Alexandre, já vai no quadragésimo quinto jantar de Natal com colegas de trabalho. Ao sentar-se, olhou em redor percorrendo toda a mesa e já não vê ninguém dos primeiros anos. Uns, porque pediram a reforma antecipadamente, outros, porque se cansaram antes do tempo mas nenhum deixou que a reforma chegasse dentro do tempo devido.
Tudo mudou muito, mas o que Alexandre nota muito diferente nestes jantares, são as conversas entre as pessoas (colegas).
Nos primeiros jantares que esteve presente, ainda muito jovem, para Alexandre era uma das melhores oportunidades para ver os seus colegas expressarem-se genuinamente. Era nestes jantares que os colegas falavam aquilo que sentiam. Mesmo com a Administração nas mesas, era quando muitos aproveitavam para dizer aquilo que nos locais de trabalho não queriam dizer. Pois aqui a Administração ouvia tudo com sorriso e até era uma boa oportunidade para se terem conversas laborais interessantes e frutíferas.
Na parte da reinação, também era nestes jantares que as pessoas mais tímidas desabrochavam, diziam coisas interessantes que em outros momentos poderiam não cair bem ou até serem mal interpretadas.
Com o passar dos anos e também porque Alexandre nestes anos todos mudou duas vezes de empresa, mas na ultima já vai no trigésimo terceiro jantar e passados alguns alguns jantares desses, Alexandre passou a ser dos mais conversadores e dos mais ouvidos porque para alem de ser um bom orador é também um bom contador de anedotas, coisa importante para este tipo de jantares, Palavras picantes, provocadoras, inteligentes, valiosas cheias de conteúdo, tudo isso torna estes jantares inesquecíveis.
Agora, quando Alexandre se senta à mesa destes jantares e olha em redor, vê muitas caras jovens e lindas que parece uma mesa de um paraíso, mas todos se sentam muito direitinhos e preocupados se estarão a fazer alguma coisa mal, com a cara metida entre a palma das mãos apoiadas nos cotovelos em cima da mesa, a contrastar com o à vontade sorridente falando e cumprimentando-se à distancia nos jantares de outros tempos.
Após a refeição começar, ninguém se diverte comendo e falando de uns para os outros, estão todos rodeados de telemóveis de ecrãs gigantes e escuros que não param os pips-pips dos SMSs a chegar, para depois eles estarem com uma mão no garfo a meter a comida para a boca e a outra movimentando o ecrã do telm. para ver o que o namorado/namorada (entenda-se amante, porque namoro ali não há nenhum, é só imposição e exigências).
Nestes jantares, a parte mais divertida era já no fim, quando se começava a contar as anedotas picantes que até as colegas mais púdicas certinhas se fartavam de rir como em lado nenhum tinham a oportunidade de fazer aquela higiene mental.
Agora, ainda nem o jantar acabou, já estão todos a olhar para qual dos telemóveis para ver a qual deles chega o SMS mais exigente, e assim partem a correr para o automóvel, para chegar lá e ficar um bom bocado a pensar como é que vai enfrentar aquele drama ao chegar a casa, lá terá de ouvir que se assim continua, termina ali a relação.

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