Há vinte e seis anos, recebeu uma chamada no fixo, ainda não havia a disponibilidade dos telemóveis e marcaram ele ir almoçar a casa dela e depois levava-lhe as batatas e o sfeijões para Lisboa, que muito jeito lhe dava a ela para poupar nas despesas da alimentação, para pagar as propinas da faculdade. Mas da casa dos pais dele à casa dos pais dela distavam 80 km, tinha que atravessar seis vezes a linha do comboio, era o zig-zag da estrada e da linha do comboio a entrecruzarem-se. Coincidência das coincidências, a cada passagem de nível que chegava, lá estava a mulherzinha com o pau da bandeira vermelha enrolada e tinha que estar ali cerca de um quarto de hora à espera que o ronceiro comboio passasse. Chegou uma hora atrasado ao almoço, já o pai dela tinha partido para o campo. Ele chegou, almoçou bom cabrito e bem cozinhado que o esperava, mas depois ela pediu-lhe para ir ajudar o pai que trazia um grupo de mulheres a apanhar amêndoa e feijões. Ele não teve coragem de negar, tinha que pagar o bom almoço com bom vinho e lá foi a tarde inteira apanhar amêndoas e feijões.
De regresso, ela encheulhe a mala do carro bem cheia de produtos para que lhos levasse para Lisboa para poupar dinheiro para os livros e outras despesas, que o dinheiro a ela não abundava lá por Lisboa.
Ele, já ao fim da tarde, meteu-se à estrada, centenas de km de curvas e contra curvas entrecruzando-se com rios. Mas quando chegou à zona da Barragem da Aguieira, por causa das obras perdeu-se nas estradas e seguiu pela velha estrada que acompanhava o Mondego sempre até à Torre do Mondego já próximo de Coimbra. Aí, cansado da viagem, calores fortes de Setembro, com a boca muito seca, não encontrava espaço à beira da estrada para parar o carro sempre que via um Café ou Restaurante. Encontrou numa curva que quase descrevia um círculo de trezentos graus com o piso que sacudia toda a suspensão do carro, mas já era tarde e não lhe quiseram abrir a porta, pois àquela hora, 11:00h da noite já não confiavam no viajante. De facto, ele olhou em redor e os montes altos que rodeavam esse espaço metiam respeito.
Decorridos vinte e seis anos, esse mesmo viajante ao estar presente num seminário/convenção foi encontrar um aprazível local com todas as comodidades para este tipo de modernos eventos precisamente construido no local onde há vinte e seis anos e no mesmo mês, o pequeno restaurante que lá estava não lhe quiseram abrir a porta com medo dele, para ele poder pedir que lhe vendessem uma garrafa de água para amaciar as securas que trazia com quatro horas de condução em estradas dessa época.
A estrada que descravia uma curva com quase trezentos graus, que tinha o pequeno restaurante que não lhe quiseram abrir a porta ainda lá está hoje, mas com bom piso e espaços para poder estacionar os carros com segurança (foto) e no local do antigo e pequeno restaurante está o moderno complexo turistico enquadrado numa bela paisagem altamente convidativa a regalar as vistas de tão belas e exuberantes paisagens. O futuro ali não tem dúvidas mas sim certezas.
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