domingo, 21 de agosto de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã

Grandes obras no país
Momentos na Universidade


 





VOLTA AO PORTUGAL DE HOJE, DE ONTEM E DE AMANHà

Alberto nasceu numa aldeia no interior do país. Seus pais, comerciantes e agricultores nunca lhe faltaram com nada, mas também não o deixavam passar o tempo de uma forma inútil, assim como a todos os seus irmãos e irmãs, se não houvesse nada para fazer, desde tratar dos animais ou ajudar na loja, podiam ir brincar  na rua com os outros, mas desde que houvesse alguma coisa para fazer, primeiro estavam as obrigações e depois a devoções.

Cedo demonstrou que era bom aluno e o seu objetivo e de seus pais era assim que terminasse a primária ir para a cidade estudar e assim aconteceu. Nas primeiras viagens de fim e princípio de férias viajou acompanhado, mas depois teve que se habituar a viajar sozinho e como o percurso era sempre o mesmo, começou a conhecer os locais quase de cor e salteados, apercebia-se sempre havia alterações nas paisagens.

Ultimas décadas do sec. XX, rompiam-se grandes encostas para construir grandes pontes, viadutos, vias de comunicação e áreas cobertas de produção industrial e comercial, à medida que Alberto ia crescendo ia-se apercebendo que o seu país estava numa grande transformação, começava a sentir orgulho do seu país, mas também à medida que ia crescendo, estudando mais e tendo mais conhecimentos, ia também tendo conhecimentos de outros países através dos seus estudos, engenharia que concluiria a licenciatura e cada vez ambicionava mais ir conhecer esses países pessoalmente, estava nos seus planos, assim que concluísse os estudos daria uma volta de um ou dois anos por outros países para conhecer in-loc o progresso desses países.

Algum tempo antes de concluir o seu curso, Alberto havia de conhecer a mulher que viria ser a mulher da sua vida, também estudante universitária, mas de outra área, não mais pararam de namorar, concluíram os respetivos cursos ao mesmo tempo e também a sua namorada ambicionava conhecer mundo antes de se fixar no seu país para constituir família.

Concluídos os cursos, partiram em aventura dispostos a andar pelo estrangeiro quase sem destino, Alberto tinha lido que Jean Monnet, pai da preparação da União da Europa, dizia para os filhos, que quando viajassem, dessem atenção a tudo quanto se passava em seu redor, porque poderiam ser acontecimentos importantes que nunca mais teriam oportunidade de presenciar. Alberto e a namorada não eram filhos de pais ricos que os pudessem abonar nas suas despesas, por isso, uma das suas principais preocupações assim que partiram foi pensar como poderiam ganhar dinheiro para fazer face às suas despesas. Não se preocupavam muito em arranjar trabalhos sempre a condizer com as suas especializações, o que interessava era ganhar o suficiente para fazerem face às suas despesas do dia-a-dia vivendo bem e também fazendo alguma especialização da área de cada um sempre que se lhes deparava a oportunidade, pois sabiam que o mundo e a sociedade estava a evoluir em passos largos e quem não acompanhasse essa evolução ficaria para trás irremediavelmente.

Depois de terem passado por países que mais lhe interessava e terem estado no estrangeiro mais tempo do que pensavam, regressar ao seu Portugal era o objetivo seguinte, porque foi este país que lhes tinha dado a oportunidade de se formarem, que investiu neles e seria então que eles queriam investir no seu país e devolver os investimentos públicos que o seu país tinha feito neles.

Os 4 anos que passaram pelo estrangeiro não se ficando só por um continente, mais tempo do que pensavam quando partiram,  a vida até nem lhes correu mal, claro que souberam investir o tempo e não o desperdiçando, mas regressaram com algumas especializações que cá não poderiam ter feito e ainda algum dinheiro para começarem a vida na sua terra.

Sendo jovens amadurecidos, dedicados e conhecedores, não lhes foi difícil arranjar colocação a condizer logo de seguida, havia finalista dos seus cursos que ficavam admirados que Alberto e sua mulher porque, entretanto, tinham casado, tivessem arranjado boa colocação logo que regressaram do estrangeiro, porque estes não tinham nada a ver com aqueles que terminavam o curso e ficavam à espera que a boa colocação lhes fosse bater à porta.

Do casamento vieram filhos, o casal não tinha dúvidas de que iria dar uma criação e formação aos seus filhos idêntica à que eles tiveram, incluído assim que terminassem o curso, partissem algum tempo pelo estrangeiro para conhecer o mundo e adquirir conhecimentos que no país onde nascemos e somos criados não se adquirem, mas à medida que os anos iam passando, Alberto e a mulher, viam que o seu país não estava a seguir os caminhos que eles pensaram anos antes, viam que aquele país de grande futuro que eles viram quando eram jovens não apareceu.

Para eles, já não era o mais importante porque eles já tinham uma parte da vida andada e também alguma riqueza acumulada que lhes daria para fazerem face a um futuro menos risonho, mas o que os estava a preocupar mais, eram os seus três filhos, dois rapazes e uma rapariga que já nasceram neste seculo XXI e teriam menos esperanças e hipóteses de futuro que tiveram eles. Terminar os cursos e ir dar uma volta pelo estrangeiro já não era ambição, já não era projeto para o futuro, porque o futuro que se vislumbrava agora já era outro, prepararam os filhos não para terminar os cursos e ir dar uma volta pelo estrangeiro adquirir conhecimentos para regressar ao seu país para se fixarem e construírem o seu país já não era pensar no futuro,  mas sim, terminar o curso a pensar partir par o estrangeiro e se possível definitivamente, porque o seu país não evoluiu no sentido que tinham imaginado e,  ficarem no seu país que investiu em universidades para que os seus estudantes pudessem vir a ser dos melhores técnicos do mundo, mas depois já como técnicos, os rendimentos do seu trabalho, 50 a 60% ou mais, ficava-lhes nos descontos e teriam de andar a trabalhar para impostos. Assim sendo, Alberto, com muita pena, vê os seus filhos não poderem fazer o mesmo trajeto que ele e sua mulher fizeram. O peso de consciência de devolverem ao erário publico o que gastaram nas universidades vindo do imposto dos cidadãos que trabalham, muitos sem horários de trabalho e/ou de sol a sol e que depois de 40, 50, anos de trabalho, vão ficando com reformas reduzidíssimas esperando pela morte, não pode ser um país de futuro.  Também isso deixou de pesar na sua consciência, porque também se sentem enganados, porque, perante o que aprenderam nos livros e das cátedras, o país que lhe anunciaram e que era possível, não o encontraram depois de concluir o curso, não teriam de partir definidamente pelo mundo à procura de se fixarem e de dar cidadãos e cidadãs a outos países e a outras nações, porque alguma coisa estaria errado. Talvez lá do lado de fora, depois de conhecer outros mundos, consigam ver onde está o erro no seu país e talvez o consigam corrigir visto do lado de fora.

 

 

 

 


terça-feira, 2 de agosto de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - o mundo de Benedito, o mundo que os portugueses criaram.

Terras de África

 Terras origem de Benedito
 



Terras de África


O MUNDO QUE OS PORTUGUESES CRIARAM.

Anos 30 do séc. XX, partiu do interior das Beiras, o jovem Benedito Mendonça (nome fictício) com destino ao mundo do futuro, África, Angola.

Em Luanda, Benedito olhava para uma cidade estranha para ele. Passou por Lisboa onde permaneceu alguns dias e teve a oportunidade de  ver ruas compridas com prédios altos e baixos, mas os mais baixos até lhe faziam lembrar aqueles que costumava ver lá pelas suas terras e que pertenciam às famílias mais abastadas e até às casas senhoriais, mas em Luanda era diferente, havia uns prédios já bastante altos, mas havia aqueles prédios de construção colonial que ele nunca tinha visto e faziam-lhe um pouco de confusão, mas como ele sendo um jovem em cima dos 20 anos e com um nível cultural muito acima da média, tinha sido seminarista e quando abandonou o seminário já se aproximava da ordenação sacerdotal, estudos superiores, que é como dizer em escolas publicas próximo da licenciatura.

Benedito, quando tomou a decisão de partir para África, já tinha falado com várias pessoas que lhe disseram que em África poderia estar o futuro dele, pois nas suas terras para a sua formação académica as hipóteses de um futuro promissor eram limitadas, porque os estudos sacerdotais não davam equivalência aos das escolas publicas, assim, tinha a sabedoria, mas não tinha os diplomas. Em África, disseram-lhe que ninguém ligaria a não ter os diplomas e depois de verem a sua sabedoria e cultura elevada teria lugares de funções superiores em qualquer Repartição Publica.

Agora em Luanda, sem perdas de tempo, tentava desmistificar o novo mundo que tinha pela frente, gentes caminhando de forma diferente das que deixou em Lisboa, em Luanda na zona baixa da cidade onde ficou na Pensão que começou por lhe fazer confusão não poder meter a cabeça para fora da janela porque estava vedada pela fina rede para impedir a entrada dos mosquitos, tentava adaptar-se ao clima quente húmido e abafado acima dos 30º graus, em comparação com o que tinha deixado nas suas terras temperaturas negativas durante a noite e de dia não passaria dos 10-15º graus, era o mês de Janeiro, agora nas ruas de Luanda caminhavam sem parar com o interesse de descobrir o mundo africano, gente branca quase mulata com a cor apanhada do tempo que tinham passado no mato, com alguns serviçais negros à mistura, mas à medida que se afastava da baixa da cidade e caminhava pelas longínquas ruas e avenidas sem fim, a população começava a ser brancos negros e mestiços, mas continuando, cada vez via menos brancos e toda a população passava a ser negros e mestiços.

Os dias de Luanda estavam a acabar para ele, a sua sabedoria e cultura literária elevada não lhe estavam a garantir colocação em Luanda e depois de trocar impressões com quem achava que o poderia aconselhar melhor, o seu destino seria ir procurar futuro mais para o interior, porque alguém lhe disse que em África o dinheiro estava no mato e, Benedito tinha partido para África à procura de fortuna e progresso na vida.

Já bem no interior de Angola, a mais de mil quilómetros de Luanda, fora-lhe oferecido o lugar de Capataz, as suas funções seria vigiar os trabalhadores da Fazenda para que não iludissem o trabalho passando parte do tempo sentados.

Benedito era uma pessoa pró-invertida, não tinha por hábito meter-se com as pessoas para conversar, preferia apreciá-las e se as pessoas se metessem com ele, também dava respostas de poucas palavras. Com os trabalhadores da Fazenda era muito diferente, ele nunca tinha lidado com população negra, não se apercebia que desde que chegou ali passou a ser analisado e observado atentamente por todos aqueles trabalhadores de uma forma que ele nem imaginava. A alta cultura que ele tinha trazido da sua terra, ali pouco lhe estava a valer, o seu patrão deu-lhe umas resumidas explicações e deixou-o que ele se desenvencilhasse, Benedito tinha sido atirado  mesmo ao mato, ou quase dizendo, às feras e, a partir de agora o seu futuro tudo dependeria de como se iria adaptar àquela nova situação tão estranha e totalmente inesperada para ele.

Como era uma pessoa de mente desenvolvida e com ginástica mental, com alguns tropeções e situações inultrapassáveis e embaraçosas quase no limite, conseguiu que aquelas várias centenas de trabalhadores rurais não lhe tivessem dado o mesmo destino que já tinham dado a outros, que não aguentaram e partiram para outra, Benedito consegui aguentar e passado alguns meses até já tinha trabalhadores amigos e até dispostos a defendê-lo em perigos que pudessem ocorrer.

Já estabilizado e reconhecido pelo patrão, vendo que de facto era de fibra, caso contrario não teria aguentado, passou a conversar mais com ele e divulgando-lhe alguns segredos de África, aqueles segredos que só depois de passar pelo difícil é que se tem acesso a eles, o patrão também ao ter conhecimento da cultura e conhecimentos literários que Benedito tinha passou a lidar e olhar para ele de outra forma, sabia que estava a lidar com quem tinha uma sabedoria literária muito superior à dele próprio e que poderia tirar benefícios disso e passaram a ajudar-se mutuamente, o patrão de nome Ramiro, passou também a dar responsabilidades de Gestão Financeira da Fazenda a Benedito  e  já pensava, futuramente talvez lhe oferecesse sociedade na empresa, pois estava a gostar seriamente da Gestão moderna que Benedito estava a introduzir na Empresa, que era aquilo que Ramiro já tinha pensado há muito tempo, só que ainda não tinha encontrado a pessoa certa.

A Fazenda era uma Sociedade Agrícola que movimentava muito capital, tinha muitos quilómetros de extensão territorial e com vários microclimas, produzia de quase tudo: de grandes plantações de café, óleo de palma, banana, algodão, milho, amendoim, sisal que produzida em grandes quantidades para exportação e muitos outros produtos em menor quantidade, mas tinha sobretudo criação de gado bovino e outros em milhares de cabeças.

Ramiro era um angolano nascido em Angola e já filho de angolanos de longas gerações, talvez dos primeiros a colonizar Angola, para ele Portugal era um país longínquo que não lhe dizia muito, para além da Administração portuguesa em Angola, que aspirava desde pequeno a tornarem uma Angola independente sem a interferência de Portugal.

Benedito caiu nas graças de Ramiro e decidiu oferte-lhe uma pequena Cota Capital na Sociedade, considerava que Benedito se adaptou e começou a zelar rapidamente pelos interesses da Sociedade Agrícola e que a iria modernizar, como Ramiro pensava.

Passados uns bons anos, até porque o tempo em África passa sem se dar por isso e Benedito já tinha batido os 30 anos e precisava de arranjar a sua cara-metade, mas achou que deveria ir à sua terra à procura de alguma daquelas que ele tinha deixado e que já olhavam para ele quando passava. Ramiro chamou-o à atenção que tinha terminado havia pouco tempo a guerra na Europa, 2ª guerra mundial, e que em angola também havia mulheres para se poder casar.

Olinda, jovem funcionária da Sociedade e filha de um dos sócios que aspirava a um bom casamento, já tinha mandado uma indireta a Benedito: os portugueses quando pensam casar preferem ir à terra buscar uma das da sua terra! Olinda, mestiça quase branca com cabelos alourados compridos e ondulados de cor natural, tinha 20 anos e em África uma jovem solteira aos 20 anos já está a passar do prazo para casar, Por isso andava pensando em Benedito que seria um bom casamento, culto, fisicamente atraente que dava nas vistas e já tinha a posição na Sociedade que tinha, seria um bom marido e pai de filhos para Olinda, mas Benedito trazia em mente aquelas que na sua terra olhavam para ele quando passava e era uma dessas que ele queria ir buscar para sua cara metade e mãe dos seus filhos.

Já em Portugal, das que ele se lembrava que olhavam para ele, já não viu nenhuma, todas tinham casado, até porque tinham passado mais de 10 anos, mas rápido mudou de ideias e começou a olhar para aquelas vintaneiras próximo dos trinta que também não tiveram pressa de casar à espera de um bom casamento.

Benedito tinha criado fama na sua terra que era um homem de sucesso em África, tinham corrido noticias em alguns jornais da terra, que Benedito era um dos grandes empresários em Angola e que tinha uma das maiores Sociedades Agrícolas de África, sendo ele o seu principal administrador, mas era apenas um pequeno socio capital.

Mesmo assim, não lhe faltavam interessadas, desde que ele tomasse a iniciativa e decidiu-se por um mais próximo da sua idade.

Florbela era uma funcionária publica com formação académica, que em África teria todas as probabilidades de ser imediatamente colocada na Repartição Publica da localidade da Sede da sociedade agrícola onde trabalhava Benedito, casaram e partiram para África, Já instalados no seu mundo africano, aconteceu o que ambos muito desejavam, Florbela ficou gravida e dali para afrente sempre que eram convidados para eventos sociais, que não lhe faltavam convites porque Benedito e Florbela faziam um casal raro que todos gostavam de ver nas suas festas, coisa que gentes de África gosta muito de fazer, faz parte da sua cultura, festas familiares alargadas a pessoas próximas, não raro convidarem bandas de musica para abrilhantar essas festas em salões alargados com cadeiras e mesas em redor para comodamente todos se poderem ver e divertir e dançar uns com os outros em ambiente familiar e, Benedito e Florbela davam nas vistas, casal elegante e bem apresentável e agora que Florbela já começava a mostrar uma barriguinha de grávida bem apresentável, então era o alvo das atenções e todos os queriam nas suas festas, já pertenciam à alta sociedade da Região.

O desejado rebento do casal Benedito e Florbela nasceu e tudo correu da melhor maneira. Agora os convites sociais aumentavam e o casal tentava não recusar nenhum convite, até porque estavam no princípio da vida e havia que granjear simpatias e até pelas funções profissionais que cada um desempenhava. Ele, a figura mais social e conhecido de uma das mais importantes empresas da região e ela já a exercer funções de responsabilidade na Administração Publica também da região.

Havia figuras publicas da região que eram sempre convidadas e estavam quase em todas essas festas sociais especiais, até pelas funções que exerciam e seria sempre bom telas do seu lado até por razões burocráticas de funcionalidade na administração publica.

Um, que era quase sempre convidado por todos e estava em todas essas festas desde que Benedito casou e começou a aparecer com a mulher, era o Chefe de Posto Administrativo da região da Fazenda de Benedito, este era sempre convidado, até porque ter boas relações institucionais com a autoridade administrativa do Estado na Região seria sempre vantajoso, particularmente por causa do movimentação dos trabalhadores da Fazenda que eram várias centenas em permanência e sazonalmente chegavam a ser aos milhares.

O chefe administrativo deste Posto era um mestiço trintão que vivia solteiro, embora tivesse as suas concubinas habituais, mas secretamente, porque ele ambicionava um bom casamento e com uma branca.

A sociedade agrícola tinha a Sede Social na Vila Sede de Concelho e Sede Administrativa na Fazenda e Benedito como administrador dividia o seu tempo de trabalho entre as duas Sedes, mas ele gostava de se deslocar com regularidade à Fazenda para ter mais conhecimento de perto de todo o movimento e envolvimento  da Fazenda. Sempre que lá ia gostava de passar pelo Posto Administrativo para cumprimentar o chefe, até porque já eram amigos frequentadores de algumas das mesmas festas e também a política de boas relações institucionais. Às vezes quando regressava a casa, a mulher contava-lhe com todos os pormenores que o Chefe de Posto tinha passado lá por casa para ir ver a bebé e que tinha gostado muito de a ver.

Estas idas do chefe de posto a casa de Benedito e Florbela eram bastante continuas e sempre quando Benedito não estava em casa e Florbela começou a desconfiar da situação, lembrando ao marido que estava a desconfiar daquelas visitas do chefe a sua casa, seria melhor que falasse com chefe de posto, poderia ser de uma forma diplomática dizendo que agradecia as visitas à sua bebé mas que seria melhor quando ele estava em casa porque a mãe e a filha quando estão só as duas precisavam de descansar, mas Benedito não deu importância e disse que seria uma coincidência, porque também era a hora de o Chefe ir à sede de Concelho tratar os seus assuntos burocráticos.

Mas a situação continuava e Florbela deixou de ter dúvidas de que o Chefe andaria com segunda intensão, ela própria disse ao chefe de posto que apreciava as suas visitas à bebé, mas quando estavam só as duas precisavam de descansar e que fosse por lá quando estava lá o marido que até servia para conversarem os dois um bocado e beberem uma bebida, mas o chefe continuou a ir por lá assiduamente e só quando o marido não estava em casa. Florbela voltou a falar sobre o assunto ao marido, mas desta vez Benedito já levou a sério e poderia na realidade o chefe andar com intensões estranhas, até porque já se tinham cruzado algumas vezes dentro da vila e ele não ia a casa ver a bebé quando estavam os dois pais em casa.

As visitas do chefe de Posto a casa dos beneditos para visitar a bebé continuava e numa visita o chefe de posto declarou-se a Florbela ajoelhando-se à sua frente implorando-lhe que a amava. Florbela focou estupefata e pediu-lhe que se retirasse rapidamente de sua casa, porque o marido estaria a chegar e poderia ter alguma reação que o Chefe não iria gostar. O chefe, melancolicamente retirou-se, mas disse-lhe que não iria desistir, pois estava loucamente apaixonado por ela.

Assim que Benedito chegou a casa, Florbela contou-lhe tudo e em pormenores e lembrou-lhe o que ela já lhe tinha dito dias antes.

Desta vez, Benedito não perdeu mais tempo e exímio como era a resolver à boa maneira portuguesa e beirã  da melhor forma e mais rápido os conflitos, disse a Florbela que no dia seguinte ele voltaria à Fazenda e passaria como de costume pelo Posto a cumprimentar o chefe, mas que iria regressar mais cedo e quando chegasse a casa resolveria o problema. Benedito já tinha chegado à conclusão de que quando ele passava pelo Posto a cumprimentar o Chefe, o Chefe partia imediatamente para a visita à bebé, mas a pensar na Florbela.

Benedito disse a Florbela que quando o Chefe começasse com a lengalenga da paixoneta por ela, o aguentasse atá ele chegar.

Benedito, de regresso da Fazenda passou pelo Posto Administrativo e os Sipaios (serviçais auxiliares e guarda-costas do Chefe) disseram-lhe que o Chefe tinha ido à Vila. Benedito não teve mais duvidas de que o ia apanhar em casa.

Benedito entrou o mais silenciosamente possível em sua casa, deparou-se com Florbela ao fundo da sala em pé e de braços cruzados, à entrada da sala junto ao sofá onde costumava sentar-se, estava o Chefe ajoelhado de mãos postas a implorar a Florbela que o aceitasse, que ele a amaria internamente.

Benedito trazia um bom pau verde que tinha cortado na mata, começa a dar-lhe pelas costas abaixo, o chefe vira-se de barriga para o ar de mãos postas, mas agora a pedir perdão a Benedito, mas Benedito  só parou de lhe dar por todo aquele corpo quando achou que já tinha a dose que precisava e merecia, de seguida mete-o no seu próprio Jipe de Benedito e leva-o ao Hospital, entregou-o e disse que o tinha encontrado naquele estado, que perguntassem a ao Chefe o que tinha acontecido.

De seguida, Benedito foi ao Posto Administrativo dizer aos Sipaios que tinha ido levar o Chefe ao Hospital e que fossem lá para ver o que ele precisava deles. Os sipaios deslocaram-se de imediato ao Hospital, mas o Chefe não lhes disse donde tinham vindo as negreiras que tinha por todo o corpo, disse-lhes que tinha sido numa brincadeira com uns amigos

Os médicos do Hospital não tiveram dúvidas de que as mazelas negras que tinha por todo o corpo das vergastadas, era consequência de uma monumental tareia, mas como também não sabiam de nada, trataram-no até lhe darem alta e mandaram-no embora.

Mais tarde os médicos vieram a saber quem deu a tareia monumental ao Chefe e por que motivo. Aplaudiram!...

Dali em diante, Benedito sempre que ia à Fazenda, continuava a passar pelo Posto a cumprimentar o chefe, mas ficou admirado, porque agora ainda Benedito não tinha descido do seu Jipe e já o chefe estava cá fora do Posto a fazer-lhe vénias, assim que Benedito lhe dirigiu um cumprimento rápido e partiu para a Fazenda, o Chefe mandou logo dois sipaios à Fazenda dizer ao senhor Doutor Bendito, que quando regressasse, passasse pelo Posto que o Chefe lhe queria transmitir uma informação muito importante. Pediu-lhe que não contasse a ninguém o que tinha acontecido e que estaria sempre ao seu dispor para tudo o que precisasse na Fazenda, mas que não deixasse de o ir cumprimentar quando ia à Fazenda, senão o Administrador Oficial da Região desconfiaria que se poderia ter passado alguma coisa e seria o seu fim se o Administrador viesse a saber do que se tinha passado.

Benedito, mesmo que o chefe não lhe tivesse pedido, continuaria a ir cumprimentá-lo nas suas idas á fazenda, até porque as boas relações institucionais eram muito importantes para a Fazenda. Mas agora, ainda Benedito não tinha saído do Jipe e já o Chefe estava à frente do Posto a cumprimentá-lo com uma vénia.

O chefe nunca mais apareceu numa festa onde Florbela estivesse presente e passou a tratar Benedito sempre por Senhor Doutor.