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| Fuentes de Oñoro |
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| Vale du Loire |
O INVERSO DAS GERAÇÕES
A Europa iniciava uma fase que viria trazer para sempre mudanças profundas.
Ele, partira com a mochila às costas,
nessa data, mochilas só os militares, porque se um civil pensasse usar uma
mochila, seria dado e tratado no mínimo como rapazola ou até como tolo.
Quando o barco avistou terra na
região de Le Equitene, José, dançaricou de um lado barco para o outro. O barco
haveria de aportar em La Rochelle.
Seus familiares, ali para os
lados da Beira Alta, ter se iam despedido dele, talvez para sempre. Porque partia
para uma Grande Guerra fratricida.
Eles, ali pelas planícies da Normandia,
morriam aos milhares e eram carne para canhão. Este foi um dos poucos que se
safou.
As durezas das terras da Beira
Alta não lhe tinham deixado grandes saudades. Após os seus tempos militares,
optou por ficar à procura de uma vida melhor, ali pelos lados Du Loire.
Mais acontecimentos haviam de
marcar a época. O início da Revolução Soviética, as aparições em Fátima.
José(agora Josef) que quando
partiu da sua terra, não sabia uma única palavra em francês, bem à maneira
portuguesa, não tardou em se adaptar às rudes palavras do Agricultor francês
que lhe deu trabalho. Le baeuf, no seu pensamento continuava a ser a vaca,
igual à que tinha deixado na sua terra. Os utensílios já eram um pouco mais
evoluídos e sofisticados do que aqueles que tinha deixado pelas terras da Beira
Alta.
As únicas palavras em estrangeiro
que ele conhecia antes de ter partido, talvez despedido para sempre, foi quando
pelos seus 18 anos, numa arrojada aventura se deslocou a Vilar Formoso e
correndo sérios riscos, tentou por entre os pinheiros atravessar a fronteira e
percorrer algumas centenas de metros paralelo à Raia Seca (Linha de Fronteira)
e penetrar em Fuentes de Oñoro para
comprar uma caixa de pitilhos(cigarros).
que foi obrigado a balbuciar em
Fuentes de Oñoro para conseguir pedir os pitilhos, não lhe serviriam para nada.
Mas ele continuava a descobrir um
novo mundo. A sua terra não lhe saía do pensamento. Quem sabe, talvez um dia pudesse
voltar a vela.
Dias, meses e anos passavam, já
se ia entendendo com aquela linguagem desconhecida. Já começava a ter umas
saídas autorizadas pelo patrão, o marché a quem cumprimentava já com um bonjour
e se despedia com um merci.
Continuava a alimentar o seu ambicionado
e legitimo desejo de vir buscar uma beirã da sua terra, para formar família,
mas as dificuldades eram enormes, quer impostas pelo seu patrão, quer pelas
burocracias consulares e fronteiriças que o assustavam e o aterrorizavam e
assim, lá continuava ele cada vez se adaptando aos ares neblinais e sol do meio
dia do Loire passando por entre as torres dos Chátaus que ele admirava bastante
e até gostava de ver mesmo nos dias em que estavam todo o dia encobertos pelo
nevoeiro, vendo-se só o cimo das chaminés mais altas.
A empregada du marché, que não
era muito bem tratada pelos seus patrões, rapariga para os vinte e poucos anos,
quase tantos como ele, perdeu o complexo do estrangeiro desconhecido deixado
pela guerra e talvez sem família na sua terra desconhecida que ninguém saberia
bem onde seria e passou a responder ao bonjour do desconhecido.
Não queria de forma alguma,
admitir que dentro em breve não viria matar saudades da sua terra, pois já que
Deus e o destino o tinham poupado aos canhões e em vez de estarem os seus ossos
a apodrecer na vala comum, continuava a viver a vida em plena saúde e com objetivos
de vida.
Para ele, o casamento só faria
sentido se fosse com uma mulher virgem e essa garantia só as da sua terra.
Essas sim, porque com saias de burel e até quase aos pés, todas iriam à Igreja
com ramo de Laranjeira, salvo alguma mais atrevida e espevitada que quando a
guardar as ovelhas nas encostas da Serra Estrela, se enamorava de um pastor e
aí as tentações da carne suplantavam todos os esforços e as hipóteses de
fecundação se iniciavam antes do casamento.
Josef, ia sabendo que a garçonne
du marché já tinha tido vários namorados, mas começava a aceitar que em França
era assim.
Foi ali que acabou por ficar e
dar o nó com esta.
A partir daí, cada vez mais teria
de aceitar mais a nova sociedade que o estava a adotar.
Vieram filhos, a idade ia
avançando e as esperanças de voltar à sua terra natal começavam a desvanecer-se.
Nunca mais viu as terras que o viram nascer.
Novos tempos vieram e os seus
descendentes deixando o Vale du Loire rumaram em direção a Paris. O oposto da
terra de son père
Passados tempos, nova Grande
Guerra surgiu e a família foi-se perdendo com os tempos e as novas
modernidades, os horizontes de Portugal para algum descendente desta família
diluíram-se.
Novos tempos, novas mentes, novas
possibilidades vieram.
O Maio de 68 veio transformar por
completo a sociedade francesa e em parte também a de todo o Mundo.
Já nas décadas de oitenta e
noventa do sec. XX, um casal, descendente desta família, construtor civil, da
classe média francesa, com uma vida sem problemas financeiros, criava os seus
dois filhos, um rapaz e uma rapariga, com tudo o que a juventude francesa da
década de 80 e 90 ambicionavam.
Estudos, começar a viver a vida
em pleno e cedo, Universidade, passeios, viagens e gozar la vie. Amour libre
A preocupação com o futuro não
era grande. Son père èra riche, ainda tinha muitos anos para viver, logo não
faltaria sustento
Ele, rapaz, acabaria por finar na
droga.
Ela, rapariga, parou e pensou na
vida.
Catherine bateu os trinta, já
tinha corrido meio mundo. Veio-lhe à memória a sua descendência de Portugal. Já
toda a gente da família tinha esquecido Portugal.
Vai à Gare Montparnasse, mete-se
num le tren e vem por aí abaixo até ao Algarve. Já com alguns dias de Algarve,
começa a balbuciar algo de Luso, conhece um lusitano a quem se ligou a tempo inteiro
e começa a desfiar o rosário da vida dos seus antepassados.
Ao mesmo tempo, ela própria não
perdeu tempo, quis começar a gestação de sangue lusitano, e do deu sangue e dá
início a um descendente direto lusitano.
Descobriu e conheceu os
descendentes dos seus antepassados, fixando por cá arraiais.
A ligação com o progenitor do seu
rebento não foi muito duradoura. Cansou-se de terras lusas, entregou o rebento
à progenitora do progenitor do seu rebento e regressou a terras gaulesas.
Mas de vez em quando, cá vinha
visitar terras lusas e o seu rebento.
Le tren, parte du Paris, Gare
Montparnasse, a viagem criou cansaço e stress. Stª Apolónia continuava
distante, mas cerca das 23:00h, le tren começa a abrir as portas já em Sta.
Apolónia
Catherine não esperava que lá
estivesse alguém à sua espera, pois não tinha avisado os seus “primos” de
Lisboa de que vinha. Mas mal poisou um pé fora da porta do comboio, alguns
olhos, corriam muito rápido as portas todas.
Estavam em pé, ali por perto e
quase encostados às paredes. As bifffas estavam chegando e poderia haver alguma
que desse um pouco de sorte e desse jantar e dormir de borla.
De rápido Catherine, cruza os
olhares com um deles. Quase não houve palavras. Catherine ainda não dominava
muito bem o português e Kambo José, de francês, népia!…
Um bocado desconfiados, um com o
outro, Catherine faz sinal ao táxi e lá partiram em direção às colinas da
cidade.
A campainha da porta do prédio
toca, anuncia lá para cima que é a prima de França e vem acompanhada pelo
namorado.
Um bocadinho de alegria surge nas
suas primas. A prima de França traz namorado e vão ter um bocadinho da noite
para treinar o seu francês que tinham aprendido no Liceu e conhecer esse novo
namorado.
Generalizava-se a alegria, pois
só era preciso meter mais algumas sandes no saco para levar para a praia no dia
seguinte, que era Sábado e já estava programado para ir iniciar a época de
praia à Costa da Caparica.
Haveria com certeza dois lugares
no carro e mesmo carros na família não faltavam, se fosse necessário levariam
dois carros.
O elevador chegou ao 5º andar, a
porta abre-se e a prima francesa sai sorridente com a sua pequena mala na mão.
A seguir, vem o seu companheiro de braços estendidos ao longo do corpo e nada
nas mãos. Embora se fizesse envergonhado, na realidade ele não vinha nada
envergonhado, já tinha experiência naquelas andanças e já sabia bem como
comportar-se para que o seu intento resultasse.
Primos e primas de Catherine,
cumprimentaram Kambo com sorriso, embora amarelo, pois tinham que dar uma de
bom portuguesismo antirracismos e civilização, sendo nós um povo multirracial
que deu novos mundos ao Mundo, haveria que dar o exemplo.
Não foi preciso apontar-lhes os
sofás, e Catherine, respondendo às primeiras perguntas, questionou logo se
podiam tomar um duche e Kambo fosse primeiro, convinha ela ficar a preparar a receção
do casal, que se avizinhava uma noite em cheio.
Alguém, já não lhe começava a
escapar qualquer desconfiança, pois Kambo quase não falava, só acenava: sim ou
não, e alguma palavra que lhe foi arrancada, respondeu num português/africano.
Ainda quiseram pensar que seria ele que estava a querer ser simpático, querendo
falar português com os primos de Lisboa e ao mesmo tempo que se iria treinando
no português para o futuro enlace, mas também não era bom da parte dos primos, estar
a haver antecipações.
Deram a entender que estavam um pouco
cansados e durante o dia quase não tinha havido tempo para comerem.
Era um convite a que lhes fosse
preparada uma boa refeição e para irem de seguida para a cama. Mais uma vez, a
boa cultura à portuguesa não se deixou ficar mal e foi-lhes servida uma boa
refeição.
O primo e primas, não tiveram
muito tempo para treinar o seu francês.
As três primas, jovens adultas
solteiras, cultas, ainda quiseram aceitar um conto de fadas, mas a mulher do
irmão delas, ela e o seu marido, imaginaram logo a tramoia, e não se enganavam.
As visitas já tinham sido bem rececionadas,
a barriguinha bem cheia e a próxima etapa era ir para uma boa cama e passar uma
bela noite de sexo.
Uma das primas levantou-se um
bocadinho mais cedo do que o previsto, pois havia que fazer mais umas sandes
para levar para a praia, para o casal que se juntou à família.
Mal fez algum barulho em casa,
sente logo abrir a porta do quarto dos “primos franceses.”
Era Kambo, perguntou-lhe se
queria ir à retrette. Kambo olha com cara de querer saber o que ela quereria
dizer. Ela corrigiu - casa de banho! Kambo disse logo que sim e que seria
rápido.
Foi de facto rápido e dirige-se
para a porta da rua e diz que só quer sair para a rua.
Ela perplexa, começa a confirmar
o que ela e o seu marido, já quase tinham a certeza. Kambo José, sai com pressa,
mas com paciência, chama o elevador, entra, desce, sai para rua e desaparece.
Catherine, não se mostrou
preocupada. Era uma prática normal da sua geração. Porque não também em Portugal!
Ela até gostava de Portugal e dos portugueses.
Quando viajava de automóvel por
Portugal fora, costumava dizer que Portugal nesse momento, lhe fazia lembrar a
França de há vinte anos. Portugal estava todo em obras.
Portugal atravessava a era da construção
das autoestradas de Ferreira do Amaral.
Seus pais, casal reformado, mas ainda
relativamente jovens, e com uma boa reforma, começaram também a vir visitar os
seus descobertos primos de Lisboa pela sua filha.
Mas quem os fazia viajar para
este país, era o seu único descendente, que sua filha quis vir conceber e nascer
no Portugal dos seus antepassados.
O filho, tinham-no perdido
desastrosamente. A filha já lhe tinha dado um neto e provavelmente seria o
único com que ficariam.
Não tinham muitos conhecimentos
sobre Portugal. A mulher do casal, que era a descendente do homem que partira
de terras da Beira no início do século XX e deixou descendentes em França mas
esses quase que deixaram apagar por completo essa ligação a Portugal, viram
agora reavivar as ligações, depois de o Mundo ter mudado tanto, as distancias
serem mais curtas.
O rebento que a sua filha veio
colocar no Portugal dos seus antepassados, fez com que este casal passasse a
vir com frequência a Portugal, onde a sua descendência se mudou de França para
Portugal.
Ele, marido do casal, que teve de
aprender o português indispensável para andar por cá, não era muito do seu
agrado vir tantas vezes a Portugal, mas sua mulher que era a descendente de
Portugal, parece que cada vez ficava mais presa a Portugal, se por ter cá o
único descendente ou se por ter tido a oportunidade, dada pela sua filha, de se
ligar aos antepassados que já considerava perdidos.
Mas as saudades de Paris eram
muitas. Entrava ele na Estação do Metropolitano das Picoas em Lisboa, dá um
olhar de espanto e confusão, era de noite, ainda quis pensar que estava em
Paris. A entrada desta estação, confunde-se com a do Metropolitano de Paris. É
igual às de Paris. Foi uma oferta do Metro de Paris ao Metro de Lisboa.

