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| Praias de Luanda 1973 |
»» Continuação da cronica de 22-06-2022
Claro que já não era a mesma pessoa. Em pouco tempo, tinha ficado uma mulher madura. África torna as pessoas mais depressa maduras. Pensa-se mais. Tem-se mais tempo para pensar.
Neste caso de Isabel, para ela,
era mesmo de pensar, mas não queria desanimar. Nunca deixou de acreditar no
futuro.
Ninguém nem nada lhe poderia
roubar o futuro que ela preparou e que achava que tinha o direito de viver.
Preparou-se logo de muito jovem
com o apoio familiar e seguidamente ela própria deu continuidade a esse
alicerce de um bom futuro. Por isso acreditava nele. Nesse tempo, os jovens
acreditavam mais neles próprios e não estavam tanto à espera das ajudas
externas.
Um bom curso já tinha conseguido.
Uma boa colocação também a tinha conseguido mal acabou o curso.
Seguidamente, aspirava a um bom
marido através de um bom namoro, para construir uma boa e saudável família
completa, assim como dizia a sua cultura educação e formação.
Os conhecimentos para África,
tinham-lhe dado uns sonhos que ela tinha alimentado para completar a sua
felicidade.
Agora em África, alguns sonhos
tinham-se realizado, mas outros tinham sido postos em causa.
Mas Isabel, continuava a
acreditar que seria possível completar os seus sonhos de vida.
Isabel, continuava a acreditar
fortemente no amor com um homem e era com Carlos que ela continuava a acreditar
que poderia realizar o futuro que ambicionava.
Era uma mulher sensual, não dispensava
os prazeres carnais, gostava do marido que tinha, mas o mistério que continuava
entre os dois continuava a deixá-la pensativa.
Tentava moldá-lo a uma vida
amorosa e digna à maneira dos dois e dos seus desejos. Queria ter filhos, mas
feitos com amor mútuo. Confidenciou a alguém que desejava ter 5 filhos, queria
uma casa cheia.
O dormirem todos nus na cama, só protegidos
pela rede contra mosquitos, alimentava Isabel, sempre que cada ato sexual com
amor, poderia ser o princípio do seu primeiro filho.
Desde o primeiro contacto amoroso
sexual com Carlos, que Isabel se tinha habituado à condição própria. No amor
carnal, era inexperiente e virgem.
Carlos era um homem que quando
casou, depois de ter batido os trinta anos, já tinha tido relações com várias
mulheres e mantido sempre uma mulher permanentemente disponível.
Era condição para um homem que
vivia pelo sertão africano, não querendo correr os riscos de contágios de
doenças venérea para quando viesse a casar, ter uma mulher nativa permanente e
exclusiva só para ele, com a condição de ter de a sustentar à maneira dela.
Não viviam em comunhão de mesa e
habitação, mas ela teria de estar em casa dela sempre disponível para ele, nem
se mostrava à janela.
Carlos, mesmo com todos esses
cuidados, não conseguiu evitar de apanhar essa doença venérea que se tornou em
crónica.
Quando casou já a tinha e dito
pelo médico que seria crónica, definitiva e possivelmente transmissível a
descendentes.
Para não contagiar outra mulher
com quem Carlos viesse a manter relações sexuais, estava bem aconselhado pelos
médicos como proceder.
Essa forma, impedia-o de
pretender ter filhos. Ele tinha optado por não querer ter descendentes por esse
motivo.
Nos primeiros tempos de casados,
Carlos não conseguiu ter coragem de esclarecer Isabel desta situação. Mas
passado bastante tempo e depois de já não conseguir resistir à insistência de
Isabel, acabou por confessar e esclarecer Isabel no que não conseguia esconder.
Agora, Isabel já sabia com que
linhas se cosiam. Mas para ela, a medicina estava a evoluir e poderia que
viesse a resolver esta situação.
Para Carlos, já tinha perdido as
esperanças de cura. Já tinha falado e gasto muito dinheiro com vários médicos.
Isabel vivia agora um mundo de
esperança e desilusão. A vida tinha-lhe trocado as voltas e pregado esta grande
partida.
Passava o tempo a tentar
convencer o marido, que ainda poderiam vir a ter filhos e uma família completa.
Era um dos seus desejos para se sentir realizada e uma mulher completa.
O resto tinha quase tudo.
Dinheiro, ocupação, boas casas.
Tinha-se adaptado já a África.
Quando ia para os Safaris junto
das fazendas do marido, sentia imensa tristeza não levar já filhos consigo, já
estava casada há vários anos e queria mandar fotografias tiradas nos Safaris
junto da caça grossa morta na caçada, para os familiares em Portugal.
Mas o segredo ainda não estava
completamente desvendado.
A razão por que Carlos não
demonstrava vontade de ter filhos, era doença venérea crónica que tinha
adquirido por mulher africana também crónica.
Nesse momento, Carlos ainda
mantinha a relação íntima o mais secretamente possível com essa mulher
africana. Não estava fácil desligar-se dessa mulher, era familiar de um
importante e influente político africano, este também casado com mulher branca
e europeia.
Se Carlos viesse a abandonar essa
mulher, que estava a manter exclusivamente como segunda mulher, se a
abandonasse, correria o risco de ter ele de abandonar África por razões de
segurança.
Para além de Isabel estar a ficar
completamente baralhada e confusa, também não estava a dar informação da
situação à família em Portugal. Continuava à procura de uma saída para tal
situação muito difícil.
Carlos já não a ouvia muito bem,
porque Carlos já se tinha conformado com a situação. Mesmo quando casou com
Isabel, já previa esta situação.
Mas Isabel de forma alguma queria
aceitar esta situação, mas não entrou em desespero. Haveria de haver uma saída.
Novamente recorre à sua
confidente e conselheira Nizé Ginga. Falou mesmo a Nizé, se através de feitiço,
não seria possível retirar Carlos de tal situação. Quer a cura da doença
crónica, quer o afastamento da mulher nativa que mantinha secretamente.
Nizé sorriu! ela própria não
acreditava em feitiços. Mas também não punha de parte, que futuro poderia
trazer uma saída para tal situação.
Sentia pena de Isabel. Isabel não
merecia tal situação. Não queria acreditar que Carlos não lhe tivesse contado a
Isabel a situação quando do casamento!
Agora estava complicadíssimo.
Sobretudo pela pessoa com quem Carlos estava envolvido. Sabia o peso que esses
políticos tinham em África. Tudo seriam capazes de fazer e tudo fariam.
A independência de Angola e a
forma precipitada como aconteceu, surpreende tudo e todos.
De regresso a Portugal, Isabel vê
uma luz ao fundo do túnel.
A família Rolos regressou a
Portugal
Já em Portugal, Isabel, continua
a ficar baralhada. Não sabia bem se esta situação estava mesmo a acontecer ou
se seria ficção.
Mais um momento dificílimo para o
clã Rolos. Todos regressaram a Portugal e com pouco mais do que tinham lavado
para África havia 30 anos.
Não foram dos que passaram os
primeiros tempos em frente à Assembleia da República a gritar e a reivindicar.
Mas circularam pelas ruas de Lisboa no mês de novembro, só de camisa branquinha
de meia manga, à procura de oportunidades para se fixarem e recomeçar a vida.
Finalmente, conseguiram no centro
do país recomeçar a sua vida.
Isabel, desde que regressou a
Portugal, ficou uns tempos pensativa, mas não voltou a ficar presa cem por
cento ao clã Rolos, vislumbrava-se-lhe que poderia ter uma nova oportunidade de
vida. Aquela, não tinha nada a ver com a pessoa dela
Aproximou-se da sua família que
tinha deixado em Portugal e ex-amigos e procurou hipóteses de se fixar e
conseguiu. Continuando como docente.
Veio o início do verão. Havia que
matar saudades das praias que tinham deixado em Angola. Procuraram a praia da
Costa da Caparica, fazia lembrar algumas praias extensas que tinham deixado em
Angola. A água é que era diferente, mas era suportável.
Isabel já tinha frequentado as
águas da Caparica. Para além disso, o voltar a estas águas desta praia,
trouxe-lhe umas saudades imensas. Quando para lá ia com o seu grupo de amigos
divertidos, em que imaginava a sua vida de futuro completamente diferente
daquilo que lhe aconteceu. Por isso, estar de novo a pisar esta areia, parece
que lhe dizia que uma nova página do livro da sua vida, se estava a abrir!
Carlos é que nunca tinha pisado
uma praia em Portugal, não se dava muito bem com os ambientes das praias em
Portugal. Porque mesmo em África, Carlos tinha feito muito pouca vida de praia.
Não se sentia à vontade em lado nenhum. Mas Isabel fazia-se acompanhar sempre
que ia para a praia agora, por um familiar e era com esta que Isabel
conversava.
Quando estavam nas filas dos autocarros
na Costa da Caparica à espera da sua vez para regressarem a casa, Carlos
desesperava com facilidade, e começava a pronunciar palavras e frases
inconvenientes, a pontos de Isabel se ver obrigada a disfarçar não ser seu
familiar.
Até por que o Carlos não tinha conversas muito
interessantes, e agora Isabel já não precisava de se sujeitar só às conversas
de Carlos, já tinha com quem conversar a nível dela.
Inevitavelmente, as relações
entre Carlos e Isabel foram-se deteriorando.
Isabel, a uma nova forma de
relacionamento com o marido dá início. Passou a viver em casa de familiares
dela. Ou ele mudava, ou ela também passaria a não se ralar mais.
Se o marido quisesse ir ter com
ela, aceitava-o. Se o marido não aparecesse, ela também não ia ter com ele.
Por sua vez, o marido tinha
consciência da partida que tinha pregado a Isabel. Por isso, também não se
sentia muito à vontade para ir todos os dias ter com Isabel.
As relações foram esfriando. O
interesse de um pelo outro foi diminuindo. E o afastamento progressivo foi
inevitável. A separação aconteceu. E seguidamente veio o divórcio.
Isabel, ainda era uma mulher
nova, era bela, elegante e atraente. Era mulher só e os pretendentes começaram
a aparecer. Mas Isabel continuava muito pensativa. Queria deixar passar mais
algum tempo. Mas ainda não tinha cumprido um dos sonhos da sua vida. Que era
constituir uma família completa. Ou seja: com marido e filhos.
Pensou também que, caso
continuasse a querer realizar esse sonho, não poderia perder muito mais tempo,
por que os anos passavam e os quarenta aproximavam-se.
Embora hesitante, aceitou nova experiência
com um pretendente. Muito cautelosamente, foi progredindo e medindo bem os
passos que ia dando. Esse homem começou-lhe a inspirar confiança, começou a
gostar dele. Apercebeu-se que esse homem também gostava dela. Deram o tempo
necessário para o efeito e deram o nó.
Haveria de começar aqui o segundo
martírio de Isabel.
Não com este novo marido, mas as
perseguições que Carlos lhe fazia.
Carlos nem de perto nem de longe,
queria aceitar a separação de Isabel, mas enquanto não a viu próxima de outro
homem, ele manteve-se sereno e afastado, talvez pensasse que Isabel ainda
poderia voltar para ele. Mas a partir do momento em que a viu ligada a outro
homem, veio-lhe o ciúme doentio.
Carlos era um homem que não tinha
desenvolvido o seu raciocínio. Tinha partido de criança para África, para o
interior de Angola, o seu raciocínio social não tinha sido desenvolvido. Assim,
tinha grande dificuldade em compreender as mudanças sociais que ocorreram na
sua vida.
Após Isabel ter casado novamente,
Carlos procurou cruzar-se com Isabel e conseguiu.
Ao passar por ela, disse-lhe que
se um dia ela viesse a ter filhos, que evitasse de passar por ele! Com sentido
de ameaça!
Isabel ficou assustada, pois uma
das razões porque ela casou novamente, era para ter filhos.
Mas agora ela via à sua frente,
mais um embuste!
Voltou-lhe Carlos à memória de
noite e dia! Nem as conversas do atual marido a conseguiam acalmar e ter
confiança.
Pensou adiar o planeamento para
constituir a sua família com filhos, mas o homem em quem ela tinha agora confiado,
esforçava-se por lhe inspirar confiança e não viver apavorada.
Os dois em conjunto, embora não
sendo fácil, mas conseguiram recuperar a confiança, afastando passado algum
tempo, o ex-marido de Isabel, que também não foi fácil, mas conseguiram.
Agora, Isabel e o novo marido,
tiveram os filhos que quiseram, constituíram uma família à maneira e gosto dos
dois e são hoje uma família feliz.
Em África, Isabel já se tinha
resignado à situação, recorrendo a todos os meios para a tentar corrigir. Mas
lá no fundo já tinha aceitado para com ela própria aquela situação para o resto
da sua vida.
Como há males que vêm por bem, o
regresso forçado de Isabel a Portugal, veio-lhe repor a vida que sempre sonhou,
mas não deixou de passar por tormentos impensáveis, mas finalmente para Isabel uma
nova luz se abriu.
Isabel conseguiu a vida que
desejava e merecia.
Todos os nomes utilizados na
Aventura Africana são fictícios
FIM


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