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| Ponte Sta. Clara Coimbra |
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| Convento do Carmo - Lisboa |
Do Livro: Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - 5ª
Quando eu terminei o meu serviço
militar, inícios da década de setenta, depois de uma ida ao Ultramar português,
nos últimos meses e prestes a passar à disponibilidade, era só ouvir dizer: os
soldados naturais do interior do país perguntavam-se uns aos outros para que
país iriam emigrar assim que chegassem à sua terra.
Os do litoral centro e
norte, parte do país que já se estava a industrializar aceleradamente, esses
todos diziam que já tinham emprego na fábrica à espera, mas de todo o país quem tinha estudos, tinha mais que garantido um bom lugar, tanto na função
publica como na privada.
Por toda a fronteira de
Portugal com Espanha, cada Café tinha o seu ou a sua agente secreto/a para angariação
de emigração clandestina. Comigo aconteceu, acabei de me sentar numa esplanada
do café acompanhado de alguém bem conhecido na zona, acabámos de nos sentar e
de imediato uma jovem e linda mulher, veio-nos atender, cumprimentou quem me
acompanhava de uma forma especial, terminaram a conversa dizer algo que eu não
percebi e quem me acompanhava disse-lhe: este não precisa, ela disse: tem
estudos é! Depreendeu-se que quem não tivesse estudos a solução por essas
bandas era emigrar.
Também quis conhecer mundo,
mas foi de forma diferente.
Entrava eu num café
conhecido para beber um café para iniciar viagem até Lisboa, alguém que me
conhecia dirigiu-se a mim, cumprimentou-me e pediu-me se dava boleia a um seu
amigo que também seguia para lisboa. Disse-lhe que sim, até me dava jeito para
não ter de ir durante horas só a ouvir música e noticiários.
Iniciámos viagem, veio a
conversa, ele era professor e ia dar aulas para longe. Já em lisboa, eu só
tinha de entregar o carro na Rente-a-Car, apanhar um táxi e seguir para o
aeroporto, cada um apanhámos aviões diferentes e segui para milhares de quilómetros
de distância. Aventurei-me para terras mais distantes, por onde trabalhei,
estudei e ensinei, durante dois ou três anos.
Com uma vinda a Portugal
fins de 1973, vi o país bastante mudado e a evoluir para a mudança democrática,
fez-me acreditar na mudança para a via democrática, embora a ditadura já fosse
uma ditadura branda do que quando eu saí do país, que ainda era no tempo do
Salazar. Mas agora com Marcelo Caetano, já havia liberdade para trabalhar, para
dizermos numa repartição publica o que estava mal, caso estivéssemos a ser mal
atendidos, só os que estavam à espera da
oportunidade para assaltarem o país (percebemos isso hoje) é que ainda não tinham toda a liberdade
que eles queriam e precisavam par fazer o que acabaram por fazer depois ao logo do tempo.
As pessoas tinham dinheiro
e as condições de vida melhoravam de dia para dia. Disse para alguém para que desse um fato meu já usado a um
pobre, responderam-me: agora por aqui já não há pobres.
Já fixado em Lisboa, no
metropolitano cruzei-me com uma amiga que nos tínhamos conhecido em África
quando eu militar, estudámos na mesma escola, ela era filha de um militar de
alta patente, cumprimentámo-nos e ela que já em África costumava provocar-me
com a politica, meteu a mão na carteira, sacou o livro Portugal e o Futuro do
general Spínola e disse: eu não te dizia! Toma, lê-o mas mete-o já debaixo do
braço, pode andar por aí a DGS/ex-pide, e ainda te levam preso.
Passadas mais umas
estações, entrou um sujeito, encostou-se à porta e começa a ler esse livro escancaradamente.
Para me fixar em Lisboa,
precisei de tratar de quase toda a minha documentação pessoal, percorrendo muitas
das repartições publicas.
Estava eu numa fila de
algumas pessoas, um sujeito da fila ao lado que não me conhecia de lado nenhum
olhou para mim e disse: levas 100 escudos para deixar no guichê! (100 escudos valiam 4 almoços num restaurante medio)
Eu que durante alguns anos
antes tinha andado por muitos lados, tratar de documentos, check-ins e outros e
nunca tinha precisado de dar 100 escudos nenhuns nem outro dinheiro qualquer,
respondi-lhe: não dou 100 escudos nenhuns, se não me atenderem devidamente
terão de me explicar porquê!
Ao chegar ao guichê, a funcionária
mulher de meia-idade e bem-apresentada, que tinha ouvido a conversa, disse-me:
aqui não são precisos 100 escudos para as pessoas serem bem atendidas, diga a
esse senhor que não seja maldoso. Disse-lhe: nunca o tinha visto e provavelmente
não o verei mais. Fui atendido cinco estrelas e ainda me desejou boa sorte na
vida. O sujeito que disse isso na fila, provavelmente pertencia à pequena corrupção
que sempre existiu.
Nas empresas privadas, quase
todas já estavam a implementar a mudança, sabiam que o futuro era de mudança,
poucas eram as que ainda pensavam que a mudança não se efetuaria a breve prazo.
Nas empresas privadas procuravam-se e premiavam-se os melhores técnicos e
especialistas e quem demonstrava vontade de trabalhar e evoluir, eram-lhes
oferecidos vencimentos que até eles próprios ficavam surpreendidos. Veio-me à memória o que um amigo me tinha dito quando eu estava fora de Portugal, ele disse: Agora em Portugal já se vive e ganha dinheiro como no estrangeiro, quase todos já têm carro à porta.
Na função publica,
mantinham concursos quase permanentemente abertos, mas os vencimentos
continuavam baixos, por isso, os melhores técnicos e especialistas seguiam para
o privado.
Pelas ruas principais das cidades
principais do país, iam aparecendo algumas manifestações políticas, numa praça
quando uma jovem cidadã apanhava um panfleto do chão contra a guerra do
ultramar que tinha sido espalhado por um pequeno grupo de manifestantes
orientados por alguém que viria a ser pessoa muito falada no país por longos
tempos a seguir e até hoje, o policia por perto
deu-lhe com o cactete na mão à jovem que tentava apanhar o panfleto, fiquei admiradíssimo,
tinha visto fora de Portugal pessoas a apanhar panfletos políticos e ninguém
lhes bateu na mão.
Na manhã de 25 de Abril, levantei-me às 7:00h como de
habitual para ir trabalhar.
O
despertador rádio acordou-me a dizer que tinha havido um Golpe de Estado em Portugal,
liguei a TV para confirmar, estavam a dar a Grândola Vila Morena na tv e uma voz
dizia para ninguém sair de casa, seguindo-se outras informações sobre o
acontecimento.
Telefonei
para as pessoas mais próximas, ainda todos dormiam e ninguém sabia.
O espírito
militar veio à minha mente, vou à empresa onde trabalhava e ainda ninguém tinha
chegado, só abria às 9:00h.
Ao
chegarem, uns já sabiam outros ainda não, decidiu-se não abrir a empresa.
No
radio do meu automóvel acompanhava o evoluir da situação. Não me contive sem
acompanhar mais de perto a situação, não me saía da mente os pensamentos de quando
nas operações militares no ultramar tínhamos que avançar sem hesitar.
Às
bancas dos jornais, chegavam pilhas e molhos de jornais como nunca se tinha visto,
passado uma hora ou duas já estava a sair outra edição.
Na
rádio e tv anunciavam e mostravam o Convento do Carmo / Quartel do Carmo onde se
tinha refugiado Marcelo Caetano, cercado por blindados e chaimites, estes últimos
me eram próximos de havia pouco tempo nas colunas do ultramar e nas emboscadas,
era atrás das rodas de ferro das chaimites que nós nos protegíamos dos primeiros
tiros do inimigo. Eram viaturas blindadas com 8 rodas, 4 de ferro e 4 de pneu onde era para andar mais davam até 60/Km/h baixavam as de pneu, em picada subiam as de pneu e
baixavam as de ferro todo-o-terreno.
Aqui,
estavam à espera que Marcelo Caetano se rendesse para o meter dentro da chaimite.
Todas
as ruas de acesso ao largo do Carmo estavam fechadas com carros blindados de lagartas,
o Largo do Carmo frente ao quartel estava apinhado de gente, até as árvores estavam
cheias até não suportar mais, aos gritos histericamente e todos gritavam:
Marcelo
assassino, Marcelo assassino, provavelmente alguns deles tinham também estado
semanas antes na Praça do Comercio totalmente apinhada de gente a dar vivas e a
bater palmas ao mesmo que ali lhe chamavam assassino.
O capitão
Salgueiro Maia estava em cima do chaimite em pé com um megafone e uma G3 em punho
virada com o cano para cima e com um carregador de 20 balas pronto a disparar, material
que também me acompanhou durante dois anos no ultramar e eu manuseava muito bem
e rapidamente enquanto o diabo esfrega um olho. Mas Marcelo demorava a render-se,
esperava pelo General Spínola para não deixar o poder na rua.
O
general Spínola chegou, mas a rendição demorava.
Porta do Convento do Carmo por onde saiu Marcelo Caetano dentro do chaimite, depois de entregar o poder ao General Spínola.
Espaço assinalado canto superior direito onde a rajada de G3 arrancou pedaços de pedra
Salgueiro Maia, dispara uma rajada de G3, seguramente meio carregador, para a frente do Convento do Carmo lado direito Sul, saltando vários pedaços de pedra arrancada pelas balas para cima das pessoas, ainda lá estão as marcas.
Toda aquela gente parou de gritar e muitos iniciaram debandada por
todas as ruas que davam saído do Largo do Carmo, alguns iam contra os blindados
carros de combate de lagartas que estavam a trancar as ruas, os que estavam em
cima das árvores, atiraram-se instantaneamente para baixo e era velos debandar
seguindo os outros, alguns contra os outros e até por cima dos que iam caindo, por
onde fosse possível.
Passado
algum tempo, um militar da GNR, começa a abri a porta principal do quartel e o chaimite
começa a aparecer lá de dentro, já vinha lá dentro Marcelo Caetano.
Ao
descer a rua até ao Rossio, vindos de todos os lados, os gritos ensurdecedores de:
Marcelo assassino repetiam-se, um militar da marinha dizia: até que enfim, há um
golpe de Estado em Portugal!
Atravessei
a Praça do Rossio caminhando e observando a situação, frente ao Teatro D. Maria
passava uma dupla de dois homens que se destacavam dos outros transeuntes, iam
de fato escuro, gravata e chapéu escuro.
Diziam
as pessoas que eram homens da PIDE/DGS, ainda não se tinha confirmado o golpe
vencedor.
Passado
um bocado, a toda a velocidade, grupos de jovens desciam a Rua do Carmo vindo
fugidos a rajadas de tiros de FBPs sentia-se o barulho das rajadas (pequena arma
metralhadora usada por forças especiais) disseram que esses jovens foram
insultar a sede da PIDE/DGS à rua António Cardoso e os elementos da DGS que lá
estavam dispararam rajadas para os afugentar, mas alguns apanharam tiros, um
conhecido meu que estudávamos à noite juntos, apanhou um tiro numa perna e foi
parar ao Hospital.
No
centro da Praça do Rossio formavam-se grupos de pessoas a dar as suas opiniões
sobre como devia ser feita a Revolução, que alguns já a consideravam que iria acontecer
mesmo.
Enquanto
um homem dos seus 40 anos dizia que a empresa dele a iria mecanizar o mais depressa
possível, porque dentro em breve o país ficaria paralisado com as greves selvagens,
outro mais ou menos da mesma idade e do outro lado do grupo, dizia que só queria
que lhe dessem uma arma metralhadora a ele, que era para poder começar a matar
gente na rua.
Esse
já estava a ver uma revolução à Robespierre francês quando da revolução francesa.
Com
a Revolução dos Cravos, que não foram só cravos, também houve mortos de
assassinatos, os acontecimentos em Portugal sucediam-se em catadupa, os empresários
que até ali, alguns deles, vestiam ao fim de semana a farda da mocidade portuguesa,
passaram a usar no corta-unhas e na chave do carro de forma bem visível a foice
e o martelo símbolos do comunismo.
Quando
já muitos pensavam que seria implantado o regime soviético em Portugal, dizia
um que mais tarde viria a ser julgado por corrupção no regime deposto e continuou
no novo regime, se for preciso eu entrego tudo ao Estado.
As
manifestações arrasavam e enchiam ruas e praças de todo o país, a maioria deles
seriam os que no regime deposto pouco antes enchiam as mesmas praças a ovacionar
Marcelo Caetano, muitos desses participantes, no 26 de Abril não perderam tempo
a dar a cambalhota camaleónica.
Nas
escolas, desde a primária à superior, a desorganização tomava conta da situação.
Em
algumas escolas davam-se diplomas a quem quase nunca tinha posto os pés na
escola, em universidades das melhores do país, alguns alunos diziam aos
professores: ou me passas ou ponho-te uma bomba debaixo da secretária.
No
Banco, funcionarias da limpeza, algumas nem a 4ª classe tinham, passavam a
funcionárias do Banco, punham-nas a ouvir umas conversas ideológicas e
diziam-lhes que estavam a tirar cursos de direitos, cheguei a falar com algumas
e estavam completamente baralhadas, eram os dos partidos extremistas que
andavam a promover essas mudanças, interessava-lhes a confusão incontrolável na
sociedade.
Dizia-me
um desses instigadores, depois de eu lhe dizer se não tinha medo de ser preso
ele disse: se me prenderem, nem durmo na prisão, a família vai lá buscar-me. Eram
indivíduos com muito poder já no novo regime, mas que tinham transitado do
regime anterior.
No
Instituto particular onde eu era estudante noturno, diziam-nos para assistirmos,
pelo menos a um comício de cada partido para depois fazermos trabalhos em grupo
para apresentarmos.
Num
comício no Campo Pequeno, apinhado de seguidores, lá da Tribuna, gritava o número
um pai do socialismo, que alguns também gostam de lhe chamar pai da democracia,
ele pulava e gritava dizendo: o partido
socialista é um partido marxista.
O país entrava numa tempestade social e política,
em Coimbra regressava eu a Lisboa de uma viagem, ao entrar em Coimbra pela estrada
das Beiras aglomerava-se uma grande multidão, a fila de transito parado engrossava,
a placa da estrada que dizia Lisboa, apagaram e escreveram: - Moscovo, as gentes
do centro e norte do país consideravam que Lisboa já estava dominada por comunistas,
as pessoas movimentavam-se e gritavam: fora os comunistas.
Era
domingo à tarde, comecei a ver carros inverter a marcha e dar a volta por uma estreita
estrada, mas continuavam a bom ritmo, disse para quem me acompanhava: estes condutores
devem conhecer alguma estrada escapatória, vamos segui-los, fiz o mesmo,
inverti a marcha e segui esses carros, quando me apercebi estava nas areias do Mondego,
era época de Natal, mas esse ano tinha chovido pouco.
Nessa
altura ainda não havia os Diques para suster a água e o rio só corria um fio de
água ao meio, tinham-lhe colocado umas traves de madeira em cima desse fio de
água e os carros passavam por cima.
Eu pensei: se os outros passam, também eu heide
passar, segui e passei. Era mais ou menos onde está agora a moderna Ponte Rainha
Santa Isabel.
A autoestrada A1 Lisboa Porto, ainda não estava completa, todo esse transito era obrigado a passar pela Ponte Santa Clara em Coimbra, que nessa travessia nós evitámos.
Formavam-se
filas enormes de quilómetros e horas, os carros no para arranca, alguns
chegavam a queimar as juntas da cabeça do motor com o aquecimento.
Fim
da 5ª publicação - Continua na próxima 6ª publicação.
AmerMart


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