
Década de 80. Ao chegar à paragem da camioneta, estariam duas dezenas de pessoas à espera de apanhar o Auto-Pulman para fazer umas boas centenas de quilómetros.
Noémia, escolheu um lugar junto à janela. As muitas vezes que já tinha feito essa viajem lhe tinham dito que um lugar junto à janela e ao meio do auto-carro, era o melhor e mais seguro para viagens longas. Mas também já estava no último ano do curso. Nos quatro anos que já tinham passado, muitas vezes tinha feito esse percurso.
Percorridos 30 quilómetros, nova paragem, nova entrada de passageiros, mas não deu para lotar completamente a camioneta. Noémia tirou o livro que tinha colocado no banco ao lado enquanto arrumava a memória, para ficar livre para algum passageiro que entrava se quisesse sentar. Os passageiros viajavam e grupos ou casais e no lugar junto a Noémia ninguém se sentou. Agora, Noémia tinha pela frentes as centenas de quilómetros e aproveitava para ler e ir preparando a tese que teria para defender por esses dias a seguir. De vez em quando deliciava-se com olhares pela paisagem, pondo os pensamentos em dia.
Na segunda paragem, tinha entrado a família: mãe e duas crianças acompanhada pelo passageiro que não condizia nada com a mãe e as duas crianças. Estas, a mãe era raquítica, provavelmente causa de pouca comida com que foi criada. As crianças, também com sinais de raquitiquez menos acentuada, mas também não só por hereditariedade, mas também sinais de fraca alimentação. O acompanhante destas, homem trintão, alto e robusto, com entradas bem visíveis pelo corte de cabelo curto que usava.
Este sim, demonstrava que o seu corpo cresceu exercitando-se a puxar troncos de árvores e abrindo gáveas para plantação e extensão de vinhedos e oliveiras. Também não se teria criado com alimentação muito abundante ou bem nutrida, mas provavelmente andaria por ali um ADN ou Génesis fazendo o seu efeito.
Este passageiro, assim que entrou na camioneta, percorreu todas as pessoas com olhares escondidos atrás dos óculos verdes escuros de modelo já muito fora de moda, mas que eram os mesmos que durante as semanas anteriores usava quando se sentava sozinho na esplanada do Café da vila todos os dias a seguir ao almoço, que vinha da sua aldeia no seu Datsum 1200 antigo, para ali matar algumas horas frente a uma chávena de café que assim que ficava vazia, ele ficava ali horas seguidas a ver quem passava, até que se levantava em direcção ao carro sacudindo as chaves na ponta do dedo, talvez para chamar à atenção que tinha automóvel.
De regresso à cidade onde passava horas a fio de pé na rua a olhar constantemente para o relógio para ver quando as horas passavam, iria aproveitar na camioneta para mostrar aos acompanhantes, familiares talvez afastados, que ele era galã e com grande capacidade de arranjar rápido uma mulher.
Levantou-se do seu lugar, com espanto dos seus acompanhantes e vai-se sentar no lugar vazio junto a Noémia.
Noémia já se tinha apercebido que durante a viajem ele não tinha tirado os olhos dela. Mas ela tinha feito todos os possíveis para qualquer bom entendedor, não estaria minimamente interessada em olhar para ele. Ele não tinha capacidade de percepção para se aperceber destes sinais.
Ao sentar-se ao lado dela, estiraçou-se com o seu comprimento e largura, que teria sido talvez esta condição corpolenta que o levaria a ter podido ingressar na instituição que logo a seguir haveria de identificar.
O passageiro, começa a aproximar-se pouco a pouco de Noémia, ela toda se encolhia contra a janela mostrando-se incomodada e caladinha mas dando-lhe a entender que estava a ser importunada violentamente. Ele, cada vez se estiraçava mais para cima dela e de vez em quando olhava para quem tinha ficado no seu espaço e estes faziam comentários de que ele era de facto um galã à altura de conquistar as mulheres mais belas. Tanto se esticava para cima de Noémia, mostrou a arma que levava escondida à cintura e deixou-se identificar com uma uma instituição que ali a desprestigiou muito.
Noémia, vendo-se tão sufocada, não teve outra hipotese se não, aproveitar a paragem que a camioneta fez junto à inscrição secular ou milenar no rochedo, levamtar-se e aproveitando para ir ler as inscrições góticas exercitando o seu latim (ver foto) e ficar junto do motorista, fazer o resto de viagem em pé, comentando que ainda existiam homens pré-históricos nos nossos tempos.
Passados alguns dias, Noémia entrava na Reitoria da Aula-magna de sua Faculdade, vê o homem fardado que habitualmente circulava por ali dando protecção aos automóveis no parque de estacionamento. Mas este chamou-lhe à atenção. Fixou-se na cara deste e ele virou a cara à procura de um buraco no chão para se enfiar por ele abaixo!........ Era o homem que a tinha incomodado tanto naquela viajem.....
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