sábado, 2 de julho de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - Aventura Africana - 3ª e ultima parte.

Praias de Luanda 1973

 Costa da Caparica


»» Continuação da cronica de 22-06-2022

Claro que já não era a mesma pessoa. Em pouco tempo, tinha ficado uma mulher madura. África torna as pessoas mais depressa maduras. Pensa-se mais. Tem-se mais tempo para pensar.

Neste caso de Isabel, para ela, era mesmo de pensar, mas não queria desanimar. Nunca deixou de acreditar no futuro.

Ninguém nem nada lhe poderia roubar o futuro que ela preparou e que achava que tinha o direito de viver.

Preparou-se logo de muito jovem com o apoio familiar e seguidamente ela própria deu continuidade a esse alicerce de um bom futuro. Por isso acreditava nele. Nesse tempo, os jovens acreditavam mais neles próprios e não estavam tanto à espera das ajudas externas.

Um bom curso já tinha conseguido. Uma boa colocação também a tinha conseguido mal acabou o curso.

Seguidamente, aspirava a um bom marido através de um bom namoro, para construir uma boa e saudável família completa, assim como dizia a sua cultura educação e formação.

Os conhecimentos para África, tinham-lhe dado uns sonhos que ela tinha alimentado para completar a sua felicidade.

Agora em África, alguns sonhos tinham-se realizado, mas outros tinham sido postos em causa.

Mas Isabel, continuava a acreditar que seria possível completar os seus sonhos de vida.

Isabel, continuava a acreditar fortemente no amor com um homem e era com Carlos que ela continuava a acreditar que poderia realizar o futuro que ambicionava.

Era uma mulher sensual, não dispensava os prazeres carnais, gostava do marido que tinha, mas o mistério que continuava entre os dois continuava a deixá-la pensativa.

Tentava moldá-lo a uma vida amorosa e digna à maneira dos dois e dos seus desejos. Queria ter filhos, mas feitos com amor mútuo. Confidenciou a alguém que desejava ter 5 filhos, queria uma casa cheia.

O dormirem todos nus na cama, só protegidos pela rede contra mosquitos, alimentava Isabel, sempre que cada ato sexual com amor, poderia ser o princípio do seu primeiro filho.

Desde o primeiro contacto amoroso sexual com Carlos, que Isabel se tinha habituado à condição própria. No amor carnal, era inexperiente e virgem.

Carlos era um homem que quando casou, depois de ter batido os trinta anos, já tinha tido relações com várias mulheres e mantido sempre uma mulher permanentemente disponível.

Era condição para um homem que vivia pelo sertão africano, não querendo correr os riscos de contágios de doenças venérea para quando viesse a casar, ter uma mulher nativa permanente e exclusiva só para ele, com a condição de ter de a sustentar à maneira dela.

Não viviam em comunhão de mesa e habitação, mas ela teria de estar em casa dela sempre disponível para ele, nem se mostrava à janela.

Carlos, mesmo com todos esses cuidados, não conseguiu evitar de apanhar essa doença venérea que se tornou em crónica.

Quando casou já a tinha e dito pelo médico que seria crónica, definitiva e possivelmente transmissível a descendentes.

Para não contagiar outra mulher com quem Carlos viesse a manter relações sexuais, estava bem aconselhado pelos médicos como proceder.

Essa forma, impedia-o de pretender ter filhos. Ele tinha optado por não querer ter descendentes por esse motivo.

Nos primeiros tempos de casados, Carlos não conseguiu ter coragem de esclarecer Isabel desta situação. Mas passado bastante tempo e depois de já não conseguir resistir à insistência de Isabel, acabou por confessar e esclarecer Isabel no que não conseguia esconder.

Agora, Isabel já sabia com que linhas se cosiam. Mas para ela, a medicina estava a evoluir e poderia que viesse a resolver esta situação.

Para Carlos, já tinha perdido as esperanças de cura. Já tinha falado e gasto muito dinheiro com vários médicos.

Isabel vivia agora um mundo de esperança e desilusão. A vida tinha-lhe trocado as voltas e pregado esta grande partida.

Passava o tempo a tentar convencer o marido, que ainda poderiam vir a ter filhos e uma família completa. Era um dos seus desejos para se sentir realizada e uma mulher completa.

O resto tinha quase tudo.

Dinheiro, ocupação, boas casas. Tinha-se adaptado já a África.

Quando ia para os Safaris junto das fazendas do marido, sentia imensa tristeza não levar já filhos consigo, já estava casada há vários anos e queria mandar fotografias tiradas nos Safaris junto da caça grossa morta na caçada, para os familiares em Portugal.

Mas o segredo ainda não estava completamente desvendado.

A razão por que Carlos não demonstrava vontade de ter filhos, era doença venérea crónica que tinha adquirido por mulher africana também crónica.

Nesse momento, Carlos ainda mantinha a relação íntima o mais secretamente possível com essa mulher africana. Não estava fácil desligar-se dessa mulher, era familiar de um importante e influente político africano, este também casado com mulher branca e europeia.

Se Carlos viesse a abandonar essa mulher, que estava a manter exclusivamente como segunda mulher, se a abandonasse, correria o risco de ter ele de abandonar África por razões de segurança.

Para além de Isabel estar a ficar completamente baralhada e confusa, também não estava a dar informação da situação à família em Portugal. Continuava à procura de uma saída para tal situação muito difícil.

Carlos já não a ouvia muito bem, porque Carlos já se tinha conformado com a situação. Mesmo quando casou com Isabel, já previa esta situação.

Mas Isabel de forma alguma queria aceitar esta situação, mas não entrou em desespero. Haveria de haver uma saída.

Novamente recorre à sua confidente e conselheira Nizé Ginga. Falou mesmo a Nizé, se através de feitiço, não seria possível retirar Carlos de tal situação. Quer a cura da doença crónica, quer o afastamento da mulher nativa que mantinha secretamente.

Nizé sorriu! ela própria não acreditava em feitiços. Mas também não punha de parte, que futuro poderia trazer uma saída para tal situação.

Sentia pena de Isabel. Isabel não merecia tal situação. Não queria acreditar que Carlos não lhe tivesse contado a Isabel a situação quando do casamento!

Agora estava complicadíssimo. Sobretudo pela pessoa com quem Carlos estava envolvido. Sabia o peso que esses políticos tinham em África. Tudo seriam capazes de fazer e tudo fariam.

A independência de Angola e a forma precipitada como aconteceu, surpreende tudo e todos.

De regresso a Portugal, Isabel vê uma luz ao fundo do túnel.

A família Rolos regressou a Portugal

Já em Portugal, Isabel, continua a ficar baralhada. Não sabia bem se esta situação estava mesmo a acontecer ou se seria ficção.

Mais um momento dificílimo para o clã Rolos. Todos regressaram a Portugal e com pouco mais do que tinham lavado para África havia 30 anos.

Não foram dos que passaram os primeiros tempos em frente à Assembleia da República a gritar e a reivindicar. Mas circularam pelas ruas de Lisboa no mês de novembro, só de camisa branquinha de meia manga, à procura de oportunidades para se fixarem e recomeçar a vida.

Finalmente, conseguiram no centro do país recomeçar a sua vida.

Isabel, desde que regressou a Portugal, ficou uns tempos pensativa, mas não voltou a ficar presa cem por cento ao clã Rolos, vislumbrava-se-lhe que poderia ter uma nova oportunidade de vida. Aquela, não tinha nada a ver com a pessoa dela

Aproximou-se da sua família que tinha deixado em Portugal e ex-amigos e procurou hipóteses de se fixar e conseguiu. Continuando como docente.

Veio o início do verão. Havia que matar saudades das praias que tinham deixado em Angola. Procuraram a praia da Costa da Caparica, fazia lembrar algumas praias extensas que tinham deixado em Angola. A água é que era diferente, mas era suportável.

Isabel já tinha frequentado as águas da Caparica. Para além disso, o voltar a estas águas desta praia, trouxe-lhe umas saudades imensas. Quando para lá ia com o seu grupo de amigos divertidos, em que imaginava a sua vida de futuro completamente diferente daquilo que lhe aconteceu. Por isso, estar de novo a pisar esta areia, parece que lhe dizia que uma nova página do livro da sua vida, se estava a abrir!

Carlos é que nunca tinha pisado uma praia em Portugal, não se dava muito bem com os ambientes das praias em Portugal. Porque mesmo em África, Carlos tinha feito muito pouca vida de praia. Não se sentia à vontade em lado nenhum. Mas Isabel fazia-se acompanhar sempre que ia para a praia agora, por um familiar e era com esta que Isabel conversava.

Quando estavam nas filas dos autocarros na Costa da Caparica à espera da sua vez para regressarem a casa, Carlos desesperava com facilidade, e começava a pronunciar palavras e frases inconvenientes, a pontos de Isabel se ver obrigada a disfarçar não ser seu familiar.

 Até por que o Carlos não tinha conversas muito interessantes, e agora Isabel já não precisava de se sujeitar só às conversas de Carlos, já tinha com quem conversar a nível dela.

Inevitavelmente, as relações entre Carlos e Isabel foram-se deteriorando.

Isabel, a uma nova forma de relacionamento com o marido dá início. Passou a viver em casa de familiares dela. Ou ele mudava, ou ela também passaria a não se ralar mais.

Se o marido quisesse ir ter com ela, aceitava-o. Se o marido não aparecesse, ela também não ia ter com ele.

Por sua vez, o marido tinha consciência da partida que tinha pregado a Isabel. Por isso, também não se sentia muito à vontade para ir todos os dias ter com Isabel.

As relações foram esfriando. O interesse de um pelo outro foi diminuindo. E o afastamento progressivo foi inevitável. A separação aconteceu. E seguidamente veio o divórcio.

Isabel, ainda era uma mulher nova, era bela, elegante e atraente. Era mulher só e os pretendentes começaram a aparecer. Mas Isabel continuava muito pensativa. Queria deixar passar mais algum tempo. Mas ainda não tinha cumprido um dos sonhos da sua vida. Que era constituir uma família completa. Ou seja: com marido e filhos.

Pensou também que, caso continuasse a querer realizar esse sonho, não poderia perder muito mais tempo, por que os anos passavam e os quarenta aproximavam-se.

Embora hesitante, aceitou nova experiência com um pretendente. Muito cautelosamente, foi progredindo e medindo bem os passos que ia dando. Esse homem começou-lhe a inspirar confiança, começou a gostar dele. Apercebeu-se que esse homem também gostava dela. Deram o tempo necessário para o efeito e deram o nó.

Haveria de começar aqui o segundo martírio de Isabel.

Não com este novo marido, mas as perseguições que Carlos lhe fazia.

Carlos nem de perto nem de longe, queria aceitar a separação de Isabel, mas enquanto não a viu próxima de outro homem, ele manteve-se sereno e afastado, talvez pensasse que Isabel ainda poderia voltar para ele. Mas a partir do momento em que a viu ligada a outro homem, veio-lhe o ciúme doentio.

Carlos era um homem que não tinha desenvolvido o seu raciocínio. Tinha partido de criança para África, para o interior de Angola, o seu raciocínio social não tinha sido desenvolvido. Assim, tinha grande dificuldade em compreender as mudanças sociais que ocorreram na sua vida.

Após Isabel ter casado novamente, Carlos procurou cruzar-se com Isabel e conseguiu.

Ao passar por ela, disse-lhe que se um dia ela viesse a ter filhos, que evitasse de passar por ele! Com sentido de ameaça!

Isabel ficou assustada, pois uma das razões porque ela casou novamente, era para ter filhos.

Mas agora ela via à sua frente, mais um embuste!

Voltou-lhe Carlos à memória de noite e dia! Nem as conversas do atual marido a conseguiam acalmar e ter confiança.

Pensou adiar o planeamento para constituir a sua família com filhos, mas o homem em quem ela tinha agora confiado, esforçava-se por lhe inspirar confiança e não viver apavorada.

Os dois em conjunto, embora não sendo fácil, mas conseguiram recuperar a confiança, afastando passado algum tempo, o ex-marido de Isabel, que também não foi fácil, mas conseguiram.

Agora, Isabel e o novo marido, tiveram os filhos que quiseram, constituíram uma família à maneira e gosto dos dois e são hoje uma família feliz.

Em África, Isabel já se tinha resignado à situação, recorrendo a todos os meios para a tentar corrigir. Mas lá no fundo já tinha aceitado para com ela própria aquela situação para o resto da sua vida.

Como há males que vêm por bem, o regresso forçado de Isabel a Portugal, veio-lhe repor a vida que sempre sonhou, mas não deixou de passar por tormentos impensáveis, mas finalmente para Isabel uma nova luz se abriu.

Isabel conseguiu a vida que desejava e merecia.

Todos os nomes utilizados na Aventura Africana são fictícios

                                                 FIM