quarta-feira, 22 de junho de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - Aventura Africana - 2º parte

Luanda primeira metade da década de 70
Paisagens por onde Isabel passava em África







AVENTURA AFRICANA

Extraído do livro do mesmo autor da cronica: Romance em Ficção Inspirado e Baseado em Casos Reais

 Partiram ainda crianças para África. Era o sonho de gerações desde há centenas de anos.

Continuação da cronica de 13-06-2022.

 

A colega, era a Nizé Ginga. Tinha a formação de professora interina. Menos formação académica que Isabel. Não tinha passado por um Bacharelato. Tinha apenas frequentado um curso de aperfeiçoamento, daqueles que se tiravam em África, depois completar o 1º ciclo. Ficavam assim prontas para ensinar oficialmente na primária.

Quando Isabel chegou, já Nizé tinha alguns anos de ensino. Eram mais ou menos da mesma idade, daí, ter havido uma certa empatia entre as duas. Tornaram-se mesmo boas amigas e confidentes. Nizé Ginga, passou a ser a única confidente que Isabel tinha naquelas terras desconhecidas, que também aproveitava para lhe pedir informações sobre África.

Nizé, era uma jovem africana, filha de um agricultor, embora tradicional, mas que já produzia em grandes quantidades produtos agrícolas, ao ponto de abastecer o mercado da Vila e até forças militares portuguesas por ali estacionadas.

O pai de Nizé, era também um grande criador de gado. Tinha mesmo capacidade para fazer contratos e assumir compromissos com o mercado e aquartelamentos militares no fornecimento continuo de carnes.

À boa maneira africana, o pai de Nizé como homem de dinheiro, teria que ter várias mulheres. Tinha quatro mulheres e vinte e dois filhos. Nizé tinha sete irmãos e 14 meios-irmãos.

Nas conversas pessoais entre Nizé e Isabel, Isabel à boa maneira portuguesa de querer saber e curiosidade, não deixava de questionar Nizé sobre a poligamia do pai. Não era que Isabel se sentisse incomodada com tal situação, pois ela já sabia que estava em África, mas mais por uma questão de curiosidade e entranhar-se na cultura, hábitos e tradições africanas.

Nizé, jovem madura e com uma boa cultura africana e também ocidental portuguesa, conhecia muito mais sobre a cultura ocidental portuguesa do que Isabel sobre cultura africana, toda a família dela e seus antepassados, sempre se deram bem com portugueses e com convivência, por isso, ia respondendo de uma forma cautelosa e respeitadora. Nizé, era agora professora de Isabel nos ensinamentos de cultura africana.

Por vezes, isto irritava Isabel, sentir-se que estava a ser ensinada por uma sua auxiliar, mas logo lhe vinha à mente que isso era bom para ela e precisava mesmo daqueles ensinamentos.

Aproveitava-se mesmo de Nizé, para saber mais sobre a vida do seu próprio marido e de toda a família Rolos e da vida que tinham levado em África e como teriam enriquecido assim tanto desde que tinham vindo de Portugal.

Nizé, não sabia pessoalmente bem isso, mas bastava perguntar ao seu pai e logo teria uma resposta esclarecedora. O pai de Nizé, conhecia muito bem a história dos Rolos desde que tinham chegado de Portugal. Nessa altura até mantinham negócios em conjunto.

Isabel ainda não tinha conhecido bem o seu marido. Já passavam alguns anos que tinham casado, ainda não tinham filhos. Carlos não mostrava interesse em ter filhos e Isabel continuava na dúvida qual seria a causa, porque ela gostava e queria ter filhos.

Talvez se conhecesse melhor o passado do seu marido, pudesse compreender melhor a falta de interesse dele, em terem filhos.

Via agora em Nizé, alguém que lhe poderia fornecer alguns esclarecimentos nesse sentido. Porque Isabel desconfiava de algo que pudesse impedir Carlos de ter filhos.

Nizé Ginga, teria que ter todo o cuidado em lhe dar esclarecimentos sobre tal situação, já que também considerava sua amiga Isabel, por quem também já começava a sentir amizade, respeito e consideração.

Nizé, não era mulher de se ter metido na vida íntima de homens brancos, tinha a sua cultura africana. Ela própria tinha um casamento à ocidental, só um marido e a única mulher do seu marido também africano. Mas sabia que os homens brancos quase todos tinham as suas amantes na Sanzala, quer fossem solteiros ou casados. Também era uma cultura de condição africana dos homens brancos. Era aceite no geral. Quase todas as mulheres europeias, teriam que aceitar esta condição, principalmente no interior de Angola.

Os homens brancos mesmo casados com mulheres brancas, bastava estas estar em fim de gravidez ou por outras razoes quais queres que não pudessem ter relações sexuais, os seus maridos, muito naturalmente e as mulheres sabiam, iam logo ter com a mulher negra da sanzala ter relações sexuais com ela.

Quando Isabel a questionava nesse sentido, Nizé não sabia bem a forma como responder. Sabia que para as mulheres europeias, era condição que tinham dificuldade em entender e aceitar. E em Isabel, Nizé notava que seria particularmente difícil aceitar, se não de todo rejeitada esta condição no seu marido.

Por isso, não era fácil para Nizé, responder a estas questões que Isabel lhe colocava. Teria que responder, entre a verdade e a omissão da realidade.

Para poder responder mais credencialmente a Isabel, Nizé ganhava a coragem de se esclarecer com seu pai neste sentido, porque sabia que seu pai poderia saber destas coisas de vida íntima de homens.

O pai de Nizé, o Senhor Caála Ginga, era homem de respeito e muito considerado na região e toda a sua família. Quer pelos próprios nativos, quer pelos brancos.

As próprias autoridades administrativas, militares e policiais portuguesas, tinham-no como homem de muito respeito e consideração.

Tinha 22 filhos  de várias mulheres - e tinha dado formação académica a todos. Para além de dois ou três que o acompanhavam na agricultura e na criação de gado, todos os outros tinham ocupação na área do funcionalismo público e empresarial. Desde na Polícia ao ensino e até com cargos de importância nas cidades e na Capital. Todos os rapazes filhos do sr. Caála tinham cumprido o serviço militar no exército português. Ele próprio, tinha uma boa cultura literária que a tinha adquirido autodidaticamente. Já tinha escrito um livro em língua local e traduzido para português.

O seu filho sucessor nos negócios da família, confessou que mudou de religião muçulmana para cristã, só para poder beber umas cervejas com os amigos, sobretudo quando concretizava bons negócios com os brancos. Eram uma família de cultura aberta.

Por isso, o Sr. Caála só iria passar para a filha, informação sobre a vida íntima dos Rolos, coisa que D. Isabel pudesse saber e não fosse ferir a sua suscetibilidade.

O Sr. Caála, sabia muito bem aquilo que as mulheres brancas gostavam de saber e o que não podiam saber sobre os seus maridos. Ali era África e não Europa. Por isso, teriam que se adaptar à terra de onde viviam.

Mas não raro acontecer – tinha acontecido uma situação dessas nessa Vila.

Florbela, acabada de casar e levada para África pelo marido que a tinha ido buscar a Portugal, ao chegar a África e deparar-se com a vida íntima que o marido levava em África com as mulheres da Sanzala, e que ele quis manter mesmo já com a mulher a viver junto dele,  a mulher não aguentou e passados uns meses, regressou a Portugal sozinha.

Nizé, ia contando cuidadosamente e por partes, a Isabel, aquilo que ia sabendo do seu pai sobre a vida íntima dos Rolos

De todos os irmãos, Carlos era o que o Sr. Caála tinha mais consideração. Carlos foi seu colaborador quando escreveu o seu livro, dando-lhe esclarecimentos sobre a fusão da cultura portuguesa com a africana.

Por isso, não quereria pôr nada em causa, ao seu amigo com D. Isabel sua esposa.

Isabel, também tinha conquistado a simpatia dos africanos. Era muito bem vista e considerada. Ela própria era um coração bondoso. Sorria e simpatizava com toda a gente. E nada melhor para um africano e cultura africana, do que ser simpático e de bom coração. Quem isso demonstrasse, teria a simpatia e proteção daquela gente. Foi o que aconteceu a Isabel.

Isabel começava agora a saber e compreender, porquê a falta de interesse natural do seu marido em ter filhos.

Nizé não lhe dizia tudo, mas ela como boa tradutora, chegava à dedução final, e cada vez estimava mais Nizé, via que tinha ali a pessoa em quem podia confiar, para sua confidente. Via que Nizé era de facto uma pessoa de confiança.

Carlos, também tinha vida íntima nas sanzalas. Seria por isso que não mostrava interesse em ter filhos com Isabel !...

Mas Isabel também já tinha bebido um pouco de cultura africana. Já não era aquela mulher branca europeia completamente fechada que o Sr. Caála pensava que era.

Isabel já tinha pensado muito e dado muitas voltas à cabeça, era boa observadora de tudo o que se passava à sua volta, começava a convencer-se que, se queria ter uma vida e família completa em África, teria que aceitar passar por situações que não imaginou antes de partir para lá.

Mas agora já lá estava e havia que se adaptar, se queria ter uma vida como as outras.

Tinha decidido consigo própria, admitir que o seu marido tivesse filhos de outras mulheres, mas também queria ter ela própria uma vida com filhos do seu marido.

Passou a lidar com o marido, nesse sentido. - Mais um mistério se lhe depara! Carlos, chegava ao fim do dia e estava completamente estafado, passar o dia inteiro para um lado e para outro atrás de um balcão de comercio a atender as populações africanas, não era nenhuma pera doce.

Após tomar o seu duche e jantar, o que queria era descansar, sentar-se cá fora a apanhar o ar fresco da noite, em cima de uns troncos de árvores trazidos lá do interior da selva africana a muitas centenas de quilómetros de picadas, pelos tratores e camiões da sua família, que estavam ali à espera que alguém os levasse para a estação de comboio mais próxima que ficava a 400 quilómetros, para que este os trouxesse durante 500 quilómetros para junto de um navio para que este os levasse para a Europa.

Isabel, puxava por Carlos para irem circular, queria mostrar-se e mostrar o seu marido. Começava a ambientar-se a África. Começava a sentir-se de facto em África e distinguir o cheiro de África, a sentir a realidade de África. Começava a compreender que África era assim mesmo. Cheia de mistérios e surpresas. Começava a entender que era mesmo aquilo que lhe estava a acontecer a ela mesma.

Isabel não era uma mulher fraca. Tinha sido criada nas rudezas do interior de Portugal. Conhecia mais o difícil do que o fácil. Mas ali tudo era diferente. A realidade era outra. Outras terras, outras gentes, outras mentalidades, outras culturas, outros ares, logo outras formas de pensar e de agir. Tudo era visto de uma forma diferente.

Isabel, começava a aperceber-se da realidade que a rodeava e envolvia.

Os momentos amorosos que em tempos de namoro tinha imaginado, não estavam a corresponder.

Quando começou a namorar com o homem que agora era seu marido, via-o como um filho da terra e que na realidade era, mas saiu de lá ainda pequeno, já estava há duas décadas em África e ele próprio já se considerava mais um africano do que um português.

Ao chegar a África e conhecer a realidade, Isabel vê que muita coisa era diferente. Incluindo a forma de pensar das pessoas que tinham ido de Portugal á muitos anos.

Carlos também gostava de passar aqueles momentos de prazer com Isabel agarradinha a ele sentados nos trocos das árvores, mesmo perdoando algumas  picadas dos mosquitos, só para sentir o fresquinho misturado com a brisa africana a tocar-lhe pelas pernas já morenas e queimadas pelo calor africano, Carlos, protegido só por uns curtos calções e troco nu, mas Isabel com as suas longas e bem torneadas pernas ainda timidamente mas que iam perdendo a cor que tinham trazido da Europa e que agora começavam a querer  apanhar a cor de África, gostava de sair à noite com um vestido curto fresquinho que sempre se imaginou a vestir roupas curtas para poder mostrar o seu corpo escultural, mas que em Portugal nunca lhe foi possível sobretudo por não se querer sujeitar às criticas sociais, nesse tempo ainda era assim, mas agora em África, com o clima propicio e essas criticas sociais não existiam, já poderia usar as roupas que bem entendesse, e com o seu vestido rodado e fininho às flores estampadas, que não se importava e até gostava de sentir o ar fresco misturado com a brisa africana, levantando-lhe o vestido para melhor poder refrescar as pernas que ela agradecia ao vento esse trabalho e que ela de vez em quando compunha e ajeitava o vestido com a mão, - não fosse o marido querer imitar o D. Afonso Henriques que cascou na sua mulher D. Mafalda, por esta ter levantado o vestido para que uma onda do mar não lho molhasse, pondo a descoberto os tornozelos dos seus pés, quando  passeavam na praia que haveria de dar o nome à hoje cidade de Cascais: Dizendo: Senhor meu Rei e meu esposo, porque me cascais?      

E as situações até eram parecidas:

D. Afonso Henriques, estava cercado das tropas que tinham acabado de reconquistar Lisboa aos Mouros e foram para ali, descansar uns dias. Claro que muitos soldados estariam de olhos postos em D. Mafalda. Era uma jovem loira e linda, acabada de vir do Condado de Saboia e dificilmente D. Afonso Henriques não sentiria ciúmes.

Carlos em Vila Palma, no meio sertão africano, à noite, enquanto apanhava o fresco acompanhado pela sua linda mulher, que ainda tinha a cor rosada da cara e os cabelos louros talvez geneticamente com uma pitada de sangue celta, encantava quem estava por perto e por muito que teimassem, os militares que por ali descansavam ao fresco bebendo a cerveja que tinham comprado no estabelecimento dos Rolos, que vinham do aquartelamento mais próximo, depois de terem andado dias e noites pela Picada e Mata, não resistiriam a olhar para Isabel, que se apresentava tão linda e tão bela e que era única mulher branca que se passeava naquela avenida àquela hora, fazendo-lhes lembrar as suas mulheres e namoradas que eles tinham deixado no seu Portugal. 

Isabel protegia-se nos seus longos e belos braços que começavam a adquirir a cor de África, nas suas saias curtas e forma de vestir que ela sempre apreciou muito, que em Portugal não pode fazer esse gosto ao seu corpo, para além dos tempos que passou nos meios académicos já mais tolerantes nesse sentido, aí já tinha sentido o prazer de usar saias pelo meio da coxa.

Agora em África, com boas camadas de repelente para os mosquitos, podia mostrar as suas belas pernas e sentir a brisa africana pelo escultural corpo.

Também utilizava todo este ambiente para fazer um pouco de ciúmes ao marido, talvez assim, ele sentisse mais interesse em que Isabel tivesse filhos por volta dela.

Carlos já se limitava a ir dando umas palmadas nos seus braços e nas pernas, matando mosquitos às quantidades.

Durante a noite, a rede que circundava a cama, deixava-os dormir descansados e protegidos dos mosquitos.

Isabel puxava por Carlos para irem passear pela Avenida. Carlos com os seus sorrisos fazia-se rogado, mostrava-se cansado e com vontade de ir para a cama. No dia seguinte, às sete da manhã, tinha de abrir a loja, pois os clientes nativos que se levantavam ao romper da aurora, lá estariam logo de manhã e se a loja não abrisse à hora, logo correriam para a loja do lado.

Quando Carlos se mostrava com vontade de ir para a cama em vez de irem passear pela avenida deserta seduzindo-se, só seriam eles a passear por lá, Isabel até ficava contente, seria uma prova de amor que tinha de Carlos, mas estavam a namorar, não tinham namorado antes de casar. Estavam a testar-se um ao outro depois de casados.

Mas já passavam alguns anos que tinham casado e Carlos tinha deixado a vida de solteiro que ele levara durante vários anos, talvez mais de uma década.

Como era habitual em África, os jovens ainda na adolescência, iniciavam uma vida sexual completa, com mulheres nativas, tinha sido o caso de Carlos. Dizia-se que em África havia uma cidade que tinha um canhão de granito em monumento no meio da cidade. Quando passa-se ali uma jovem com 14 anos e virgem, o canhão disparava, Nunca disparou!

Carlos desde muito novo, tinha feito uma vida sexual plena com mulheres africanas, onde ia dormir a casa delas quase como se fosse uma vida marital.

Quando assim é, mesmo que não se queira, existe sempre algum apego de amor. O habituar-se ao cheiro da mulher africana, ao amor defensivo e captativo.

Ele europeu, tenta manter uma vida sexual permanente, fazendo os possíveis para não se prender a mulher africana. É só para passar o tempo e depois, iria casar à terra com a mulher pura e imaculada. Era assim que muitos europeus pensavam e que até se transformava numa cultura admissível, mesmo pelas mulheres, quer africanas, quer europeias a viver em África. Já era uma forma de vida aceitável em África.

A mulher africana, ficaria por ali por perto, sendo sempre uma protegida, às escondidas da mulher oficial. Mesmo esta, mais tarde se iria apercebendo da situação, mas no máximo faria umas zangas de ciúmes, que até enaltecia o orgulho de macho e homem viril dele.

Mas estas situações, aconteciam naqueles casamentos que eles vinham a Portugal à pressa, casavam com a camponesa pura e imaculada, mas depois de lá estar e se aperceber de toda aquela vida, não tinham outra saída se não aguentar, que para algumas era terrivelmente difícil.

Isabel, era uma pessoa de outra condição. Mulher culta, conhecedora do mundo. Não tinha viajado muito, mas lia muito. Enquanto em Portugal e mais após ter concluído o curso, um dos seus hobbies era ir ao cinema. Assim passava os seus tempos livres durante alguns anos que exerceu a atividade de docente em Portugal.

Após ter ido para África, já lá iam alguns anos, as vezes que tinha ido ao cinema, contavam-se pelos dedos que tinha nas mãos e nem precisava de todos.

Quando Carlos foi esperar Isabel ao aeroporto de Luanda após casarem - ele tinha partido antes por causa dos negócios - ficou com ela a passar uns dias na Capital.

No 3º ou 4º dia que passavam na praia da Barracuda na ponta da Ilha do Farol, pouco mais faziam do que sair da Pensão onde estavam hospedados. Foram uma ou duas vezes almoçar ao Tamariz. Isabel avistou ao longe a Ilha do Mussulo, encantou-se com a beleza à distância da Ilha, pediu a Carlos para lá irem passar umas horas de praia, era facílimo lá ir, bastava alugar um pequeno barco que os havia ali sempre disponíveis, mas Carlos não atendeu ao pedido de Isabel e não foram. Carlos só pensava na Loja que tinha deixado fechada.

Meterem-se no carro e irem para a praia e fazer o inverso ao fim do dia, para ele já estava a proporcionar uma excelente lua-de-mel à mulher com quem tinha casado.

Mas para ela, não estava a ser nada do que tinha imaginado. Embora não estivesse a desgostar desses dias de praia tropical na quente água de África.

Isabel já tinha feito muita praia. Era em geral nas águas não muito quentes da praias da costa portuguesa pelo centro litoral do país e umas mini férias que ia fazendo de vez em quando à Costa da Caparica com as águas já mais amenas, mas nada que se comparasse com as quentes aguas da Ilha de Luanda.

Mesmo assim, Isabel estava a gostar dos momentos que estava a passar. Isabel não era uma mulher muito exigente.

Carlos, agora de regresso à sua Vila Palma e já acompanhado pela sua bela esposa, já não lhe levou duas semanas.

 Dos oitocentos quilómetros que tinha para percorrer, 600 já eram estrada asfaltada e os restantes já eram de macadame – estrada feita em terra batida e com boas pontes.

À medida que os dias iam passando, Isabel  começava a perceber que começavam as surpresas de África.

No amor, embora nessas práticas Isabel não fosse uma mulher vivida, mas pela convivência da vida social, algo lhe dizia que aquele homem não correspondia a um homem da idade dele. Parecia tímido e demasiado inconsequente.

Mas tudo poderia ser uma questão de adaptação. Ela tentava pô-lo à vontade. Ele, umas vezes correspondia, outras não.

Agora que já tinham passado alguns anos nesta pequena Vila no meio do sertão africano, muita coisa já tinha pensado, muitas alegrias e tristezas já tinha passado, muitas ilusões e desilusões já tinham acontecido e Isabel continuava a mesma. »» continua na próxima publicação »»


















 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - Aventura Africana

Angola
Angola Década 70
 





                                        AVENTURA AFRICANA

Extraído do livro do mesmo autor da cronica: Romance em Ficção Inspirado e Baseado em Casos Reais

 Partiram ainda crianças para África. Era o sonho de gerações desde há centenas de anos.

Quando uma família, que vivia com dificuldades na Europa e partia para África, partia para o prometido paraíso e definitivamente para não mais voltar, desfaziam-se de tudo quanto tinham, pois, a ideia de ir à procura de vida melhor noutras terras, era para sempre e ali construírem o seu futuro, eram meados do século XX, foi assim que a família Rolo partiu.

Deixavam para trás uma aldeia perdida na encosta da serra e partiam para um novo mundo longínquo atravessando oceanos à procura de um novo futuro.

A partida do Navio de Lisboa até chegar a Luanda levou próximo de três semanas.

De Luanda até Vila Palma, foram duas semanas, era tempo das chuvas e o asfalto eram apenas uns escassos quilómetros a sair de Luanda, dos cerca de 1.000 km que tinham para percorrer em estradas apenas iniciadas só em terra batida alinhadas com as Bulldozers e nem cilindro tinham levado por cima, apenas a terra ficava mais dura quando ficava seca com o calor escaldante no tempo do cacimbo a seguir às chuvas torrenciais e diluvianas, que depois dos 3 meses de cacimbo, voltariam as mesmas chuvas.

 Então, aquela terra argilosa avermelhada, ficava dura quase como o cimento, mas logo que vinha nova chuvada e às primeiras pingas, ficava escorregadio que nem sabão, mas também teriam a parte de deserto arenoso, que até teriam de prender cordas às árvores e ao eixo entre as rodas da velha camioneta que os transportava, para conseguirem subir pequenas encostas de terreno totalmente arenoso. Já com três dias de viajem, atravessar de jangada o rio com largura a perder de vista, que mais parecia um pântano sem fim, e a seguir subir o Morro por uma picada lamacenta em ziguezagues com a camioneta constantemente a patinar sendo preciso meter-lhe braçados de mato debaixo das rodas para continuar, levou dois dias.

Havia ainda muitos quilómetros de picada de terra arenosa que quando ficava seca, só viaturas de tração às 4 rodas conseguiam circular. Por isso, levava este tempo todo.

Passada semana e meia, lá chegaram eles a Vila Palma, a Terra Prometida.

Adolescentes, família de seis irmãos, quatro rapazes e duas raparigas, pais na casa dos 40 anos, eram a família ideal para ir colonizar África nesta era e nestes tempos.

Alguns dos irmãos, desanimaram completamente durante a viagem. Não fosse tão impossível voltar para trás, teriam regressado à aldeia que tinham deixado bem no interior de Portugal.

Pois a tão falada Vila, quase cidade, assim lha “venderam”, ao lá chegarem, só conseguiam ver muito menos gente que na aldeia que deixaram em Portugal.

Ao chegarem, só conseguiam ver uma escassa meia dúzia de casas a tijolo, caiadas e branqueadas alinhadas, metade de cada lado, faziam a curta avenida principal e única da localidade e em terra batida.

Vila Palma tinha o nome de vila, mas não era Vila.

O edifício do Posto do Administrador Estatal, mais três ou quatro casas de comerciantes onde viviam e trabalhavam pouco mais de uma dezena de europeus (brancos) e alguns mestiços. Mas depois, nos dias seguintes, foram avistando sanzalas próximas onde viviam milhares de africanos, que eram os clientes das casas comerciais que se estendiam ao longo dessa avenida.

A outra casa a ser construída a seguir, teria que ser a deles.

Deram inicio à sua nova vida como puderam. Mesmo só com a instrução escolar mínima obrigatória, uma irmã e um irmão mais velhos, dedicaram-se ao ensino primário, havia muitas crianças nativas na idade escolar e havia falta de professores, por isso, o Estado permitia que quem tivesse a 4ª classe e  16 anos de idade podia exercer o ensino primário enquanto não houvesse professores qualificados, foi assim que os dois irmãos mais velhos da família Rolo aproveitaram esta oportunidade e era uma e a única forma mais rápida de começar a ganhar o sustento da família.

Afinal havia muita gente. Só que eles quando lá chegaram, não lhes tinham explicado que tanta gente que havia nessa terra, não era brancos, mas sim 99% ou mais, eram negros e estavam dispersos pelas redondezas e a viver em sanzalas nas suas cubatas feitas de terra amassada e cobertas com capim da cor da terra debaixo da copa das árvores, por isso a dificuldade de eles verem tanta gente que vivia por aquelas redondezas.

Depois de lá estarem uns tempos, como portugueses que eram com facilidade de adaptação, não tardaram em reconhecer a realidade e viram que de facto ali havia muita gente e poderia haver futuro para eles.

Os pais dessa família, habituados ao trabalho da lavoura em Portugal, não tardaram em arregaçar as mangas – esta expressão ali não fazia sentido - não era preciso arregaça-las, porque ali só se usavam camisas de manga curta.

O primeiro confronto com a realidade e diferença das suas terras para aquelas, foi quando o Rolo pai entrou numa loja para comprar uma camisa para aqueles climas, mas estava a achar estranho comprar uma camisa de meia-manga, nunca tinha visto nas lojas e feiras das suas terras e não queria comprar uma camisa com as mangas cortadas. O comerciante vendo o embaraço do cliente, de imediato lhe apresentou uma de manga comprida mas em simultâneo, entra outro cliente e ao ver essa venda, disse logo ao comerciante: para mim, se só tiver camisas de manga comprida têm que lhe cortar as mangas. Aqui o sr. Rolo começou a aperceber-se que estava em realidades diferentes.

Ao mesmo tempo que se atiravam ao trabalho seriamente, havia que seguir alguns ensinamentos dos que já lá estavam há muito tempo, alguns já eram a segunda e terceira geração nascidos em África, alguns até já nem pensavam nas terras europeias das suas origens, mesmo sendo brancos já se consideravam angolanos 100%.

Os terrenos férteis e sem fim, não era preciso comprá-los, bastava demarca-los e ir regista-los nas Finanças, tinham seis filhos para acabar de criar e uma nova vida a começar, que eram a inveja daqueles que já lá estavam e que para eles olhavam como se fossem o futuro daquela terra e de Vila Palma, uma família com tantos filhos e todos tão saudáveis, eram uma promessa para África e era disto e destas famílias que África precisava para se transformar num dos continentes mais produtores e mais ricos de todo mundo, porque as condições naturais estavam lá, era preciso gente que desenvolvesse e pusesse essas terras a produzir.

De início tudo servia para iniciar a vida, era uma família trabalhadora e logo de início a vida começou-lhes a sorrir e a correr bem.

Não tardaram em alargar as instalações da casa que inicialmente construíram, para montarem um estabelecimento Comercio Geral alargado e com Café-Bar.

O irmão que tinha seguido a vida de ensino, de imediato deixou o ensino e passou a dedicar-se à vida do comércio, na vida de professor dava para ir vivendo, mas não dava para ficar rico, no comércio daria para enriquecer.

A irmã, continuou no ensino, foi ficando na idade casadoira, e haveria de aparecer um fazendeiro rico que se haveria de interessar por ela,  já por ali andava um, indo beber umas Cucas ao Café deles e já andava de olho na rapariga.

Com o início da guerra de 61 e o movimento de tropas portuguesas para Angola, dá-se uma explosão de movimento, crescimento e desenvolvimento por toda a Angola.

Começa a haver estradas asfaltadas com centenas de quilómetros e cada vez mais quilómetros de asfalto, com boas e modernas pontes, deixou de haver carros pendurados nas pontes feitas de troncos de árvores e a distância de Luanda até Vila Palma, passou a ser feita em dois ou três dias em tempos de cacimbo, tempo seco, porque no tempo das chuvas até poderia demorar uma semana ou mais, caso quando os carros ficavam atascados na lama e não houvesse por ali um fazendeiro com um bom trator para ir desatolar a viatura.

 A família Rolos, já tinha acreditado em África.

Começaram a sentir-se já mais africanos-angolanos do que de portugueses. O Portugal da Europa já tinha ficado para trás e ia passando ao esquecimento, já era uma miragem.

 Mais de dez anos tinham passado. Todos os filhos já eram agora adultos e bem-criados.

As duas irmãs, já tinham casado e bem. Não precisaram de se preocupar muito.

Ali em África, para uma jovem mulher branca, não lhe faltavam pretendentes.

África estava cheia de homens ricos e solteiros, embora já não jovens. Mas como dizia a experiente conselheira de casamentos à jovem que queria casar com homem rico e jovem, a conselheira disse-lhe: se quiseres casar com homem rico, não será jovem. Se quiseres casar com homem jovem, não será rico.

O irmão mais velho desta família Rolo, casou por procuração com uma conterrânea camponesa que tinham feito a escola primaria em simultâneo na sua terra e que agora eram felizes em África.

Uma das irmãs, casou com um comerciante fazendeiro e a outra com um seu conterrâneo ido como militar e tinha ficado por ali a tentar a vida, conheceram-se, apaixonaram-se e casaram. Ficou mais uma família a constituir-se e a povoar Angola.

Saíram de casa dos pais e fizeram a sua vida à parte de empresários. Fazendeiros e comerciantes. Era por estes dois ramos que a maioria dos europeus que iam para África, começavam e se viria a transformar em grandes capitalistas.

Para os homens casadoiros em África, já era mais difícil arranjar casamento sem sair de África. A solução era casar por procuração ou voltar pessoalmente à terra de origem com figura de capitalistas e procurar casamento – que não era difícil encontrar casamento para um africano-branco.

 Mas estes homens solteiros enquanto em África, mantinham liberalmente relacionamento íntimo e marital com mulheres africanas-negras. Não raro quando havia mesmo filhos.

Mas essas ligações eram só para ir satisfazendo os seus apetites sexuais enquanto não encontravam uma mulher branca que quisesse casar com eles. Embora algumas ligações a mulheres africanas, poucos casos, ficariam para sempre e acabariam por constituir família natural com elas.

Os rapazes da família dos Rolos, continuavam quase todos por casar. Recorreram ao contacto por correspondência com raparigas da terra. Mas eles, já se consideravam homens ricos. Já tinham fazendas, comércios, camionetas de transportes, serrações de madeiras e um mundo de negócios sem fim, até diziam que já tinham mais gente a trabalhar por conta deles, do que gente havia na sua aldeia natal.

Referiam-se aos nativos que trabalhavam nas suas fazendas, na monda do café, do algodão, do milho, do sisal, do corte de madeiras, também tinham muitas camionetas a transportar as madeiras e outros produtos agrícolas para o embarque, para toda a Angola, Portugal continental e estrangeiro.

Para iniciar e adquirir uma Fazenda, bastava demarcar os terrenos e registá-los nas Finanças.

Por isso, um dos irmãos, o que tinha sido professor, passou a pedir por correspondência, uma noiva da terra natal, dizendo que haveria de ser uma professora, porque ele também já tinha sido professor em África, com a 4ª classe e para os nativos daquelas bandas,  além do mais, dava-lhe um estatuto superior aos outros fazendeiros que vinham casar a Portugal. Em geral, casavam com conterrâneas, por vezes só com a instrução primária e camponesas, mas das mais ricas da aldeia.

Deixou a vida de professor, porque era um homem rico e precisava de ir administrar as suas propriedades.

Por correspondência e pedindo informações da terra de origem e dando as suas que nem todas correspondiam à verdade, iniciou um namoro muito rápido com uma jovem que era de facto professora e bem formada e que ir para África também era um sonho e uma miragem que ela alimentava desde o fim do seu Curso.

Passava-lhe pelo pensamento, ir dar aulas em África. O contacto com este africano veio mesmo a calhar, juntou-se a vontade à ocasião.

Em dois meses, com pouca troca de correspondência da parte dele que praticamente só levava fotografias dos piqueniques que faziam nas Fazendas, das paisagens das Fazendas, chegaram ao comum acordo de iniciar a coisa a sério.

O problema dele era que não se sentia à vontade para se corresponder com uma professora, escrevia pouco nas cartas, enviava era muitas fotografias para que ela fizesse a sua opinião através de imagens, mas nem sempre as fotografias correspondiam à realidade.

Carlos, vamos chamar-lhe assim, faz uma viagem relâmpago de algumas semanas a Portugal, conheceram-se pessoalmente e casaram.

Isabel, era uma jovem professora, que ainda não tinha chegado aos trinta anos, mulher bonita e ambiciosa que quis conhecer África, que já tinha sonhado com África e que ao deparar-se-lhe a oportunidade que se lhe deparou, não perdeu muito tempo a pensar com receio de a perder. Pensava ela que afinal tinha descoberto a África do futuro sem ter saído da sua terra. Casava com um homem rico e ia para África, já tinha tudo feito em África, completava assim dois sonhos em um.

Os dois, pensaram da mesma maneira, que se demorassem muito tempo em conversações poderiam perder a única oportunidade da vida.

Sem perder tempo, combinam tudo, Carlos desloca-se a Portugal, apresenta-se em carro topo-de-gama (alugado em Lisboa) Isabel vê um homem fisicamente de aparência boa, muito queimado, mas isso seria natural em África, conhecem-se pessoalmente, dão algumas voltas juntos e decidem casar mesmo.

Isabel estava a viver um sonho, mas Carlos, passados poucos dias com Isabel já casados, de um momento para o outro toma uma decisão estranha, diz que tem que regressar a África por causa dos negócios e parte para África ele só, deixando Isabel também só em Portugal.

 Isabel fica surpreendida, estava a contar passarem mais algum tempo os dois pelas suas terras de origem, ela tinha começado a sentir vaidade em apresentar o marido às pessoas conhecidas com quem se cruzava, só o carro deixava as pessoas de boca aberta, por tudo isto, Isabel queria dar mais umas voltas e preparar com calma e tempo necessário a viagem que ia iniciar para África, mas continuava a viver um sonho que nem ela própria encontrava explicação.

 Mas Isabel começou a pensar num senão,  Carlos quase não falava, estava sempre calado, mesmo perante as pessoas a quem Isabel o apresentava e isso começou a deixar Isabel um pouco preocupada. Carlos não sabia conversar, não sabia dialogar, tinha partido para África ainda de criança, criou-se no interior do mato onde não tinha jovens com quem conviver, depois de adulto, como era normal e aceitável naquelas terras, os namoros eram substituídos por ligações amorosas íntimas com mulheres africanas rurais que muitas nem sabiam falar português, por isso ele não estava habituado a conversas de grupo e não sabia conversar. Teria sido isto a causa de ele ter querido partir tão rápido para África deixando Isabel para trás!

Ao lado de Isabel, embora não parecendo nem sendo muito culto, era um homem com apresentação e não deixava Isabel diminuída sempre que tinham de se apresentar às pessoas.

Após tudo resolvido e preparado, Isabel parte e viaja para Luanda ao

encontro de Carlos.

Em Luanda, lá estava o seu amado Carlos, todo desejoso dela à sua espera e ficou com ela a passar uns dias na capital de Angola, quis mostra-lhe a bela cidade de Luanda e o que ele conhecia daquela cidade. Carlos conhecia muito pouco de Luanda, as poucas vezes que lá se tinha deslocado era em negócios de compra de produtos para comercializar nas suas lojas e sempre a correr e assim que acabava de tratar dos negócios voltava logo a Vila Palma, a cultura de praticar algum turismo de conhecimento não existia nele.

Agora, com Isabel ao lado tentava ser um bom cicerone, mas pouco tinha para lhe explicar, lá iam passando de carro, olhando caladinhos, ele não sabia falar, porque pouco conhecia, ela, era a primeira vez que estava numa cidade de caraterísticas tropicais, muito diferente das cidades que tinha deixado para trás, quando deixou Portugal já começava a fazer frio, mas ali em Luanda começava o verdadeiro calor tropical, só apetecia andar com roupas muito leves e curtas, coisa que Carlos não a tinha alertado e aconselhado para isso, provavelmente ele nunca tinha passado tempos em Luanda ao lado de uma mulher que gostasse de andar de acordo com esse clima, Carlos precisou de ir ao Banco levantar dinheiro, Isabel ficou à porta do Banco dentro do carro, Carlos poderia tela convidado a entrar no Banco com ele, até para se ir ambientando à quele ambiente, mas Carlos como já sabia que Isabel era uma mulher com uma cultura muito acima da dele, evitava sempre que podia, falar e tratar de assuntos em conjunto.

Isabel, dentro do carro à porta do Banco Comercial de Angola, plena baixa de Lunda, um dos edifícios maiores, mais modernos e emblemáticos de todos os territórios portugueses, não parava de ver entrar e sair figuras interessantes e vestidas de formas como ela nunca tinha visto, a que mais lhe chamou à atenção e a deixou abismada, foi uma mulher mais ou menos da sua idade, parou o carro frente ao Banco mesmo ao lado do dela, saiu e entrou no Banco, mas em biquíni como vinha da praia. Sem dúvida que Isabel estava num mundo climático e social muito diferente do que ela tinha deixado na sua terra.

 Carlos e Isabel continuaram  com as suas voltas por aquela cidade que deixava Isabel deslumbrada, depois de umas voltas voltavam à Pensão onde estavam hospedados.

No dia seguinte, quis mostra-lhe a Ilha mítica de Luanda e levou-a lá para lhe mostrar  toda a beleza em conjunto da Ilha com a Baía de Luanda.

Isabel ao ver aquela praia da Barracuda no final da Ilha, não aguentou sem querer experimentar as águas quentes de um azul brilhante e aproveitar para mostrar ao ar livre pela primeira vez o seu escultural corpo a Carlos e agora ao sol de África ainda ficaria mais escultural, mas não levavam fato de banho com eles.

Em Luanda, em qualquer altura do ano, ir à Ilha e não levar fato de banho, é a mesma coisa que ir à neve e não levar roupa de agasalho.

Isabel sugeriu logo irem comprar fatos de banho e Isabel já se tinha concentrado que estava em África e começar a pôr em prática os planos que trazia da Europa, começar uma vida à africana.

Após percorrerem algumas lojas de fatos de banho, que em Luanda eram muitas e do melhor que havia, nunca ela tinha visto em Portugal nem na Europa, eram bikinis próprios desse clima, clima de África, ficava deslumbrada a olhar para aqueles bikinis, em Portugal só tinha usado fato-de-banho completo a tapar-lhe o corpo, aqueles bikinis multicores eram tentadores e encantadores, Isabel não resiste, tenta convencer Carlos, que não foi fácil e compra o bikini dos seus sonhos, era esse bikini que passaria a usar sempre que quisesse ir à praia. Carlos, embora com uma certa vergonha escondida, acedeu e foram dar o mergulho.

Mais um dia de sonho para Isabel, este sim, estava a corresponder aos seus planos para em África.

No 3º ou 4º dia que passavam na praia da Barracuda na ponta da Ilha do Farol, pouco mais faziam do que sair da Pensão onde estavam hospedados, irem de manhã para a praia, almoçarem no Tamariz e regressarem à tarde à Pensão, tomarem duche, jantavam e davam uma voltinha em redor do quarteirão depois de anoitecer, embora em Luanda houvesse boas casas de cinema com bom ar condicionado e bons espetáculos noturnos. Luanda era uma cidade de espetáculos noturnos e boas avenidas cheias de belas montras com as ultimas modas e principalmente na Baixa da cidade, com muitas montras modernas onde se encontravam para ver todos os produtos mais modernos do mercado para ver e comprar e depois de anoitecer e vir aquela brisa do mar da Baía de Luanda era imensamente agradável passear na Baixa de Luanda e principalmente na Marginal a ouvir a brisa vinda do mar passar por entre a folhagem das palmeiras e coqueiros da imensa avenida circundante em meia lua de toda a Baía, todos estes prazeres que Carlos não soube proporcionar a Isabel quando da chegada a Luanda e antes de a levar para Vila Palma para o interior de Angola.

Na viagem de cerca de1.000 km que tinham para percorrer, logo a sair de Luanda, surge-lhes a primeira recta de 60 km, até Catete em franco desenvolvimento, coisa que Isabel nunca tinha imaginado ,passando pela cidade de Viana que também estava tudo em construção e progresso, ainda teriam mais uns 600 km de estrada asfaltada, depois, os outros 400 seria estrada macadame que daria para uma velocidade até aos 80/100 k/h.

Passavam por imensas Fazendas sem fim à vista, Carlos, todo glorioso, ia explicando a Isabel a importância daquelas fazendas e as suas produções agrícolas e manadas de animais com milhares de cabeças de gado.

Percorridos já muitos quilómetros, Carlos continuava a enumerar-lhe as imensas propriedades e seus proprietários, sabia o nome de quase todos, Isabel questiona-o: já me falaste em propriedades sem fim e seus proprietários, mas ainda não me mostraste nenhuma propriedade tua!

Carlos ficou sem pio! Também captava muito a atenção de Isabel, eram os enormes matagais selvagens e de onde ao carro passar e com o barulho do chiar dos pneus quando o carro descrevia as curvas, bandos de macacos espavoridos a polar de árvore em árvore pendurando-se das compridas lianas penduradas das árvores e os terrenos avermelhados que lhe faziam lembrar as imagens do Planeta Marte.

Já em Vila Palma, Isabel tentava ser compreensiva e atenciosa para toda a gente que via, queria ser a pessoa que sempre foi nas suas terras, toda a gente estimava e era estimada por toda a gente.

Passado não muito tempo, não estava a ser de todo aquilo que tinha pensado, mas queria dar o benefício da dúvida, também poderia que fosse ela que não estava a ver as coisas com realmente eram.

Em África, não encontrou o paraíso que ela tinha imaginado. Mas tentou adaptar-se às circunstâncias. Sempre se considerou uma mulher vencedora e não era agora que iria dar parte de fraca em tão pouco tempo, por isso, não iria desanimar.

Primeiro, foi adaptar-se ao clima. Não era que para a região para onde foi, o clima fosse mau, antes pelo contrário, era um dos melhores de Angola. A temperatura média anual andava pelos 25 / 30 graus centígrados e a umidade não era elevada.

Havia noites que até sentia mais frio do que quando passeava na Serra da sua Região . Mas essa situação também era ultrapassável. Bastava pôr pelos ombros um casaquinho de malha e o corpo ficava ameno e protegido do frio. Enquanto na Serra da sua região quando faz frio, teria que vestir casacos de Lã bem quentes.

Às noites, depois de jantar, dava-lhe prazer sair de casa com o seu

casaquinho de malha pelos ombros e ir dar uma passeata pela avenida abaixo, quase ou completamente vazia, o movimento diurno dos nativos que circulavam pela avenida entrando e saindo de loja em loja e entrando na outra a seguir para ver se encontravam os Panos, a Fuba, a Mancarra, a Jinguba, os panos para Kimones e o Óleo de Dendém mais barato, assim que o horário mal cumprido obrigava as lojas a fechar, esse movimento da Avenida ficava reduzido ao silêncio.

A professora Isabel, que ainda estava no período de adaptação, tentava desmistificar todo aquele enigma, aqueles mistérios de África.

Com o braço metido pelo do seu marido, passos lentos e longos, semi-calados, ela com sorriso nos lábios olhando para todos os lados, mostrando a si própria a felicidade com que se movimentava por aquela avenida de terra batida, deliciando-se com o agradável perfume largado pelos Jacarandás e as frondosas Mangueiras cheias de apetitosas Mangas prontas a ser comidas, que ladeavam toda a avenida.

Não sabia bem se havia de falar ao marido nas conversas que tinha durante o dia com a sua colega, que lhe parecia, desde que a conheceu, boa pessoa.

A colega, era a Nizé Ginga. Tinha a formação de professora interina.  

««Continua na próxima publicação»»«

 

 

 


sexta-feira, 3 de junho de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã: Troia: cronica republicada da 1ª publicação em 13-07-2011

 

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã



Praia de Troia
Turismo em Troia
 


Ilha de Troia


Cronica republicada da 1ª publicada em 13-07-2011, como teve muitas centenas de leitores por cerca de 60 países, republico-a novamente.

Troia, é uma lindíssima língua de terra frente à cidade de Setúbal, ver fotos que pode ampliar clicando, que se estende por cerca de 18 km de comprimento  e cerca de 2 km de largura no ponto mais largo.

Como nestas minhas crónicas me preocupa essencialmente as mudanças que Portugal sofreu nos últimos 50 anos, quando terminará este meu trabalho (como já disse mais vezes) com um livro acompanhado de um DVD com pequenos filmes cirúrgicos de vários pontos do país, hoje vou falar de Troia e particularmente desde o dia em que eu a conheci pessoalmente.

1975, partimos de Lisboa um pequeno grupo de jovens, seis, atraídos pelas facilidades de passar um fim-de-semana numa famosa estância turística, como estávamos desde havia muito tempo habituados a ouvir publicitar. Agora, todas essas condições estavam abertas a todos os cidadãos mesmo pagando pouco.

Deixamos os carros em Setúbal, atravessámos o estuário do Sado no hovercraft onde se notava uma grande afluência de passageiros muito eufóricos para Troia.

Já na Península e na zona turística por excelência, as boas estruturas lá estavam: bons espaços de restaurantes, de lojas e centros comerciais bem espaçosos, mas já não estavam muito bem abastecidos. Os bons hotéis lá estavam, mas notava-se que já não tinham o ambiente para o qual foram feitos, estavam em parte vazios.

Depois de termos gozado uma boa manhã de praia, que só nos países tropicais é que era possível saborear uma água daquelas, fomos almoçar e o espaço do restaurante era excelente, empregados para servir já só existiam os mais revolucionários, atendiam-nos a correr e com palavras revolucionárias, pois estávamos no período mais revolucionário do pós-25 de Abril. Muitos dos clientes, se alguma coisa não estava como eles queriam, exigiam severamente gritando alto - então para que foi feito o 25 de Abril?

Passado um ano, o mesmo grupo voltámos lá ao mesmo restaurante e já estava fechado. Toda a zona turística era um deserto. Havia gente nas praias, mas era gente que ia de Lisboa e da região fazer lá praia normalmente.

O nome de Troia a esta península vem-lhe do tempo dos romanos, porque acharam este espaço de terra parecida com a Troia grega mítica.

Há vestígios de local privilegiado mesmo de antes dos romanos e os romanos fizeram aqui um grande centro industrial e comercial de conservas de peixe. Acharam que era um dos melhores peixes que encontraram e com abundância, criaram centros de salgamento, conservas e exportação, manteve-se para além da era romana e até fins da idade média. D. Maria I ainda considerou muito esta Península.

A partir do início da 2ª metade do século XX, Troia voltou à moda e começou de novo o desenvolvimento, mas agora turístico. No início dos anos setenta do mesmo século Troia era um dos melhores e mais frequentados centros turísticos de Portugal, empregava milhares de pessoas.

Em 1975 quando eu conheci pessoalmente, como já descrevi atrás, já estava em queda vertical pelas razões que também descrevi atrás.

Depois, passei por ali algumas vezes durante férias andantes, cheguei a acampar por ali (campismo selvagem) e a partir de 2000 de novo Troia voltou a ter esperança.

Agora, quem por ali for e tiver conhecido o processo por que passou Troia nas últimas décadas nem quer acreditar: Troia sofreu uma transformação que só vendo. Agora tem dos melhores Hotéis do mundo, centros de congressos, condições turísticas para todas as carteiras e ali respira-se turismo de qualidade para todas as posses financeiras.

Para além dos espaços de qualidade superior, continua a haver espaços nas praias para turismo popular. Ver as duas ultimas fotos do nosso lado direito.

Assim vai mudando Portugal!...

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã. As pessoas e as coisas - 02-06-2022

Agora
Antes







Odete, acabara de concluir o bacharelato em educação física no ISEF. Meados da década de setenta, nas redondezas onde nasceu e se criou não tinha hipóteses de colocação. (nomes fictícios)

Rumou à capital, mas passado pouco tempo vieram-lhe saudades dos pais e da Terra. Embora ela gostasse de dizer que nunca deveria ter nascido na terra onde nasceu, o desejo foi mais forte.

 Quando dos dias mais pequenos, a camioneta levava um dia a lá chegar. Viagem maçadora. Recorreu ao amigo e conterrâneo Ricardo, com quem tinha travado conhecimento próximo já na capital, que de vez em quando também gostava de ir à terra com o seu automóvel, e este de boa vontade dispensou boleia.

 Partiam cedinho pelas 06:00h para evitar as grandes filas (bichas) ao atravessar as localidades, só tinham 25 km de autoestrada até Vila Franca de Xira. O primeiro teste à paciência era no Carregado, fotos em anexo (pode ampliar foto clicando). Dali para a frente, cada localidade e aglomerado populacional era mais um teste à paciência com o pára e arranca. Mesmo assim, Ricardo, com destreza e condução segura, fazia essas várias centenas de quilómetros em 6 horas. Por volta do meio-dia lá estavam eles a almoçar na sossegada Santa Terrinha em casa da mãe de Odete.

 Ricardo, era um jovem que depois de passar a sua adolescência a trabalhar na agricultura. também rumou à cidade e fixou-se na capital a trabalhar, ao mesmo tempo que estudava à noite. Jovem alegre e divertido, atlético, não passava despercebido às jovens namoradeiras.

 Odete, era uma jovem que quando passava, deixava os homens a olhar para trás. A sua elegância, o seu porte fino com lindos e grandes olhos castanhos numa cara rosada davam-lhe uma beleza rara e não resistiu ao porte atlético e simpatia de Ricardo, que começou a sentir algo mais por ele, mas essas viagens acabaram depressa.

 Odete tinha recebido uma cultura de classe social e lutava entre o que já gostava de Ricardo e a diferença entre a criação dos dois.

 Ela, criou-se no Liceu vestindo roupas de marca e se alguma vez passou por Ricardo nesses tempos, nem lhe chamou à atenção.

 Enquanto, Ricardo nesses tempos quase nem tinha tempo para se divertir e roupas de marca nem sabia o que eram.

 Agora, Odete gostava de Ricardo e começava a ficar um pouco perdida por ele e como não era parva, via em Ricardo um homem de futuro, mas o problema social começava a traí-la.

 Deu a entender a Ricardo que estava disposta a sacrificar a diferença social entre os dois para o aceitar, mas não escolheu a melhor forma de dizer isto a Ricardo. Disse-o de uma forma humilhante para Ricardo, talvez involuntariamente, mas era a formação sócio/cultural/familiar que lhe dava essa forma de ver as coisas e a estava a trair.

 Ricardo, embora não sendo vaidoso, mas tinha plena consciência da sua posição na sociedade. Já tinha viajado e vivido algum tempo no estrangeiro, por isso, sabia bem o chão que pisava.

 Ricardo, embora já começasse a gostar de Odete, mas assim, achou que não estava ali a mulher da sua vida.

 Odete conheceu outro homem, casou, mas em breve haveria de ficar com uma filha para criar depois de um divórcio.

 Ricardo, concluiu o seu curso universitário ao mesmo tempo que constituía uma família feliz com a mulher com quem casou e a vida profissional proporcionou-lhe condições sociais a nível de classe social que Odete nunca conseguiu.

 Decorridas três décadas cruzaram-se novamente, mas agora a diferença social inverteu-se. Quando Ricardo quis falar de igual para igual com Odete, ela olhava para ele com a mesma diferença com que olhava trinta anos antes, mas agora olhava para Ricardo de baixo para cima.

 O mesmo aconteceu com o cruzamento do Carregado, fotos em anexo, antes e agora está um cruzamento/nó de Autoestradas em todas as direções, abrindo os caminhos do futuro, que uma delas leva Ricardo à sua terra em metade de tempo de há trinta anos.

 E, enquanto esta viagem há trinta anos era uma viagem de cansaço, hoje é uma viagem de passeio e turismo. Tendo em conta também o automóvel de há trinta anos e o automóvel de hoje.

 Em três décadas, mudam enormemente os tempos, a sociedade e as as condições socioeconómicas das pessoas

 















 

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã: Opinião, 02-06-2022.

Algures na Beira Alta, escrito em gótico, seria uma fronteira
Miranda do Douro 







Estamos a atravessar um período em que ouvimos com frequência a discussão da nossa identidade como Lusitanos e Portugueses, por vezes até exageram sem se perceber muito bem o que é que eles querem e aonde querem chegar. Uma larga maioria dos portugueses não conhece suficientemente bem a história de Portugal e dos portugueses, principalmente nestas últimas gerações, onde passam pelas escolas e faculdades sem ficarem a saber o suficiente sobre a nossa identidade e os nossos feitos como Nação.

Há debates nas TVs que pela forma e modo como algumas pessoas se referem à nossa Nação Lusitana, poucos conhecimentos terão da nossa história, senão, não emitiriam determinas afirmações, embora e até por vezes, fazem afirmações que não só desconhecem a verdadeira história e identidade da nossa Nação, com a ofendem intencionalmente. Muita gente, conhece a história até ali à ocupação romana, ao período romano e algo a partir dali até agora.

Ainda recentemente foi dado conhecimento através dos órgãos de comunicação, que no Alto Minho, viveram povos há cerca de 600.000 anos (seiscentos mil anos) não restam dúvidas de que alguns dos portugueses descenderão desses povos. Também, há cerca de 150.000 anos (cento e cinquenta mil anos) uma tribo, um povo, o Povo Zoela, vindos da região de Burgos, desceu o vale do Duero/Douro e lhes terá levado 20.000 anos até chegar ao enclave do Sabor com o Douro, ficando como epicentro a região de Mogadouro, provavelmente por ser rodeada de condições de segurança, Rios Douro e Sabor, por 3 serras e com muita nascente de água, oferecendo assim condições de vida e de segurança, deixando povoados por toda esta região e depois passados alguns milhares de anos transpuseram estes dois rios e passaram espalhar-se por territórios que são hoje Portugal. Não restam dúvidas de que muitos dos portugueses atuais descendem, sem dúvida, destes povos. Na cidade de Zamora, Espanha, próximo da fronteira com Portugal existem muitos indícios referentes a estes povos, onde existe também uma estátua a Viriato em cima de uma rocha a segurar um grande Carneiro pelos cornos, com a inscrição: Viriato - o terror de los romanos.

Com o abandono da aprendizagem da história de Portugal o suficiente, acontece que começa a haver pessoas que por falte de conhecimento, emitem declarações que não só são ingénuas, como por vezes ofensivas, porque também nos últimos tempos até ensinaram ao contrário da história de Portugal.

Sobre os descobrimentos marítimos de Portugal, têm sido emitidas palavras, que para alem de não corresponderam à verdade, são ofensivas, lesivas e humilhantes pondo em causa a boa intenção dos que com bom pensamento levaram a linga e cultura portuguesa por muitas paragens pelo mundo. Estive em alguns dos países de língua portuguesa e vi a estima que esses povos têm por Portugal, pela língua portuguesa, pela cultura e pelos portugueses. Mais, estava eu num país a muitos milhares de quilómetros de Portugal e não é de língua portuguesa, a assistir a um curso, o monitor teve conhecimento de que eu era português e veio dar-me um abraço todo emocionado, porque por ali passaram há muitos seculos os portugueses. Qualquer pessoa que nasce em Portugal poderá ter o direito de não querer ser português ou de não gostar dos portugueses e de Portugal, não tem o direito de ofender os portugueses e Portugal. É o que se tem visto em alguns debates televisivos ultimamente.