sábado, 1 de maio de 2010

Crónicas do Dia Seguinte

Vale de Loires
A Europa iniciava uma fase que viria trazer mudanças profundas.
Ele, partira com a mochila às costas. Nessa data, mochilas só os militares, porque se um civil pensasse usar uma mochila, seria dado como maluco.
Quando o barco avistou terras de Aquitaine, José dançaricou de um lado para o outro. Haveria de aportar em La Rochelle.
Seus familiares, ali para os lados da Beira Alta, ter se iam despedido dela talvez para sempre. Dos muitos que iam ficando pelas planicies da Normandie, o que contava era o Dia Seguinte. José foi dos que se safou. A dureza das terras que tinha deixado na sua aldeia não lhe tinham deixado grandes saudades. Após cumprtida a sua missão, pensou rumar em direcção a Paris, mas optou por ficar por Pays de La Loire.
José - agora Josef - quando partiu da sua terra não sabia uma palavra de francês.Mas bem à maneira portuguesa, não tardou em se adaptar às palavras rudes do Agricultor Patrão francês. Le baeuf, no seu pensamento continuava a ser vaca, igual à que tinha deixado pelas terras beirãs.
As únicas palavras em estrangeiro que ele conhecia antes de ter partido, foi quando pelos seus 18 anos, numa arrojada aventura se deslocou a Vilar Formoso e correndo sérios riscos tentou entre pinheiros, atravessar a fronteira e percorrer algumas centenas de metros paralelo à Raia Seca - Linha de Fronteira - e penetrar em Fuentes de Oñoro para comprar uma caixa de pitilhos - cigarros.
Agora, no Payis de La Loire a tratar dos animais e de volta das alfaias agriculas bastante mais sofisticadas que as que tinha deixado na sua terra, falava dois idiomas. Um, quando obedecia ao velho lavrador e o outro quando falava directamente com os animais. Fazia-lhe lembrar a passagem por Fuentes de Oñoro quando teve que balbuciar palavras misturadas em duas linguas.
Continuava a descubrir um novo mundo. A sua terra não lhe saía da mente. Talvez um dia voltasse a vê-la.
Dias, meses e anos passavam. Já se ia entendendo com a linguagem desconhecida. Nas saídas oa marché, autorizado pelo patrão, já cumprimentava em bonjour e despedia-se da jovem empregada com um merci!..
Não conseguia resistir a olhar para trás, depois de percorrer alguns metros. Anne agradava-lhe.
Continuava a alimentar o seu ambicionado e legítimo desejo de ir buscar uma cara-metade à sua terra natal para formar familia. Mas as dificuldades eram enormes, quer impostas pelo seu patrão, quer pelas borocracias fronteiriças. Continuava a gozar dos ares neblinais e sol do meio dia de Loire passando por entre as torres dos Châteaus que ele admirava bastante, mesmo naqueles dias que estavam todo o dia cobertos pelo nevoeiro, fazia-lhe lembrar as encostas das serras da sua terra cobertas pela neblina matinal.
A garçonne du marché, não era muito bem tratada pelo patrão.Rapariga para os vinte e poucos, algo mais nova que ele, perdeu o complexo do estrangeiro deixado pela guerra e talvez sem familia na sua terra desconhecida que ninguém saberia onde seria e passou a responder ao seu bonjour!
Para Josef, casamento só com mulher pura e virgem e essa garantia, só as da sua terra.. Porque com saias de burel e quase até aos pés, todas iriam à igreja com ramo de laranjeira. Salvo alguma que guardava ovelhas nas encostas da Serra da Estrela e se enamorava de um pastor e a fecundação se antecipava ao casamento.
Anne du marché, já tinha tido mais namorados. Mas para Josef, entre enfrentar as dificuldades de ir buscar uma de saia de burel ou casar com Anne, optou por dar o laço com esta. (continua)

Châteaus de Loire

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