempos, novas mentes, novas possibilidades vieram.

O Maio de 68 veio transformar por completo a sociedade francesa e em parte também a de todo o Mundo.

Já nas décadas de oitenta e noventa do sec. XX, um casal, descendente desta família, construtor civil, da classe média francesa, com uma vida sem problemas financeiros, criava os seus dois filhos, um rapaz e uma rapariga, com tudo o que a juventude francesa da década de 80 e 90  ambicionavam.

Estudos, começar a viver a vida em pleno e cedo, Universidade, passeios, viagens e gozar la vie. Amour libre

A preocupação com o futuro não era grande. Son père èra riche, ainda tinha muitos anos para viver, logo não faltaria sustento

Ele, rapaz, acabaria por finar na droga.

Ela, rapariga, parou e pensou na vida.

Catherine bateu os trinta, já tinha corrido meio mundo. Veio-lhe à memória a sua descendência de Portugal. Já toda a gente da família tinha esquecido Portugal.

Vai à Gare Montparnasse, mete-se num le tren e vem por aí abaixo até ao Algarve. Já com alguns dias de Algarve, começa a balbuciar algo de Luso, conhece um lusitano a quem se ligou a tempo inteiro e começa a desfiar o rosário da vida dos seus antepassados.

Ao mesmo tempo, ela própria não perdeu tempo, quis começar a gestação de sangue lusitano, e do deu sangue e dá início a um descendente direto lusitano.

Descobriu e conheceu os descendentes dos seus antepassados, fixando por cá arraiais.

A ligação com o progenitor do seu rebento não foi muito duradoura. Cansou-se de terras lusas, entregou o rebento à progenitora do progenitor do seu rebento e regressou a terras gaulesas.

Mas de vez em quando, cá vinha visitar terras lusas e o seu rebento.

Le tren, parte du Paris, Gare Montparnasse, a viagem criou cansaço e stress. Stª Apolónia continuava distante, mas cerca das 23:00h, le tren começa a abrir as portas já em Sta. Apolónia

Catherine não esperava que lá estivesse alguém à sua espera, pois não tinha avisado os seus “primos” de Lisboa de que vinha. Mas mal poisou um pé fora da porta do comboio, alguns olhos, corriam muito rápido as portas todas.

Estavam em pé, ali por perto e quase encostados às paredes. As bifffas estavam chegando e poderia haver alguma que desse um pouco de sorte e desse jantar e dormir de borla.

De rápido Catherine, cruza os olhares com um deles. Quase não houve palavras. Catherine ainda não dominava muito bem o português e Kambo José, de francês, népia!…

Um bocado desconfiados, um com o outro, Catherine faz sinal ao táxi e lá partiram em direção às colinas da cidade.

A campainha da porta do prédio toca, anuncia lá para cima que é a prima de França e vem acompanhada pelo namorado.

Um bocadinho de alegria surge nas suas primas. A prima de França traz namorado e vão ter um bocadinho da noite para treinar o seu francês que tinham aprendido no Liceu e conhecer esse novo namorado.

Generalizava-se a alegria, pois só era preciso meter mais algumas sandes no saco para levar para a praia no dia seguinte, que era Sábado e já estava programado para ir iniciar a época de praia à Costa da Caparica.

Haveria com certeza dois lugares no carro e mesmo carros na família não faltavam, se fosse necessário levariam dois carros.

O elevador chegou ao 5º andar, a porta abre-se e a prima francesa sai sorridente com a sua pequena mala na mão. A seguir, vem o seu companheiro de braços estendidos ao longo do corpo e nada nas mãos. Embora se fizesse envergonhado, na realidade ele não vinha nada envergonhado, já tinha experiência naquelas andanças e já sabia bem como comportar-se para que o seu intento resultasse.

Primos e primas de Catherine, cumprimentaram Kambo com sorriso, embora amarelo, pois tinham que dar uma de bom portuguesismo antirracismos e civilização, sendo nós um povo multirracial que deu novos mundos ao Mundo, haveria que dar o exemplo.

Não foi preciso apontar-lhes os sofás, e Catherine, respondendo às primeiras perguntas, questionou logo se podiam tomar um duche e Kambo fosse primeiro, convinha ela ficar a preparar a receção do casal, que se avizinhava uma noite em cheio.

Alguém, já não lhe começava a escapar qualquer desconfiança, pois Kambo quase não falava, só acenava: sim ou não, e alguma palavra que lhe foi arrancada, respondeu num português/africano. Ainda quiseram pensar que seria ele que estava a querer ser simpático, querendo falar português com os primos de Lisboa e ao mesmo tempo que se iria treinando no português para o futuro enlace, mas também não era bom da parte dos primos, estar a haver antecipações.

Deram a entender que estavam um pouco cansados e durante o dia quase não tinha havido tempo para comerem.

Era um convite a que lhes fosse preparada uma boa refeição e para irem de seguida para a cama. Mais uma vez, a boa cultura à portuguesa não se deixou ficar mal e foi-lhes servida uma boa refeição.

O primo e primas, não tiveram muito tempo para treinar o seu francês.

As três primas, jovens adultas solteiras, cultas, ainda quiseram aceitar um conto de fadas, mas a mulher do irmão delas, ela e o seu marido, imaginaram logo a tramoia, e não se enganavam.

As visitas já tinham sido bem rececionadas, a barriguinha bem cheia e a próxima etapa era ir para uma boa cama e passar uma bela noite de sexo.

Uma das primas levantou-se um bocadinho mais cedo do que o previsto, pois havia que fazer mais umas sandes para levar para a praia, para o casal que se juntou à família.

Mal fez algum barulho em casa, sente logo abrir a porta do quarto dos “primos franceses.”

Era Kambo, perguntou-lhe se queria ir à retrette. Kambo olha com cara de querer saber o que ela quereria dizer. Ela corrigiu - casa de banho! Kambo disse logo que sim e que seria rápido.

Foi de facto rápido e dirige-se para a porta da rua e diz que só quer sair para a rua.

Ela perplexa, começa a confirmar o que ela e o seu marido, já quase tinham a certeza. Kambo José, sai com pressa, mas com paciência, chama o elevador, entra, desce, sai para rua e desaparece.

Catherine, não se mostrou preocupada. Era uma prática normal da sua geração. Porque não também em Portugal! Ela até gostava de Portugal e dos portugueses.

Quando viajava de automóvel por Portugal fora, costumava dizer que Portugal nesse momento, lhe fazia lembrar a França de há vinte anos. Portugal estava todo em obras.

Portugal atravessava a era da construção das autoestradas de Ferreira do Amaral.

Seus pais, casal reformado, mas ainda relativamente jovens, e com uma boa reforma, começaram também a vir visitar os seus descobertos primos de Lisboa pela sua filha.

Mas quem os fazia viajar para este país, era o seu único descendente, que sua filha quis vir conceber e nascer no Portugal dos seus antepassados.

O filho, tinham-no perdido desastrosamente. A filha já lhe tinha dado um neto e provavelmente seria o único com que ficariam.

Não tinham muitos conhecimentos sobre Portugal. A mulher do casal, que era a descendente do homem que partira de terras da Beira no início do século XX e deixou descendentes em França mas esses quase que deixaram apagar por completo essa ligação a Portugal, viram agora reavivar as ligações, depois de o Mundo ter mudado tanto, as distancias serem mais curtas.

O rebento que a sua filha veio colocar no Portugal dos seus antepassados, fez com que este casal passasse a vir com frequência a Portugal, onde a sua descendência se mudou de França para Portugal.

Ele, marido do casal, que teve de aprender o português indispensável para andar por cá, não era muito do seu agrado vir tantas vezes a Portugal, mas sua mulher que era a descendente de Portugal, parece que cada vez ficava mais presa a Portugal, se por ter cá o único descendente ou se por ter tido a oportunidade, dada pela sua filha, de se ligar aos antepassados que já considerava perdidos.

Mas as saudades de Paris eram muitas. Entrava ele na Estação do Metropolitano das Picoas em Lisboa, dá um olhar de espanto e confusão, era de noite, ainda quis pensar que estava em Paris. A entrada desta estação, confunde-se com a do Metropolitano de Paris. É igual às de Paris. Foi uma oferta do Metro de Paris ao Metro de Lisboa.