| Mistérios da Tapada |
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2ª Publicação e Continuação da 1ª publicação.
Gilberto começou a trabalhar na
mercearia e como já tinha bom físico, puseram-no a levar os caixotes das encomendas
às costas a casa dos clientes e a trabalhar 10 /12 horas por dia, só lhe
sobravam algumas horas para ir em alguns dias da semana às aulas e de seguida
ia para casa estudar até à 01:00h da manhã, não tinha mais tempo para
estudar.
Assim, procurou situação mais
conveniente e encontrou numa fabrica trabalho que ainda ganhava mais e só
trabalhava 8 horas diárias e era por turnos, por vezes lhe eram bastante
convenientes para estudar.
Aplicou-se afincadamente e completou
estudos suficientes para entrar na tropa como graduado, só que, entretanto,
mudou a lei e quando ele atingiu a idade para ser chamado já era necessário
muitas mais habilitações para fazer o serviço militar como graduado.
Gilberto provinha de uma família
tradicional e que mantinha a sua cultura desde tempos muito remotos, tinha seis
irmãos e 10 tios, 4 da parte do pai e 6 da parte da mãe.
Quando terminou a 4ª classe, Gilberto
sendo um dos melhores alunos não pode ir estudar, porque já tinha um irmão e
uma irmã a estudar e os pais não eram ricos, assim quiseram traçar-lhe o
destino de ficar a trabalhar em casa, agricultura e criação de animais,
pensavam os pais que seria o seu futuro,
mas Gilberto mesmo trabalhando no campo, sempre que podia lia tudo o que lhe
aparecia à frente para ler, ás vezes encontrava bocados de jornais na rua e
levava-os no bolso para, enquanto esperava um pouco pelo almoço, começava a
ler, mas a mãe começava logo a dizer-lhe que ler não era a vida dele.
Também, quando já tinha 14 ou 15
anos e fazia algumas críticas de certas conversas que ouvia por ali, uma prima
da sua idade chamava-lhe comunista. Essa prima estudava num colégio de freiras
e provavelmente era muito influenciada por ensinamentos conservadores excessivamente.
Gilberto ao ser apelidado de comunista ficava perplexo, nem sabia bem o que era
ser comunista. Quando ouvia as pregações dos missionários que iam lá pela
aldeia, depois lá em casa discutia esses assuntos e fazia as suas críticas, sua
mãe era partidária das ideias desse padre pregador que consideravam demasiado progressista,
mas a prima continuava a chamar-lhe comunista, mas também havia mais pessoas da
aldeia que concordavam com as ideias progressistas do padre pregador, a mesma prima
também chamava comunista ao padre pregador.
Gilberto, tinha partido da sua
terra assim que completou os 17 anos, idade legal para poder trabalhar
independente e remunerada, não esperou mais e rumou à cidade.
Como seus pais e irmãos não queriam
que partisse, embora só tivesse 17 anos, mas já era o principal trabalhador lá
de casa, lavoura e animais, se ele fosse embora deixava de haver produtividade
para enviar dinheiro para o irmão e a irmã que estudavam.
Esta família ainda praticava a
cultura de sacrificar uns para beneficiar outros.
Gilberto insistiu ir embora, e
saiu de casa com muito pouco dinheiro no bolso.
Após começar a ganhar dinheiro,
começou logo a enviar dinheiro para os pais.
Ao iniciar o serviço militar,
devido às suas provas físicas e dedicação, foi chamado para especialidade, que
concluiu com boa classificação porque passava sempre à primeira nos testes e
até lhe ficava tempo livre enquanto muitos outros repetiam os testes para
conseguir passar.
A ida para o Ultramar seria mais
que certo porque Gilberto devido à sua especialidade viu que difícil escaparia
a ser mobilizado e para que não acontecesse como alguns seus conhecidos que
passaram muito tempo e só depois é que foram mobilizados, Gilberto meteu o requerimento
para ser chamado e escolheu para onde ir e foi aceite e partiu para Angola.
Em Angola, foi deslocado de seguida
para zona de intervenção onde permaneceu durante um ano.
De regresso á cidade, inicia de
imediato os seus estudos, que passado pouco tempo estudava e dava aulas técnicas
da sua especialidade e ainda fazia trabalhos para uma companhia aérea que lhe
duplicava os eus rendimentos e lhe permitiu fazer algumas viagens aéreas a
outros países que de outra forma nunca teria podido fazer.
Findo o serviço militar passou
dois meses a Portugal e começa a viajar por outros países e continentes para
conhecer melhor. Onde quer que se fixasse e começasse a trabalhar, recomeçava
de imediato os estudos, ocupava em média 14 horas por dia, trabalho e estudos,
conseguindo ainda tempo para fazer viagens locais a título de conhecer povos e
culturas, por vezes era mesmo o organizador das viagens que até atravessavam
fronteiras.
De regresso a Portugal e arranjar
trabalho, inicia seus estudos de ingresso no ensino superior, mas neste período
pós-revolucionário era difícil estudar em Portugal, porque os “estudantes”
especialistas em passar com truques não precisavam de estudar para passar nos
exames, chegavam a dizer aos professores, ou os passavam ou lhes punham uma
bomba debaixo da secretária, mas não deixavam estudar quem queria estudar, por
isso, para quem quisesse estudar a sério, que era quem trabalhava, de dia e estudar à
noite era muito difícil.
Gilberto passou para o ensino
particular e sempre como estudante noturno concluindo a sua licenciatura.,
tirando uns cursos de formação e especialização profissional para mais se
valorizar.
Foi agora ao ter de ler o Capital
de Marx nos seus estudos, que Gilberto ficou a saber o que era um comunista,
mas a sua prima quando ambos tinham 17 anos e ela lha chamava comunista, ela
não faria a menor ideia do que era um comunista. Esta prima, na revolução do 25
de Abril de 1975, haveria de aderir a um partido político comunista com todas
as letras – Marxista-Leninista-Estalinista, mantendo-se sempre militante deste
partido.
Gilberto voltou a procurar o Largo
da Luz, que mantinha ainda uma boa parte do movimento dos seus tempos de inicia
da juventude, e, aqui reencontrou a mulher que haveria de ser a mulher da sua
vida.
Lena, que aí se iniciou como
estudante do secundário, mas quando Gilberto de regresso, Lena já frequentava a
universidade.
O Largo da Luz, ainda mantinha uma parte do ambiente de tempos antes da revolução, porque seus frequentadores não se deixaram imbuir nos excessos da revolução da abril, mas com a revolução a decorrer em Portugal tudo estava a alterar abruptamente e não raras as vezes que alterava para muito pior.
VERA, começou a frequentar
o Largo Luz quando tinha 18 anos, tinha vindo do interior e estava temporariamente
em casa de familiares a tentar a sua sorte, caso não conseguisse voltaria para
a terra.
Quando partiu da terra, vinha no
sentido de tirar o curso de auxiliar, que por esses tempos se fazia muito e
chamava muitas jovens, que não tinham sido bafejadas pela sorte de ter prosseguido
os estudos depois da 4º classe, e queriam fugir aos trabalhos pesados do campo.
Logo de início, as coisas não estavam
a correr tão bem e tão depressa como ela pensava e começou a mudar de ideias
porque o problema principal eram os recursos financeiros que se estavam a
acabar e não tinha fonte de rendimentos que a pudesse ajudar, então, mudou de ideias
e decide procurar atividade que fosse remunerada logo de inicio.
Assim que pode dar início à atividade
remunerada não perdeu tempo, mas deslocava-se diariamente 20 km de transportes
públicos para trabalhar como empregada têxtil numa pequena fábrica, onde encontrou
uma responsável que lhe dava toda a formação laboral e ainda conselhos sociais,
vendo que se tratava de uma jovem ainda muito jovem e poderia perder-se no meio
urbano e citadino.
Assim que começou a frequentar o
Largo da Luz (LL), Vera gostou e continuou, embora não fosse por lá com muita
frequência porque o seu trabalho profissional não dava muitas folgas, só um dia
por semana poderia ir por ali, mas como gostou do ambiente, achou que era ali
que se sentia bem, embora fosse iniciada, mas via que as pessoas que por ali frequentavam,
estavam de acordo com o seu pensamento, alegres, não muito exigentes,
tolerantes e divertidas.
Nas conversa que ia tendo com as
pessoas ia ouvindo coisa que era o que ela pensava há muito tempo, ser uma trabalhadora-estudante.
Falou com quem lhe inspirou mais confiança e deu início aos seus estudos pós 4ª
classe para o 2º ciclo.
Embora fosse um pouco reservada,
mas não tinha dificuldades em ser ouvida pelos novos amigos do LL, era uma
jovem, embora ainda provinciana, mas era atenciosa e respeitadora, não criava
atritos com ninguém, embora gostasse de selecionar as amizades, são os
princípios da cultura que se bebe na criação no interior.
Nos primeiros exames saiu-se bem
para o que ela esperava, não se tinha aplicado nos estudos, porque pensava que era
a brincar e que mais tarde ou mais cedo iria desistir, no trabalho exigiam-lhe
muito, não chegou a criar rotina de estudo e achava que o mais importante era trabalhar
para ganhar dinheiro para mais tarde constituir a sua vida familiar, marido e
filhos.
Mas como passou à primeira nos exames
e segundo disse, ainda ajudou um colega de exames que estava com dificuldades,
que nunca o tinha visto, mas ela tinha o princípio de ajudar quem podia.
Achou-lhe gosto e não perdeu tempo
a matricular-se para o ano seguinte para o 3º ciclo.
Mas agora já encarou a situação
com mais responsabilidade, que já tinha de ser a sério e organizou-se nesse
sentido. No trabalho as coisas também não lhe estavam a correr mal, era aplicada,
gostava de trabalhar e cedo deu nas vistas em quem a liderava, por isso, a remuneração
também ia aumentando.
Agora que já se sentia mais
confiante e enquadrada naquela sociedade, já não olhava para os outros que eram
quase todos mais velhos, como sendo uns sortudos na vida, tinham trabalho, tinham
independência financeira e ainda se estavam a valorizar literariamente, agora
também já acontecia com ela própria, até achava que lhe tinha saído a sorte grande,
confidenciava a quem com quem tinha criado amizades íntimas e confidentes.
O Largo Luz continuava cada vez
mais procurado, estávamos numa época de muita migração do interior para os
grandes centros urbanos. Houve localidades do país, que mais de metade da
população jovem com menos de 40 anos migrou para os grandes centros urbanos,
quase que estavam a criar bairros próprios em que a população era
maioritariamente de uma localidade do interior do país. Estas pessoas vinham
todas ao mesmo, ter a oportunidade de ganhar dinheiro e valorizarem-se em
habilitações literárias.
Embora nem todos tivessem a
iniciativa de se iniciarem nos estudos, sobretudo para os que já tinham uma
idade mais avançada e assim que se apanhavam com a situação laboral garantida
pensavam logo em dar início à sua família própria, casar.
A Vera era de terras distantes,
por essa altura as estradas ainda não eram muito boas as deslocações à terra
tornavam-se em muitas horas de viagem e maçadoras, por isso, Vera ficava muitos
fins de semana sozinha num apartamento que tinham alugado com uma colega que
costumava ir passar fins de semana a casa de uns familiares mais próximos.
Vera também era uma jovem alegre
e gostava de se divertir, sempre que se lhe proporcionavam programas de
diversão não os rejeitava.
Os anos iam passando, num arraial
de uma festa no fim de um comício político não resistiu aos encantos e chamamentos
de um elemento da Banda musical, para o qual ela já olhava insistentemente havia
longo tempo e já estava caidinha por ele.
Ao elemento da Banda, homem já maduro
e experiente nestas andanças não lhe foi muito difícil ler nos olhos de Vera o
quão ela estava a ficar caidinha por ele e ainda nessa noite passaram um
momento íntimo de amor e sexo.
Vera nunca mais viu o primeiro
homem da sua vida, que a tinha seduzido aquela noite, mas decorrido o tempo
necessário, Vera percebeu que estava grávida.
Foi muito complicado para Vera,
pela primeira vez que teve um homem e ficou grávida logo à primeira e nunca mais
veria esse homem, ela e uma irmã, secretamente só entre as duas, deram início à
procura desse homem, mas desistiram porque não conseguiram quaisquer indícios e
rasto desse homem. Na Banda, disseram-lhe que tinham contratado esse músico só
nessa noite, e não souberam mais desse homem.
Vera, chegou a viajar com o irmão
no carro dele à terra visitar a família, estando grávida sem que o irmão e a
família soubessem, só ela e a irmã mais velha a seguir a ela sabiam, o irmão,
que era quem a estava a financiar no curso, não podia saber, senão, sem dúvida
que seria o fim do mundo, para alem de lhe retirar de imediato o apoio financeiro
no curso.
Vera, de formação católica profunda, a
hipótese de aborto estava posta de parte, o nascimento da criança tornar-se-ia
também muito complicado, pois ela era a do meio de três irmãs, e o irmão, o
único rapaz, que era o mais velho, já com quase trinta anos, tinha uma posição
social reconhecida e ao saber que a irmã estava grávida, e ter sido numa festa
no fim de um comício politico e por um homem que ela nunca o tinha visto e
nunca mais o viu, mesmo tendo em conjunto com a irmã ido à procura dele mas nem
sinais nem indícios conseguiram, para o irmão seria um choque muito forte, para
alem de gostar de todas as irmãs, a Vera era a preferida dele, tanto que não hesitou
em financia-la no curso.
Estes quatro irmãos tinham uns
pais, que o pai não se metia muito na vida das filhas, não acompanhava muito a
vida pessoal das filhas desde que se tornaram adultas, mas a mãe sim, queria
saber tudo ao pormenor da vida das filhas, dizia ao filho que ele tinha a
responsabilidade de 2º pai das irmãs fora de casa dos pais, na sua terra natal
não deixava as filhas ir para um baile à noite, se não fossem acompanhadas pelo
irmão.
Vera, com a irmã por perto, inicia
então um período de reflexão e ponderação.
O mal já estava feito, a criança
continuava a desenvolver-se no ventre da mãe, mesmo usando cintas, e como ela
era uma jovem não muito alta e magra, tornava-se difícil continuar a esconder a
gravidez.
Os testes provavam que era uma
criança saudável, Vera movimentava-se bem nos meios de enfermagem onde tinha
conhecimentos, já não era menor, já tinha 22 anos, alegar que foi por violação
e contra a vontade dela para poder justificar o aborto não era fácil provar.
Restavam-lhe duas hipóteses:
abortar clandestinamente ou deixar nascer a criança.
Nascer a criança ia por completo
alterar toda a sua vida, para além dos tumultos que causaria em toda a família
e as consequências que daí adviriam.
O aborto voluntário era proibido
e considerado crime, a gravidez de Vera não estava contemplada por nenhuma das
condições em que a lei permitia abortar.
Assim, abortar ou deixar nascer a
criança, alguma das opções Vera tinha de tomar, mas uma das duas tinha de ser tomada
e sem demora.
Vera, como se movimentava nos
meios de enfermagem, ganhou coragem e optou pela do aborto, conseguiu abortar
sem riscos de saúde e o assunto ficou secreto só entre ela e a irmã que a
ajudou na situação.
Fim da 2ª publicação - continua na próxima publicação.








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