quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã -- Crónica especial - o Pedro - 22-11-2023




O PEDRO

Pedro (nome fictício), adolescente de 14 anos, quase todos os dias desde muito pequeno, via terras de Espanha, até de uma pequena janela do seu quarto onde dormia com seus irmãos. Assim que acabou de se levantar e metro a cabeça por essa pequena janela, logo a seguir aos seus terrenos e montanhas mais afastados e os vinhedos de Portugal, lá estavam as encostas de terras de Espanha a perder-se no horizonte, mesmo antes de partir para a escola todas as manhãs, era a primeira paisagem que lhe dava cirurgia pela frente. Ouvia falar de gente de Espanha que lhe deixou curiosidade, até tinha um tio-avô casado em Espanha, que não teria filhos e Pedro ainda poderia vir a herdar parte dos seus bens em Espanha.

Com 14 anos, surge-lhe a oportunidade que tanto desejava, ir a Espanha passar uns dias. Como já tinha físico de adulto, um grupo de amigos já adultos, ofereceu-lhe a possibilidade de os poder acompanhar e a passagem para Espanha seria durante a noite atravessando o Douro a nadar.

Durante a noite, já junto ao rio correndo cheio com as águas de algumas Turbinas da Barragem a funcionar, os outros já com experiência de atravessar o rio durante a noite, disseram-lhe muito vagamente como desviar atravessar o rio nessas condições. Despiu toda a sua roupa e atou-a à cabeça, os outros lançaram-se ao rio, mas Pedro um pouco atrapalhado pela primeira vez a atravessar o rio e de noite, segue-os, mas atirou-se de salto para a água e fez muito barulho. Já um pouco atrasado dos outros, já só vejo o foco de uma lanterna em cima dele vindo de Espanha e ouve uma voz dizer: traz cá a escopeta! Era um espanhol que estava a dormir na sua vinha a guardar as uvas, era habitual alguns portugueses irem de noite às uvas a essa vinha. Pedro, ao ver-se nessa situação e já estava para lá da veia d`água, segue os conselhos que os outros lhe tinham dado, caso se visse em apuros, deixe-se levar pela água até estar em águas mais mansas, assim fez e foi parar a centenas de metros de distância de onde se desviou da água. Os outros, não os viram mais, pensaram que Pedro se assustou e voltou para trás. Ao sair da água, Pedro tinha a roupa toda molhada, não dava para o vestir, sonoro com ela nas mãos até o ponto de encontro que tinham combinado caso se perdessem uns dos outros, mas esse trajeto era pelo meio de penedos e arvoredos cheios de espinhos, ficou todo arranhado nas pernas e parte do corpo. Ao chegar lá nem vê-los, pensei que Pedro se teria incomodado e voltado para trás.

Era um cruzeiro no meio de um cruzamento de estradas em cima de uma base redonda com três degraus, seria cerca das duas da manhã, Pedro já um pouco cansado, sentou-se na base do cruzeiro, surgiu uma luz de automóvel e Pedro clamou- se, o automobilista ao reduzir a velocidade junto aos cruzamentos atraídos de contornar o cruzeiro que fazia de rotunda, apercebeu-se que estava ali um jovem, parou e viu que estava só com a roupa amarrada em volta do corpo tapando só as partes íntimas, Disse em espanhol a Pedro o que estava ali a fazer, Pedro como não percebeu nada de espanhol, ficou a olhar calado mas viu que dentro do carro seguia uma senhora ao lado do condutor, mais atrapalhado ficou por estar naquele estado, o condutor ainda pensou que se trataria de alguém perturbado mental, insistiu novamente questionado se era português mas já em português, Pedro disse-lhe que sim, o condutor observa que não se trataria de alguém perturbado mental e disse-lhe que entrasse no carro para o banco de trás . Pedro ainda hesitou com a vergonha de como estava, mas não podia perder aquela oportunidade, porque outra não poderia vir.

Seguiram de carro até a localidade mais próxima, Villarino. Junto a umas vivendas o carro parou e o condutor saiu mais a senhora que o acompanhava e disse para Pedro sair também, disse-lhe para entrar num anexo da vivenda e para esperar, onde estava uma cama, chegou com uns panos para lhe limpar o sangue , umas pomadas e fez-lhe tratamento, disse-lhe se tinha fome, sempre a falar num português perfeitamente compreensível para Pedro, Pedro disse-lhe que não. Então, disse-lhe para dormir descansado até de manhã.

De manhã, apareceu uma jovem mulher (a empregada) com comida para Pedro, de seguida chegou o homem que o tinha socorrido e disse a Pedro para onde queria ir, Pedro disse-lhe que ia para a festa dos touros de Formuselho. O homem disse a Pedro que ia trabalhar no hospital (era médico) mas estava para o lado oposto a Fermuselle. Assim, como Pedro era jovem, em pouco tempo chegaria lá a pé. A esposa do médico, disse com sorriso para Pedro, que quando voltasse por ali lhe levasse um quilo de café português, porque era melhor que o café espanhol. Partiram e não os viram mais.

Pedro inicia uma caminhada em direção a Fermuselle, impunha-se agora a travessia de mais um rio, o Tormes, afluente do Douro do lado de Espanha. A visão que Pedro tinha vista de Portugal de toda aquela paisagem, era quase plana entre as duas localidades, Villarino e Fermuselle, mas no terreno era muito diferente e bem mais acidentada, morros e baixos fundos a contorno, descida e subida das margens quase verticais e fundas do rio Tormes ao fazer todo esse percurso. Por campos e caminhos rurais, Pedro tentava passar o mais desesperado possível, evitando qualquer aproximação e contato com as pessoas que andavam a trabalhar nos campos, para não ter de falar e denunciar-se que era português perdido.

Já em Fermuselle, consegui encontrar portugueses, eram muitos, tinham ido à festa dos touros, cruzou-se com os que o tinham deixado no rio, não quis mais nada com eles. Rápido se integrou num grupo mais ou menos da sua idade. À noite, havia que dormir, mas o dinheiro não abundava pelos bolsos, o seu grupo, soube da informação de que o Alcaide teria posto à disposição um casarão escola para os portugueses poderem dormir lá.

Apareceram muitos portugueses para dormir na escola, não caberiam lá todos, o Alcaide decidiu que ficava exclusivo só para mulheres, uma prima de Pedro, embora afastada, que era professora, ali quis valer-se do parentesco, chamou Pedro e disse à organização que não conseguiria ficar ali toda a noite sem ter alguém conhecido por perto, a organização aceitou que Pedro dormisse também na escola junto da professora, o salão estava lotado, dormiam em cima das mesas carteiras e dos bancos onde os alunos se sentavam.

No dia seguinte, havia mais um dia de festa. À noite partiram para Portugal, todos tinham passado para Espanha a salto, de regresso continuaram de passar também a salto. O grupo era grande, não era fácil iludir as autoridades fronteiriças, espanholas e portuguesas, tiveram sorte porque foram informados que por volta das 04:00h da manhã, as turbinas da barragem parariam de trabalhar, o rio ficaria com pouca corrente e seria possível atravessá -lo a pé em qualquer site.

Assim aconteceu, era um grupo grande, sabiam muito e o silêncio seria fundamental para fazerem a travessia do rio para Portugal, mas faziam muito barulho, alguns já vinham tossindo por terem estado várias horas parados deitados dos muros e fragas de papo para o ar a apanhar orvalheira, Pedro foi um deles e de regresso a Portugal, precisou de várias semanas para se ver livre da grande constipação que apanhou.

Pedro não esqueceu o que a mulher do médico que o salvou disse. Mais uma vez teria de ir para Espanha clandestinamente em relação à família e às autoridades fronteiriças. Aproveitou novamente uma festa em Espanha, mas desta vez já bem organizada e lá foi com o quilo de café para a senhora. A senhora quando o viu, disse-lhe que ela lhe tinha dito aquilo a brincar, mas em todo o caso agradeceu-lhe muito e disse-lhe que sempre que fosse a Espanha os fosse visitar.

Alguns anos depois, Pedro, mas agora já de automóvel e o falar espanhol suficiente, foi visitar o homem que o tinha socorrido da maior aflição que já tinha apanhado na sua vida. Já não estavam lá, tinham sido transferidos e ninguém lhe soube dizer ao certo para onde tinha ido o médico que o tinha socorrido da primeira grande aflição da sua vida, mesmo que fosse em Madrid, Pedro teria ido visitá-los.

Américo Martins