| Terras Origens de Júlio e Inês |
| Zona da Pensão |
JULIO - O MIUDO ESPERTO
Familiares, embora afastados que
viviam em Lisboa, ao irem à terra, ao falarem com o miúdo, notavam que se
estava a perder ali um miúdo esperto, e que se fosse para a cidade, poderia vir
a ser alguém no futuro.
Um dia houve, em que lhe
propuseram se queria ir com eles para Lisboa.
Júlio não se fez rogado, como
ainda adolescente, precisava de autorização dos seus pais e onde ficar na
Capital.
Quem o convidou, de imediato lhe
ofereceu residência e Júlio inicia a sua diáspora pela Capital.
Começou a trabalhar numa loja dos
protetores e os mesmos a sua intenção seria para que Júlio começasse a estudar
à noite enquanto trabalhava de dia. Assim, teria menos tempo para,
eventualmente vir a apanhar os maus vícios de uma grande cidade.
Júlio, ainda iniciou os seus
estudos à noite depois de sair do trabalho, mas depois de ver muita coisa na
capital, não era bem aquilo que ele queria. O seu objetivo principal era ganhar
muito dinheiro. O seu feeling, dizia-lhe que na capital havia grandes
possibilidades de ganhar fortunas e não era bem através dos estudos que ele,
Júlio, via esse furo.
Depois de se ambientar na grande
cidade e já com idade para isso, decide-se pela independência, procura um
emprego e abandona os protetores/tutores que o tinham trazido da terra.
No seu novo trabalho, atrás de um
balcão de uma Pastelaria, o rapaz brilhava. Dava nas vistas com a agilidade com
que atendia os clientes.
Após atingir a maioridade, não
lhe faltavam ofertas de trabalho para ir trabalhar para outros locais.
Aceitou o mais bem remunerado e
muito acima de todos os outros, ir tomar conta da Gerência de uma Pensão, mas
não lhe disseram logo de início que era de Curta Permanência.
Para este novo trabalho
tinham-lhe oferecido vezes e vezes salário superior ao mais alto que já lhe
tinham oferecido na Pastelaria.
Não hesitou em aceitar, embora ainda
não soubesse bem para onde ia, mas logo lhe explicaram e antes que ele pudesse
voltar atrás, ofereceram-lhe percentagem nos lucros da Pensão, Assim ele não rejeitou
e até aceitou com agrado e sorriso, o que ele queria era ganhar muito dinheiro
e depressa.
Depois, de início chegou a pensar
que não conseguiria ter estofo para aguentar situações que se lhe ia deparando
no dia-à-dia na Pensão de Curta Permanência, mas não podia desperdiçar tal
sorte que tivera em lhe aparecer a possibilidade de ganhar tanto dinheiro.
Foi-se aguentando e acabou por
resistir às fortes convulsões noturnas, que ele nem fazia ideia antes de
conhecer: in-loc.
Mas como o dinheiro a cair também
o surpreendeu pela quantidade superior, acabou por gostar e ficou. Até porque
era aquilo que ele queria mesmo, ganhar muito dinheiro.
Com o tempo, Júlio também começou
a ver que a grande quantidade de dinheiro que passava por ali não era apenas da
atividade da curta permanência. Eram também os negócios extras.
Fruto de roubos e assaltos,
passava por ali para comercializar.
Júlio a par com a Gerência,
passou também a ser um comerciante desses produtos.
O dinheiro começa a aparecer com
abundância. Nas suas viagens à terra, começa a ostentar grandes sinais de
riqueza. Dizendo-se industrial de Hotelaria e Restauração. Estava ali um homem
de “sucesso”!
Vestido com roupas de marca, não
levava sempre o mesmo carro e todos eles eram de topo de gama.
Os seus conterrâneos, enquanto
alguns jubilavam o menino que logo de pequeno dava sinais de esperto e o estava
a demonstrar, outros não lhes passava despercebido que tanta ostentação de
riqueza, poderia trazer história obscura!
Júlio já tinha aprendido a lição.
Não se descuidava a dar umas boas ajudas monetárias para ações sociais,
condições inesquecíveis para quem se dedica a este tipo de riquezas rápidas –
dar sempre uma boa ajuda em dinheiro para ações sociais.
Em todo o caso, criou fama na
terra, rapaz esperto, futuro promissor e que poderia vir a ser um grande filho
da Terra em Lisboa, passou a ser olhado com respeito e admiração.
As meninas da Terra, mesmo as
filhas de gente boa e por vezes até ricas, não escondiam os beicinhos por ele.
Júlio era um rapaz giro, de sucesso na capital, vestia bem, passeava-se em bons
carros sempre que vinha à Terra. Seria sempre um bom partido, mesmo para
aquelas que teriam sempre um outro bom partido (casamento).
Inês, enamorou-se de Júlio. Inês
era uma jovem elegante e bonita, de boas famílias, não lhe faltariam bons
pretendentes, mas a moda de Júlio pegou naquela aldeia e redondezas, pois Júlio
tornou-se conhecido nas redondezas, deslocava-se a todas as aldeias do
Concelho, onde chegava e entrava não deixava os outros pagar e, saía e entrava
sempre para bons carros. Nenhum outro da terra, mesmo aqueles que estavam por
fora e já bem na vida, se abalançaria a vir assiduamente passar os
fins-de-semana à terra com a qualidade de vida que ele apresentava. Por isso,
bateu-os a todos.
Inês esquece os estudos e decide
casar com Júlio, embora com alguma desconfiança dos pais, mas acabaram por
consentir, porque também o namoro já tinha passado das marcas e já não havia
mais a fazer se não a deixar casar com ele, Inês já estava grávida.
O casamento foi de arromba. Numa
Quinta à capitalista, com lotação média de convidados, para além dos seus
familiares e da noiva, todos os outros vindos de fora, que ninguém da terra os
conhecia. Eram homens e casais na maioria de idades muito superiores à de
Júlio. Todos ostentavam sinais de grandes riquezas: Nos carros que se faziam
transportar, nos fatos que vestiam e nos óculos escuros que usavam, que ninguém
lhes conseguiu ver completamente a cara.
Os pais da noiva ficaram
surpreendidos e em parte tristes, pois eles até tinham posses para isso e era
tradição da terra, os pais da noiva pagarem as despesas do casamento, embora
tivessem ficado um bocado baralhados com tanta despesa, mas o genro não os
deixou pagar a despesa.
Inicia-se a vida a dois. O desejo
de Inês era ir viver para a capital para junto do marido. Até porque já estava
grávida e havia que preparar a casa para o nascimento do primeiro filho e essa
casa já estava bem prometida por Júlio e bem idealizada por ela.
De acordo com os sinais de
riqueza e a condição de vida que Júlio ostentava, seria uma boa casa e num bom
local e privilegiado da capital.
Júlio continuava a argumentar que
estava em acabamentos da casa e que quando estivesse pronta, então seria a
grande mudança de Inês para essa bela residência.
Os dias passavam e Júlio
continuava a ir sozinho para Lisboa e a vir passar os fins-de-semana à terra com
Inês.
Começa a haver desconfianças por
parte dos familiares de Inês e Júlio não teve outra saída se não levar Inês
para Lisboa.
Júlio não levou Inês para uma
bela casa imaginada por ela, mas sim para um pequeno e antigo apartamento no
bairro da Pensão que geria.
Numa zona degradada da capital,
com casas muito antigas e frequentada por estratos sociais de onde saía a
grande maioria dos clientes que faziam as suas curtas visitas à pensão que
Júlio geria.
Inês, que estava habituada a
viver numa boa e espaçosa casa dos pais, bem arejada e com boa vizinhança que
logo de manhã as primeiras pessoas que se viam se cumprimentavam com um bom dia
como se fossem todos da mesma família, via-se agora a viver num curto espaço
com fraco arejamento, portas velhas, paredes negras, vizinhança de pessoas
desconhecidas falando o português arranhado, praticamente sem ter com quem
falar, o único com quem falava era com Júlio. Mas a loucura inicial que a ligou
e se apaixonou por Júlio também começava a esmorecer.
Não sabia bem porquê, mas
começava a desconfiar da situação em que se tinha metido.
Começavam a vir as saudades dos
pais e familiares, mas Júlio não sentia pressa em a levar à terra matar
saudades.
Depois de muito insistir com ele, Júlio levou Inês à terra, mas recomendou-a para não fazer muitos comentários da vida que levavam em Lisboa
Aos familiares de Inês, não lhes
escapava a deceção que ia na cara da sua filha. Alguma coisa não estava a
acontecer como previsto inicialmente.
Inês não queria comentar. Até por
ela própria, não queria dar parte de fraca. No fundo, ainda havia uns restos de
esperança.
Os tempos passavam e Júlio ainda
não tinha levado Inês a conhecer a sua atividade profissional. A Unidade
Hoteleira que ele se dizia Gerente.
As desconfianças já eram muitas e
Inês decididamente obrigou Júlio a levá-la à Pensão.
Embora Inês não fosse parva
nenhuma, mas era uma rapariga nascida e criada na província, determinados
ambientes de grandes cidades desconhecia-os completamente. No entanto, mesmo
apesar de Júlio a ter levado à Pensão numa hora em que o movimento próprio era
quase inexistente, Júlia ia confirmando as suas suspeições.
Com o tempo, passou a ser todo
aquele movimento da Pensão, conhecido por Inês.
O choque era grande para Inês.
Ora repudiava o ambiente, ora tentava compreender, fazia um grande esforço. Ia
uma grande confusão na sua cabeça. Passou a ir à Pensão também nas horas de
movimento.
O entrar e sair daquelas
raparigas acompanhadas por homens que quase nem falavam. Entravam e entregavam
o dinheiro a quem estava sentado atrás de uma mesita colocada atrás da porta,
que ao mesmo tempo que recebia o dinheiro, pedia-lhe o nome e o número do
Bilhete de Identidade, mas o cliente já vinha avisado pela menina-prostituta
que aquela identificação era um pró-forma, podia-lhe dar um nome errado e nº do
B I errado.
Por vezes era o marido de Inês
que estava atrás dessa mesita a receber o dinheiro e escrever, mas nem sempre
era ele que habitualmente exercia essas funções, com regularidade, Júlio
ausentava-se um ou dois dias seguido, que nem dizia ao certo a Inês para onde
ele ia durante esse tempo.
Inês, ainda chegou a pensar que
seria um lugar para ela, secretária e adjunta do marido, mas depois, mesmo
tendo tentado crer, concluiu que não tinha preparação nem estofo para aquilo.
As cenas que se passavam durante
a noite entre as meninas e os clientes eram demasiado escandalosas, pesadas e
ofensivas para uma mulher menina da aldeia que não fazia a mínima ideia daquele
género de ambiente numa cidade.
Inês, travava uma grande luta
entre si, para tentar ultrapassar e ver se conseguia adaptar-se àquela
situação, mas o repúdio era mais forte.
À tarde, quando as meninas
começavam a chegar, Inês ainda tentava conversar com algumas. Algo lhe dizia
que algumas dessas meninas, poderiam ter tido uma juventude limpa e bem cuidada
como a dela.
Inês, não fazia a mais pequena
ideia qual a proveniência de algumas destas meninas.
Algumas, eram provenientes de
boas e ricas famílias. tendo passado mesmo pela Universidade, mas ao entrar no
mundo do consumo da droga, foram parar ao mundo da prostituição.
Daí, Inês ficar confusa e tentar
compreender a sua situação e não se importava de ir à varanda com algumas. Mas
Júlio depressa a avisou que não podia ser vista na varanda com as meninas, sob
pena de ser considerada também menina dessa atividade pelos muitos e constantes
transeuntes que circulavam nessa rua movimentada da cidade, ela nunca mais foi.
Inês, começa a aperceber-se
também que Júlio faz ausências prolongadas e misteriosas.
Nas suas grandes ausências, Júlio
passou a fazer-se substituir por Lisete, uma das meninas que mantinha uma
relação especial com Júlio, porque também só atendia clientes especiais (todos
os nomes aqui utilizados são fictícios).
Inês, apercebe-se que Lisete,
para além de ser uma rapariga bonita e aparentava ser de boas famílias, já
tinha tido a oportunidade de conversar com ela, parecia uma rapariga culta e
bem dialogante. Tinha jeito para o serviço de rececionista dos clientes.
Compreendeu que o seu marido Júlio, tivesse dado aquelas funções a Lisete.
Júlio dava a entender a Inês, que
o lugar dela não seria na Pensão. O lugar dela era em casa. Não gostava muito
que observasse tudo quanto ele fazia atrás daquela pequena mesa, Inês
compreendeu e passou a deixar de ir à Pensão.
Passado algum tempo, Inês é
surpreendida com a prisão de Júlio. Júlio foi preso por receber produtos
provenientes de roubos.
Para Inês, foi mais um grande
choque. Já tinha uma filha e não tinha mais rendimento nenhum a não ser aquele
dinheiro que Júlio lhe ia dando em numerário e irregularmente, para sustentar a
casa. Praticamente para ela e para a filha, pois Júlio para alem de raramente
comer uma refeição em casa, muitas vezes também não dormia lá em casa.
Agora com o marido preso, a sua
subsistência ficaria difícil. Embora Júlio desse ordens a Lisete para entregar
dinheiro a Inês.
Lisete, era uma menina filha de
boas famílias que se viu obrigada a prostituir-se pela sua dependência das
drogas. Desde que tivesse dinheiro só consumia drogas caras, assim, não havia
dinheiro que resistisse às suas despesas. Assim que se apanhou ela à frente da
Pensão, passou a consumir drogas à vontade e das caras e o dinheiro produto da
Pensão, passou a não dar para entregar a Inês. Foram tempos difíceis para Inês.
Quando Júlio regressa da prisão,
tentou repor alguma ordem, mas já não era fácil. Ele também já se tinha deixado
envolver sentimentalmente com Lisete. Inês passou a segundo plano e Lisete
passou a ser a companheira de Júlio e deixou de atender clientes como
prostituta.
Para Inês, havia que tomar uma
posição. Deixou definitivamente de acreditar em qualquer futuro ligada a Júlio.
Regressou à terra de origem que a vira nascer, mas agora com uma filha para
criar.
Até porque Júlio, volta e meia
era preso, devido a todo o género de negócios escuros e ilegais em que se
metia.
Depois de ser definitivamente
abandonado pela mulher Inês, Júlio começa a fazer vida marital com Lisete.
Mas esta era diferente de Inês.
Lisete era uma mulher da cidade e
viciada em grandes luxos e condições de vida. A juntar à sua criação abastada,
veio o vício da droga enquanto frequentava a universidade e ela sabia o
dinheiro que Júlio movimentava. Por isso, exigiu-lhe como contrapartida para
ser só dele, teria de lhe dar condições de vida excelentes e com dinheiro
suficiente para consumir droga da boa.
Júlio tinha ficado terrivelmente
apaixonado por ela e não resistiu ao seu apelo e exigência.
Compra um amplo e apalaçado
apartamento numa zona de excelência da cidade, onde eram mais caros.
Para começarem a viver nessa
casa, fez obras de restauro com alterações que deixou os vizinhos de boca
aberta. Os vizinhos diziam que só poderia ser um homem muito rico, em que o
dinheiro não seria problema.
Júlio instala-se nessa casa com
Lisete e começaram a fazer uma vida de pessoas muito ricas. Pelas roupas que
vestiam, pelos telemóveis que usavam, pelos carros que entravam para a garagem,
só poderiam ser pessoas muito ricas, diziam os vizinhos.
negócio da compra e venda de produtos roubados
de assaltos a residências.
Não demorou muito em que Júlio
fosse novamente preso. Mas desta vez seria para durar muito mais tempo na
prisão.
Lisete, embora tivesse adquirido
alguma pratica de gestão da Pensão, desde que passou a viver definitivamente
com Júlio, aburguesou-se demasiado e só pensava em consumir e que aquela vida
duraria para sempre, não tendo, portanto, condições para dar continuidade à
gerência da Pensão.
Lisete passou a deixar de ter
rendimentos da Pensão e com os hábitos de consumo que tinha e Júlio estava para
ficar anos na prisão, recorreu a realizar dinheiro por outros meios.
Começa por passar a vender bens e
móveis da casa que Júlio tinha mobilado com tanto gosto.
Os móveis eram dos mais caros do
mercado, mas Lisete vendia-os ao desbarato. Sorte de quem os comprava.
Depois de já só ter as paredes,
Lisete decide começar a prostituir-se e como local na sua própria casa.
Claro que a vizinhança entrou em
desassossego. No meio desta confusão toda, um dos clientes que Lisete atraíra
por contactos telefónicos, um asiático, Lisete sentiu que este também não tinha
problemas de dinheiro, atendeu ao pedido dele para ser exclusiva dele, mas se
lhe garantisse que não faltaria droga da boa para consumir. O asiático aceitou
a condição, pois Lisete era uma mulher loira, alta e elegante, com cerca de
trinta anos, talvez estivesse ali a possibilidade de ele realizar um sonho:
casar e ter um filho de uma europeia e se possível uma loira.
Assim aconteceu, Lisete ficou
grávida do asiático, foge com ele para destino desconhecido, nunca mais se
lembrou de Júlio e Júlio nunca mais soube de Lisete.
