quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã

Foto da região
 
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                                                             A FALENCIA DAFÁBRICA

 No exercício da minha profissão, dirigi-me à Fábrica a fim de uma análise para efeitos de um plano de proteção e segurança da fábrica e dos trabalhadores que ali trabalhavam.

Quando saí de gabinete do Dr. Gaio, Administrador da Fábrica, que ficava a uma distância de três quilómetros do edifício edifício da Empresa, ele tinha-me dito e descrito mais ou menos a situação, mas não me contou nem um bocadinho da situação em que a Fábrica se encontrava em termos laborais.

A Fábrica encontrava-se em autogestão.

Estávamos no período revolucionário pós 25 de abril, mas já lá iam 6 ou 7 anos.

Ao aproximar-me da fábrica, vi as paredes por fora, quase forradas a panos com dizeres revolucionários. Frases bem preparadas que deixavam qualquer trabalhador satisfeitíssimo com o futuro que o esperava…

Nos pilares que circundavam toda a fachada da porta principal da Fábrica, em letras maiúsculas que se liam a uma distância de mais de um quilómetro uma tinta vermelha bem carregada, estava escrito: Fora do Dr. Gaio, morte ao Dr. Gaio. (nome fictício)

O dr. Gaio não era mais do que um nomeado para tentar salvar a empresa. Primeiro, pensei que se deveria sair do carro, correr o risco de me aproximar, pois não saberia o que poderia esperar.

Decidido a sair do carro, parei, de pasta na mão, a minha colega estagiária que me acompanhava, olhava, mas não reforça dizer palavra, ficámos a olhar pálidos e serenos para a frente da Fábrica, até ver se haveria alguma reação por parte de quem está localizado perto da fábrica.

Continuávamos a não ver vivalma e pelo sim pelo não, decidimos avançar e aproximarmo-nos

Após transpormos mortos o portal da porta de entrada, vimos de imediato fatos-macacos azuis levantarem-se assustados e rapidamente a correr ziguezagueando, parece que à procura de alguma coisa que seria o lugar mais desejado para aí se prostrar em pé, de braços caídos ao longo do corpo, quase em pose de formatura individual, fazendo-me lembrar os tempos da minha passagem pela vida militar quando via o meu pelotão formado e todos bem eliminados e bem aprumados.

Enquanto estes de fato-macaco estavam encostados às máquinas, todas desligadas e paradas, com sinais de já não trabalharem há muito tempo, eles olhavam para mim como se estivessem entrando por ali fora o um representante do capitalismo. Pois eu levava gravata e já tinha sido avisado de que quando fosse um local destes, levar gravata seria um risco. Para estes, gravata era símbolo de fascismo, era o que lhes tinha metido na cabeça, com as teorias do Partido!

Mas era um adereço e peça de roupa que eu achava que parte do meu vestir pelo respeito do meu trabalho e apresentar-me decentemente bem vestido seria conforme a quem me dirigisse durante a minha atividade, pois tinha que discutir assuntos, tanto com administradores, como com operários. À tarde ou à noite quando terminava o meu trabalho, se retirava imediatamente a gravata e gostava era de andar com o pescoço bem arejado, vestir um fato de treino e ir fazer o meu circuito-de-manutenção.

Estávamos no período em que para algumas ideologias: gravata, fado e caldo verde, eram sinônimos de fascismo.

Mas eu não os temia. Tinha a certeza que ali dentro estavam alguns que teriam colaborado com o fascismo antes do 25 de Abril e pós 25 de Abril teriam aderido de imediato a marxismo e esses eram todos uns cagões e burros por natureza. Logo, seriam cobardes! Portanto, o que era preciso era saber lidar com eles. Porque alguém dizia que fascistas e comunistas eram todos iguais.

Entramos descontraidamente, sabíamos que deixamos a ser inspecionados por dezenas de olhos, de alto a baixo, começámos a circular por potentes, modernas e enormes máquinas de metalo-mecânica pesada que demonstravam estar paradas há semanas, mas os seus operadores encostados a elas, de olhos carrancudos a demonstrar que não sabiam bem o que estavam ali a fazer, demonstravam estar a obedecer e cumprir ordens de uma ideologia vinda emanadas do seu Kamarada que partia quase todos os dias para Setúbal assistir ao curso de sindicalismo que era ministrado por kamaradas acabados de chegar de Cuba e da URSS, mas que falavam um português / castelhano arranhado aprendido em Cuba durante os muitos anos que lá esteveram a tirar esse curso na Universidade do povo em Havana.

Comecei a falar com eles, nenhum deles demonstrava vontade de falar, seria uma traição aos princípios que ali estavam a defender, falar com alguém que acabava de chegar, que seria um capitalista. Comecei a insistir e lá houve um, homem dos seus 40 anos, provavelmente com saudades dos tempos de antes da revolução, levantando levemente os olhos que estavam fixados no chão (provavelmente séria que virou a marxista pós 25 de abril) acontecer-os para o meu peito e apontou com o dedo para umas escadas que davam para um piso de cima.

Quando subíamos como escadas, cada pé que movimentávamos para subir cada degrau, os olhos deles, todos aqueles que permaneciam quietos junto às máquinas, filmavam na retina e na memória, quem poderia ser eu? ...

Mal piso o chão do 1º piso, vejo lá ao fundo da sala, com indícios de em tempos ter estado mobilada onde trabalhariam várias pessoas administrativas, numa cadeira de administrador já toda coçada, um jovem debruçado sobre a mesa apoiado com os queixos sobre as mãos semiabertas sobre os cotovelos na mesa.

A mesa não tinha nada em cima. Estava toda gasta de ali estarem horas e dias seguidos, cotovelos em cima a segurarem os queixos.

De cada lado, estavam duas jovens senhoras, vestidas com batas de núcleos diferentes, mas em ambos os trajetórias de cada uma delas, era bem visível como insígnias do partido.

Mas enquanto este “administrador” a expressão do seu olhar para mim já era diferente dos homens que estavam cá em baixo que tinha sido os primeiros a receberem-me, este toque-nos com uma expressão de olhos olhos demonstrando curiosidade e fixados bem nos meus, as mulheres que o ladeavam, olhavam para nós com olhos de candura e acolhimento.

De imediato nos apresentámos, de olhos bem fixados nos deles, circulando por todos os rostos deles, enquanto dava passos em direção ao suposto Administrador, dizendo-lhe quem nós eramos e ao que íamos ali, qual era a nossa função.

Técnicos de Prevenção e Segurança para os trabalhadores e material da Fábrica, que o Dr. Gaio estava a tentar salvar a empresa e queria reportar as condições exigíveis e exigíveis por Lei para a Fabrica poder recomeçar a laborar.

Deparei com uma secretária de madeira toda coçada, sobretudo a parte onde ele se costumava debruçar, sem ter mais nada para fazer. Foi o que fez enquanto nós estivemos ali a falar com ele.

Falei quase 10 minutos sem ser interrompido. Fazia umas pequenas pausas para ver se o administrador pegava na palavra, mas nada, ele parece que só me queria ouvir. Provavelmente estava analisando quem seria eu. Se seria um enviado do capitalismo ou até um possível espião da CIA! ..

Lá lhe consegui arrancar as primeiras palavras, utilizando alguma psicologia para isso, e o homem lá se desembuchou e passou a falar normalmente.

Passada meia hora de conversa, parece que o homem começava a acreditar que nós não independentemente ali como enviados do capital nem seria nenhum espião da CIA

As belas mulheres, começavam também a demonstrar que também constam alguma coisa para dizer.

Mas ele administrador, deitava-lhes olhares de intimidação e admoestação, para que se mantivessem bem caladas. Elas não colocadas foram colocadas ali para falarem nem para pensarem - eram regras do Partido que tinha que ser cumpridas rigorosamente.

(Passados ​​uns anos, viciado-me à memória estas mulheres, viria eu a ver-me de novo em frente a duas mulheres, mais ou menos da idade dessas, mas fardadas, encostadas frente a um balcão comercial, com a Loja do Povo semivazia , sem dizer a palavra à espera que eu falasse, mas desta vez eu estava em Havana - Cuba).

O administrador da fabrica em pré-falência, já demonstrando bastante interesse por aquilo que eu lhe disse e explicando, o interesse já era tanto que começava a perder o controlo sobre as mulheres que o ladeavam com a curiosidade que elas sentiam por aquilo que eu estão dizendo.

O que nós lhes íamos explicando é que, para começarem a laborar, precisariam de ter ativado, o sistema de segurança no trabalho conforme a lei, quer para as máquinas, quer para o pessoal que ali trabalhava.

As mulheres ao ouvirem que estavam preste a ter uma condição que até ali desconheciam que seria um direito dos trabalhadores, parece que estava a esquecer as regras do Partido. Por isso estava tão preparado em fazer-nos perguntas.

O administrador, deixou de como representante e elas passaram a colocar-nos como perguntas lógicas. Perguntas que até ali o administrador não tinha sabido colocar.

Estes três elementos foram incluídos ali pelo partido. Ele, um jovem de vinte e poucos anos das escolas do partido. Elas demonstravam ter também a escola do partido, mas já com experiencia laboral de outras áreas, mulheres para trinta e poucos anos. Por isso, já tinha tido experiência laboral de antes do 25 de Abril, sabiam colocar as questões com mais lógica e sentido.

A conversa estendeu-se e as duas mulheres já chegavam ao ponto de nos sondarem se aquele momento inventassem uma situação de acidente, nós já lhes podíamos garantir que beneficiário desse sistema de segurança, para elas poderem ficar a receber a partir desse momento, é que toda aquela gente lista metalo-mecânica já havia muito tempo que não recebiam, desde havia muito tempo que estava em autogestão / parados -sem encomendas para a fábrica trabalhar.

O jovem administrador estava a ficar tão boquiaberto, que não só já deixava falar completamente à vontade como suas duas secretárias, como concordava plenamente com as propostas de tentativa fraudulenta que as suas assessoras nos estavam a propor.

Quando lhes explicámos que só poderia passar a beneficiário dessa condição, depois de toda a documentação ser devidamente acordada entre as partes, assinada legalmente e estar em vigor, o jovem administrador ainda começou a dizer-me se eu não poderia dar um jeitinho, para que se as suas secretárias se aleijassem naquele momento, que ficassem no dia seguinte já a receber!

Voltei-lhes a explicar que primeiro, exceto que chegar a um acordo com o ainda proprietário da Fábrica e depois seria posto em vigor o Plano que eles tinham acabado de apresentar. E, a partir daí, passariam então a beneficiário dele.

Não era difícil adivinhar na expressão daquelas três criaturas, quão seria bom se passassem a ter a situação que elas eram acabado de apresentar.

E eles, não tinha dúvidas de que para isso, bastaria que o proprietário da Fábrica voltasse a sentar-se na cadeira que ele jovem administrador nomeado pelo partido, estava a ocupar.

Elas, jovens senhoras, olhavam para nós, com olhares de saudades de terem, provavelmente a vida laboral que teve alguns anos atrás. Provavelmente foi isso que nós fomos ali fazer relembrar.

Ao despedirmo-nos deles, apertaram-nos a mão demoradamente, como que fossemos pessoas envolvidas e de confiança de há muito tempo. Até vénias nos fizeram, símbolos que o Partido também considerava sinonimo do fascismo.

Ao descer como escadas, ainda olhavam para nós com alguma esperança.

Os homens que se tinham perfilado junto às máquinas quando nós entrámos na Fábrica, já não estavam lá. Provavelmente já disse feito sinal de que nós não eramos representantes do capitalismo e / ou da CIA.

O Dr. Gaio, nunca mais conseguiu chegar a um acordo com e a Fábrica faliu e fechou e toda aquela gente foi para o desemprego. Tive conhecimento depois que no 25 de Abril trabalhavam naquela fábrica 300 pessoas com ordenados acima da média nacional e 80% da produção para exportação.

 

 


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