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| Terras de África |
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| Terras origem de Benedito |
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Terras de África
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O MUNDO QUE OS PORTUGUESES CRIARAM.
Anos 30 do
séc. XX, partiu do interior das Beiras, o jovem Benedito Mendonça (nome
fictício) com destino ao mundo do futuro, África, Angola.
Em Luanda,
Benedito olhava para uma cidade estranha para ele. Passou por Lisboa onde
permaneceu alguns dias e teve a oportunidade de
ver ruas compridas com prédios altos e baixos, mas os mais baixos até
lhe faziam lembrar aqueles que costumava ver lá pelas suas terras e que
pertenciam às famílias mais abastadas e até às casas senhoriais, mas em Luanda
era diferente, havia uns prédios já bastante altos, mas havia aqueles prédios
de construção colonial que ele nunca tinha visto e faziam-lhe um pouco de
confusão, mas como ele sendo um jovem em cima dos 20 anos e com um nível
cultural muito acima da média, tinha sido seminarista e quando abandonou o
seminário já se aproximava da ordenação sacerdotal, estudos superiores, que é
como dizer em escolas publicas próximo da licenciatura.
Benedito,
quando tomou a decisão de partir para África, já tinha falado com várias pessoas
que lhe disseram que em África poderia estar o futuro dele, pois nas suas
terras para a sua formação académica as hipóteses de um futuro promissor eram
limitadas, porque os estudos sacerdotais não davam equivalência aos das escolas
publicas, assim, tinha a sabedoria, mas não tinha os diplomas. Em África,
disseram-lhe que ninguém ligaria a não ter os diplomas e depois de verem a sua
sabedoria e cultura elevada teria lugares de funções superiores em qualquer Repartição
Publica.
Agora em
Luanda, sem perdas de tempo, tentava desmistificar o novo mundo que tinha pela
frente, gentes caminhando de forma diferente das que deixou em Lisboa, em
Luanda na zona baixa da cidade onde ficou na Pensão que começou por lhe fazer
confusão não poder meter a cabeça para fora da janela porque estava vedada pela
fina rede para impedir a entrada dos mosquitos, tentava adaptar-se ao clima
quente húmido e abafado acima dos 30º graus, em comparação com o que tinha
deixado nas suas terras temperaturas negativas durante a noite e de dia não
passaria dos 10-15º graus, era o mês de Janeiro, agora nas ruas de Luanda
caminhavam sem parar com o interesse de descobrir o mundo africano, gente
branca quase mulata com a cor apanhada do tempo que tinham passado no mato, com
alguns serviçais negros à mistura, mas à medida que se afastava da baixa da
cidade e caminhava pelas longínquas ruas e avenidas sem fim, a população
começava a ser brancos negros e mestiços, mas continuando, cada vez via menos
brancos e toda a população passava a ser negros e mestiços.
Os dias de
Luanda estavam a acabar para ele, a sua sabedoria e cultura literária elevada
não lhe estavam a garantir colocação em Luanda e depois de trocar impressões
com quem achava que o poderia aconselhar melhor, o seu destino seria ir
procurar futuro mais para o interior, porque alguém lhe disse que em África o
dinheiro estava no mato e, Benedito tinha partido para África à procura de
fortuna e progresso na vida.
Já bem no
interior de Angola, a mais de mil quilómetros de Luanda, fora-lhe oferecido o
lugar de Capataz, as suas funções seria vigiar os trabalhadores da Fazenda para
que não iludissem o trabalho passando parte do tempo sentados.
Benedito era
uma pessoa pró-invertida, não tinha por hábito meter-se com as pessoas para
conversar, preferia apreciá-las e se as pessoas se metessem com ele, também
dava respostas de poucas palavras. Com os trabalhadores da Fazenda era muito
diferente, ele nunca tinha lidado com população negra, não se apercebia que
desde que chegou ali passou a ser analisado e observado atentamente por todos
aqueles trabalhadores de uma forma que ele nem imaginava. A alta cultura que
ele tinha trazido da sua terra, ali pouco lhe estava a valer, o seu patrão
deu-lhe umas resumidas explicações e deixou-o que ele se desenvencilhasse,
Benedito tinha sido atirado mesmo ao
mato, ou quase dizendo, às feras e, a partir de agora o seu futuro tudo
dependeria de como se iria adaptar àquela nova situação tão estranha e
totalmente inesperada para ele.
Como era uma
pessoa de mente desenvolvida e com ginástica mental, com alguns tropeções e
situações inultrapassáveis e embaraçosas quase no limite, conseguiu que aquelas
várias centenas de trabalhadores rurais não lhe tivessem dado o mesmo destino
que já tinham dado a outros, que não aguentaram e partiram para outra, Benedito
consegui aguentar e passado alguns meses até já tinha trabalhadores amigos e
até dispostos a defendê-lo em perigos que pudessem ocorrer.
Já
estabilizado e reconhecido pelo patrão, vendo que de facto era de fibra, caso
contrario não teria aguentado, passou a conversar mais com ele e divulgando-lhe
alguns segredos de África, aqueles segredos que só depois de passar pelo
difícil é que se tem acesso a eles, o patrão também ao ter conhecimento da
cultura e conhecimentos literários que Benedito tinha passou a lidar e olhar
para ele de outra forma, sabia que estava a lidar com quem tinha uma sabedoria
literária muito superior à dele próprio e que poderia tirar benefícios disso e
passaram a ajudar-se mutuamente, o patrão de nome Ramiro, passou também a dar
responsabilidades de Gestão Financeira da Fazenda a Benedito e já
pensava, futuramente talvez lhe oferecesse sociedade na empresa, pois estava a
gostar seriamente da Gestão moderna que Benedito estava a introduzir na Empresa,
que era aquilo que Ramiro já tinha pensado há muito tempo, só que ainda não
tinha encontrado a pessoa certa.
A Fazenda
era uma Sociedade Agrícola que movimentava muito capital, tinha muitos
quilómetros de extensão territorial e com vários microclimas, produzia de quase
tudo: de grandes plantações de café, óleo de palma, banana, algodão, milho,
amendoim, sisal que produzida em grandes quantidades para exportação e muitos
outros produtos em menor quantidade, mas tinha sobretudo criação de gado bovino
e outros em milhares de cabeças.
Ramiro era
um angolano nascido em Angola e já filho de angolanos de longas gerações,
talvez dos primeiros a colonizar Angola, para ele Portugal era um país
longínquo que não lhe dizia muito, para além da Administração portuguesa em
Angola, que aspirava desde pequeno a tornarem uma Angola independente sem a
interferência de Portugal.
Benedito
caiu nas graças de Ramiro e decidiu oferte-lhe uma pequena Cota Capital na
Sociedade, considerava que Benedito se adaptou e começou a zelar rapidamente
pelos interesses da Sociedade Agrícola e que a iria modernizar, como Ramiro
pensava.
Passados uns
bons anos, até porque o tempo em África passa sem se dar por isso e Benedito já
tinha batido os 30 anos e precisava de arranjar a sua cara-metade, mas achou
que deveria ir à sua terra à procura de alguma daquelas que ele tinha deixado e
que já olhavam para ele quando passava. Ramiro chamou-o à atenção que tinha
terminado havia pouco tempo a guerra na Europa, 2ª guerra mundial, e que em
angola também havia mulheres para se poder casar.
Olinda,
jovem funcionária da Sociedade e filha de um dos sócios que aspirava a um bom
casamento, já tinha mandado uma indireta a Benedito: os portugueses quando
pensam casar preferem ir à terra buscar uma das da sua terra! Olinda, mestiça
quase branca com cabelos alourados compridos e ondulados de cor natural, tinha 20
anos e em África uma jovem solteira aos 20 anos já está a passar do prazo para
casar, Por isso andava pensando em Benedito que seria um bom casamento, culto,
fisicamente atraente que dava nas vistas e já tinha a posição na Sociedade que
tinha, seria um bom marido e pai de filhos para Olinda, mas Benedito trazia em
mente aquelas que na sua terra olhavam para ele quando passava e era uma dessas
que ele queria ir buscar para sua cara metade e mãe dos seus filhos.
Já em
Portugal, das que ele se lembrava que olhavam para ele, já não viu nenhuma,
todas tinham casado, até porque tinham passado mais de 10 anos, mas rápido
mudou de ideias e começou a olhar para aquelas vintaneiras próximo dos trinta
que também não tiveram pressa de casar à espera de um bom casamento.
Benedito
tinha criado fama na sua terra que era um homem de sucesso em África, tinham
corrido noticias em alguns jornais da terra, que Benedito era um dos grandes
empresários em Angola e que tinha uma das maiores Sociedades Agrícolas de África,
sendo ele o seu principal administrador, mas era apenas um pequeno socio
capital.
Mesmo assim,
não lhe faltavam interessadas, desde que ele tomasse a iniciativa e decidiu-se
por um mais próximo da sua idade.
Florbela era
uma funcionária publica com formação académica, que em África teria todas as
probabilidades de ser imediatamente colocada na Repartição Publica da
localidade da Sede da sociedade agrícola onde trabalhava Benedito, casaram e
partiram para África, Já instalados no seu mundo africano, aconteceu o que
ambos muito desejavam, Florbela ficou gravida e dali para afrente sempre que
eram convidados para eventos sociais, que não lhe faltavam convites porque
Benedito e Florbela faziam um casal raro que todos gostavam de ver nas suas festas,
coisa que gentes de África gosta muito de fazer, faz parte da sua cultura,
festas familiares alargadas a pessoas próximas, não raro convidarem bandas de
musica para abrilhantar essas festas em salões alargados com cadeiras e mesas em
redor para comodamente todos se poderem ver e divertir e dançar uns com os
outros em ambiente familiar e, Benedito e Florbela davam nas vistas, casal
elegante e bem apresentável e agora que Florbela já começava a mostrar uma
barriguinha de grávida bem apresentável, então era o alvo das atenções e todos
os queriam nas suas festas, já pertenciam à alta sociedade da Região.
O desejado
rebento do casal Benedito e Florbela nasceu e tudo correu da melhor maneira.
Agora os convites sociais aumentavam e o casal tentava não recusar nenhum
convite, até porque estavam no princípio da vida e havia que granjear simpatias
e até pelas funções profissionais que cada um desempenhava. Ele, a figura mais
social e conhecido de uma das mais importantes empresas da região e ela já a
exercer funções de responsabilidade na Administração Publica também da região.
Havia
figuras publicas da região que eram sempre convidadas e estavam quase em todas
essas festas sociais especiais, até pelas funções que exerciam e seria sempre
bom telas do seu lado até por razões burocráticas de funcionalidade na
administração publica.
Um, que era
quase sempre convidado por todos e estava em todas essas festas desde que
Benedito casou e começou a aparecer com a mulher, era o Chefe de Posto Administrativo
da região da Fazenda de Benedito, este era sempre convidado, até porque ter
boas relações institucionais com a autoridade administrativa do Estado na
Região seria sempre vantajoso, particularmente por causa do movimentação dos
trabalhadores da Fazenda que eram várias centenas em permanência e sazonalmente
chegavam a ser aos milhares.
O chefe
administrativo deste Posto era um mestiço trintão que vivia solteiro, embora
tivesse as suas concubinas habituais, mas secretamente, porque ele ambicionava
um bom casamento e com uma branca.
A sociedade agrícola
tinha a Sede Social na Vila Sede de Concelho e Sede Administrativa na Fazenda e
Benedito como administrador dividia o seu tempo de trabalho entre as duas
Sedes, mas ele gostava de se deslocar com regularidade à Fazenda para ter mais
conhecimento de perto de todo o movimento e envolvimento da Fazenda. Sempre que lá ia gostava de
passar pelo Posto Administrativo para cumprimentar o chefe, até porque já eram
amigos frequentadores de algumas das mesmas festas e também a política de boas
relações institucionais. Às vezes quando regressava a casa, a mulher
contava-lhe com todos os pormenores que o Chefe de Posto tinha passado lá por
casa para ir ver a bebé e que tinha gostado muito de a ver.
Estas idas
do chefe de posto a casa de Benedito e Florbela eram bastante continuas e
sempre quando Benedito não estava em casa e Florbela começou a desconfiar da
situação, lembrando ao marido que estava a desconfiar daquelas visitas do chefe
a sua casa, seria melhor que falasse com chefe de posto, poderia ser de uma
forma diplomática dizendo que agradecia as visitas à sua bebé mas que seria
melhor quando ele estava em casa porque a mãe e a filha quando estão só as duas
precisavam de descansar, mas Benedito não deu importância e disse que seria uma
coincidência, porque também era a hora de o Chefe ir à sede de Concelho tratar
os seus assuntos burocráticos.
Mas a
situação continuava e Florbela deixou de ter dúvidas de que o Chefe andaria com
segunda intensão, ela própria disse ao chefe de posto que apreciava as suas
visitas à bebé, mas quando estavam só as duas precisavam de descansar e que
fosse por lá quando estava lá o marido que até servia para conversarem os dois
um bocado e beberem uma bebida, mas o chefe continuou a ir por lá assiduamente
e só quando o marido não estava em casa. Florbela voltou a falar sobre o
assunto ao marido, mas desta vez Benedito já levou a sério e poderia na
realidade o chefe andar com intensões estranhas, até porque já se tinham
cruzado algumas vezes dentro da vila e ele não ia a casa ver a bebé quando
estavam os dois pais em casa.
As visitas
do chefe de Posto a casa dos beneditos para visitar a bebé continuava e numa
visita o chefe de posto declarou-se a Florbela ajoelhando-se à sua frente
implorando-lhe que a amava. Florbela focou estupefata e pediu-lhe que se retirasse
rapidamente de sua casa, porque o marido estaria a chegar e poderia ter alguma
reação que o Chefe não iria gostar. O chefe, melancolicamente retirou-se, mas
disse-lhe que não iria desistir, pois estava loucamente apaixonado por ela.
Assim que
Benedito chegou a casa, Florbela contou-lhe tudo e em pormenores e lembrou-lhe
o que ela já lhe tinha dito dias antes.
Desta vez,
Benedito não perdeu mais tempo e exímio como era a resolver à boa maneira
portuguesa e beirã da melhor forma e
mais rápido os conflitos, disse a Florbela que no dia seguinte ele voltaria à
Fazenda e passaria como de costume pelo Posto a cumprimentar o chefe, mas que
iria regressar mais cedo e quando chegasse a casa resolveria o problema.
Benedito já tinha chegado à conclusão de que quando ele passava pelo Posto a
cumprimentar o Chefe, o Chefe partia imediatamente para a visita à bebé, mas a
pensar na Florbela.
Benedito
disse a Florbela que quando o Chefe começasse com a lengalenga da paixoneta por
ela, o aguentasse atá ele chegar.
Benedito, de
regresso da Fazenda passou pelo Posto Administrativo e os Sipaios (serviçais auxiliares
e guarda-costas do Chefe) disseram-lhe que o Chefe tinha ido à Vila. Benedito
não teve mais duvidas de que o ia apanhar em casa.
Benedito entrou
o mais silenciosamente possível em sua casa, deparou-se com Florbela ao fundo
da sala em pé e de braços cruzados, à entrada da sala junto ao sofá onde
costumava sentar-se, estava o Chefe ajoelhado de mãos postas a implorar a
Florbela que o aceitasse, que ele a amaria internamente.
Benedito
trazia um bom pau verde que tinha cortado na mata, começa a dar-lhe pelas
costas abaixo, o chefe vira-se de barriga para o ar de mãos postas, mas agora a
pedir perdão a Benedito, mas Benedito só
parou de lhe dar por todo aquele corpo quando achou que já tinha a dose que
precisava e merecia, de seguida mete-o no seu próprio Jipe de Benedito e leva-o
ao Hospital, entregou-o e disse que o tinha encontrado naquele estado, que
perguntassem a ao Chefe o que tinha acontecido.
De seguida,
Benedito foi ao Posto Administrativo dizer aos Sipaios que tinha ido levar o
Chefe ao Hospital e que fossem lá para ver o que ele precisava deles. Os
sipaios deslocaram-se de imediato ao Hospital, mas o Chefe não lhes disse donde
tinham vindo as negreiras que tinha por todo o corpo, disse-lhes que tinha sido
numa brincadeira com uns amigos
Os médicos
do Hospital não tiveram dúvidas de que as mazelas negras que tinha por todo o
corpo das vergastadas, era consequência de uma monumental tareia, mas como
também não sabiam de nada, trataram-no até lhe darem alta e mandaram-no embora.
Mais tarde
os médicos vieram a saber quem deu a tareia monumental ao Chefe e por que
motivo. Aplaudiram!...
Dali em
diante, Benedito sempre que ia à Fazenda, continuava a passar pelo Posto a
cumprimentar o chefe, mas ficou admirado, porque agora ainda Benedito não tinha
descido do seu Jipe e já o chefe estava cá fora do Posto a fazer-lhe vénias,
assim que Benedito lhe dirigiu um cumprimento rápido e partiu para a Fazenda, o
Chefe mandou logo dois sipaios à Fazenda dizer ao senhor Doutor Bendito, que
quando regressasse, passasse pelo Posto que o Chefe lhe queria transmitir uma
informação muito importante. Pediu-lhe que não contasse a ninguém o que tinha
acontecido e que estaria sempre ao seu dispor para tudo o que precisasse na
Fazenda, mas que não deixasse de o ir cumprimentar quando ia à Fazenda, senão o
Administrador Oficial da Região desconfiaria que se poderia ter passado alguma
coisa e seria o seu fim se o Administrador viesse a saber do que se tinha
passado.
Benedito,
mesmo que o chefe não lhe tivesse pedido, continuaria a ir cumprimentá-lo nas
suas idas á fazenda, até porque as boas relações institucionais eram muito
importantes para a Fazenda. Mas agora, ainda Benedito não tinha saído do Jipe e
já o Chefe estava à frente do Posto a cumprimentá-lo com uma vénia.
O chefe
nunca mais apareceu numa festa onde Florbela estivesse presente e passou a
tratar Benedito sempre por Senhor Doutor.