Grupo em Troia 1975- sou o ultimo lado esquerdo. |
Eu, em Albufeira em 1975
No verão quente de 1975, eu quis conhecer
o país e fiz uma viagem volta a Portugal durante o mês das minhas férias
Nessa viagem que fiz por todo o nosso
país nesse verão de 1975, muita coisa vi fora do vulgar e do normal do que
seria normal se não estivéssemos nesse período tão conturbado.
Comecei essa viagem partido de Lisboa e
seguindo pela costa alentejana, Costa Vicentina. Partimos de Lisboa um grupo
que só me haveriam de acompanhar durante alguns dias, pois eles apenas tinham o
fim-de-semana prolongado por causa de um feriado.
A primeira paragem foi em Troia, onde estivemos
três dias e dormimos duas noites. Troia tinha interrompido o processo de progresso
de expansão de turismo para todos, tinha supermercados para abastecimento dos
turistas que ficavam nas habitações acessíveis aos menos endinheirados, a par
dos hotéis mais caros para os mais endinheirados, mas com o 25 de Abril todo
esse processo foi interrompido e no verão quente de 1975 já estava quase tudo em autogestão.
No restaurante que antes era para os que
pagavam caro, agora estava transformado em restaurante comunitário para todos,
mas esses que podiam pagar o serviço e qualidade desse restaurante já tinham desaparecido
de Troia, até os que não estavam habituados a restaurantes, muitos deles já
tinham abandonado Troia, porque também não queriam aceitar aqueles regras comunitárias.
Nós (os da foto) aceitávamos tudo porque estávamos de passagem, tanto eu como o
meu amigo, que tínhamos terminado a tropa havia pouco tempo, até apreciávamos aquelas
coisas divertindo-nos. As nossas companheiras é que se viam algo aflitas. Numa
refeição que pedimos para o grupo e nos sentámos todos à mesa, os empregados já
transformados em revolucionários, porque os empregados não revolucionários
também já tinham partido, ao verem que nós estávamos com modos e maneiras de quem
não estava envolvido no processo ideológico- revolucionário, um deles gritou-nos:
lá de longe: Ó pá, olha que o 25 de Abril não foi feito para isto!!! Embora ainda
houvesse por ali um ou dois empregados que serviam as pessoas respeitando-as.
Terminado esse fim-de-semana prolongado,
todos os elementos do grupo, por razões profissionais regressaram a Lisboa e eu
continuei a minha viagem.
No Algarve, fui visitar uma amiga minha
de Lisboa, mas natural do Algarve e me tinha dado a morada para quando eu fosse
por lá a fosse visitar em casa dos pais. Moravam numa Quinta mais para o interior,
a filha, minha amiga não estava, também tinha saído de viagem e, nessa altura
ainda não havia os telemóveis para nos comunicarmos onde quer que se estivesse,
por isso, depois de não conseguir não aceitar almoçar, almocei em casa dessa excelente
e simpatiquíssima gente que foi um dos melhores almoços da minha vida.
Um amigo meu, dias antes tinham-me dito
que por esses dias estaria em Monte Gordo a passar férias com o seu grupo e tinha-me
falado na Hotel que que já tinham reservado a estadia. Fui lá e lá estavam eles,
era um grupo quase só mulheres, como eu naquele momento não levava nenhuma
mulher comigo, fizeram questão de eu os acompanhar para o grupo ficar mais
equilibrado.
À noite fomos para a discoteca, como é próprio
do Algarve, eram mais estrangeiros/as que portugueses/as. A pista de dança estava
quase sempre cheia de mulheres jovens nortenhas da Europa, envolveram-se no nosso
grupo todas atrevidas e quiseram que nós portugueses as ensinássemos a dançar
as músicas portuguesas. As jovens portuguesas do nosso grupo, ao verem as norte-europeias
todas atrevidas, retiraram-se logo da pista de dança, algumas já eram formadas
e outras eram universitárias, mas a juventude portuguesa e principalmente a feminina
ainda vivia uma mentalidade de acanhamento, só aqueles que já tínhamos viajado
pelo estrangeiro estávamos já mais desprendidos de preconceitos e hábitos de
acanhamento.
Em resposta ao pedido das jovens norte-europeias
nos terem solicitado que queriam que as ensinássemos dançar músicas portuguesas,
o meu amigo que orientava o grupo foi ter com disc jockey e disse-lhe que a partir daquele momento só
podia pôr música portuguesa e que começasse pelo Corridinho do Algarve e a seguir
o Malhão (esse amigo mais tarde haveria de ser Procurador da República numa cidade
da Região). O disc jockey obedeceu prontamente, pois teria bem em mente o processo
revolucionário que estava a decorrer em Portugal.
Passados uns dias, também cada um desse
grupo foi para cada lado à sua vida.
Eu, segui a minha viagem pelo interior
do país, fotografando tudo o que me aprazava fotografar, fazia paragens em
qualquer sítio que que me despertava interesse, eu já tinha alguma experiência
e prática de viajar e saber procurar os locais com mais interesse, passei pela Junqueira
junto ao Guadiana, fotografando a ponte sobre o Guadiana para Olivença e que em
tempos de guerras foi destruída. A nova ponte atual ainda não existia, e quis
conhecer Olivença e suas gentes e também a Cidade que durante 30 anos foi portuguesa,
Badajoz, e ver e fotografar as Portas de entrada, onde no portal D. Afonso
Henriques partiu uma perna quando entrava no seu cavalo a alta velocidade, foi prisioneiro
e depois teve de devolver a cidade aos castelhanos para ele voltar ao reino de
Portugal.
Numa cidade do Alentejo, entrei no
restaurante para almoçar, quando viajo, só ou acompanhado, gosto de ser dos primeiros
a entrar no restaurante para almoçar, é-se mais bem recebidos e mais bem
atendidos enquanto não há muitos clientes para atender. Mas nesse período revolucionário,
se o dono do restaurante ocupasse uma mesa só com uma pessoa, corria o risco de
ser considerado antirrevolucionário/reacionário e poderia ter alguém do partido
que estava a chefiar o processo revolucionário e/ou militares do PREC a visitá-lo.
Por isso, à medida que os clientes iam entrando e as mesas iam ficando preenchidas,
os funcionários iam mandando sentar nas mesas que ainda não estavam completadas,
nem sequer pediam autorização a quem já lá estava sentado.
Como eu fui o primeiro a sentar-me na
minha mesa, a seguir coube-me um jovem casal, um pouco mais velhos que eu, mas
a princípio pareciam ser pessoas bem formadas, que estavam habituadas a frequentar
restaurantes bons, mas de início pessoas de poucas palavras. A mulher, postura
de mulher fina e bem formada, não falava nem com o marido nem olhou uma única vez
para mim, o marido, também de aparência culta mas olhava de vez em quando para
mim demonstrando que teria vontade de meter conversa comigo, meti conversa com
ele e a partir daí ele começou a falar e eu pouco mais tive a oportunidade de
falar, tinha que esperar pela pausa que ele fazia quando já estava cansado de
falar, para continuara a conversa e eu dizer uma palavra ou duas, mas ele cortava-me
logo a palavra e recomeçava o seu discurso revolucionário que provavelmente já
o teria feito vezes sem conta. Depois de me ter querido justificar o processo
revolucionário que estávamos a atravessar e se declarar que deveria ser a URSS a
tomar conta de Portugal, quis também mencionar alguns dos seus contributos para
que o processo revolucionário chegasse a onde os mentores pretendiam. Quis começar
por dizer-me que ele Engenheiro Técnico Agrícola, tinha iniciado a sua
atividade como Regente Agrícola numa Herdade importante no Alentejo havia seis
anos, e que no dia que estava a falar comigo já tinha entregado essa Herdade aos
trabalhadores e, explicou como o tinha feito: Uma das manhãs apareceu na
Herdade exibindo uma metralhadora G3, avisando os proprietários que teriam de
entregar a Herdade e tudo o que lá estava aos trabalhadores, caso não o quisessem
fazer, ele poderia fazer uso da arma que tinha nas mãos.
Os proprietários ainda quiseram oferecer
resistência, fecharam-se em casa e ele foi ter com os trabalhadores da Herdade
que já não trabalhavam, só pensavam que todos aqueles terrenos, toda aquela
maquinaria, todos aqueles animais e o monte (as casas) em breve seriam deles.
O dito Regente Agrícola, que seis anos
antes ao terminar o seu curso no Instituto Agrário, se candidatou e foi recebido
pelos proprietários da Herdade com toda a dignidade que um formado numa Escola
Superior merce, agora estava de ideias revolucionárias e queria mudar o mundo, tinha
na sua mente que haveria de ser um dos comandantes da revolução e estava ali ao
lado dos trabalhadores.
Depois de ter discursado para os
trabalhadores parados e à espera que ele lhes dissesse quando é que passavam a
ser definitivamente donos da Herdade, ele voltou de regresso ao monte e para
dar o último aviso aos proprietários, mas ao aproximar-se das habitações onde estavam
os proprietários, talvez pela cobardia que o dominava e sem saber qual a forma
como deveria obrigar os patrões a cederem, disparou umas rajadas de metralhadora
G3 para o ar por cima das casas dos patrões. Quando chegou à casas já só viu os
patrões abertos e todos os familiares a fugir desesperadamente pelos campos fora
e nunca mais voltaram. Foi assim que este revolucionário me quis contar à mesa que casualmente se sentou à minha mesa, a
forma com ele protagonizou um dos seus atos revolucionários. Percebi então, porque
é que a sua mulher se manteve sempre calada, sem uma única palavra, provavelmente
não nasceu nem foi criada, educada e formada para aquilo que estava a passar.
Quem passou por esse tempo
revolucionário e se lembra da frase dita por um dos responsáveis do processo
revolucionário que ficou na história (As armas estão em boas mãos) quando foi
conhecido publicamente que andavam a ser
distribuídas armas, um dia eu descia a Rua Morais Soares em Lisboa e do lado esquerdo
mais ou menos a meio da rua, ao passar, estava alguém entre uma porta e a
oferecer armas G3 a quem passava e as quisesse levar. Nessa altura eu dava umas
aulas a adultos, uma aluna que se identificava como revolucionária, disse-me
que já lhe tinham dado uma G3 e andava em treinos, mas que era muito pesada e se
calhar ia desistir!... ela até era filha de um militar de carreira, nunca mais
vi essa pessoa, não sei o que lhe aconteceu.
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