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| Construindo pontes e estradas em Angola |
Edifícios construídos pelos portugueses em África
Cronica nº 219, continuação da Cronica
nº 218
Também me disseram há alguns anos, que o
país estava à espera que determinados elementos falecessem e suas famílias tivessem
menos influencia nas decisões do poder, para depois iniciar processos de esclarecimentos
de como se formaram determinadas riquezas pessoais e familiares.
Também numa visita turística no interior
do país a uns engenhos hidráulicos históricos, alguém que conhecia a localidade, quis levar-nos
a visitar uma fundação ao lado e explicou-nos todo o imbróglio da história daquela
fundação e dos terrenos onde foi instalada, aquilo não lembrava nem ao diabo,
neste caso teve mais a ver com Deus.
O nosso país e a nossa sociedade, desde
há 500 anos se virou mais para o mar e menos para a civilização europeia, não
foi por acaso que Salazar chegou a dizer, orgulhosamente sós. Os governantes
desses tempos, mesmo já na segunda metade seculo XX ainda tinham um pensamento
demasiado preso ao ultramarismo, não queriam aceitar que o mundo estava a mudar
em passos largos e que Portugal era um país europeu e não podia fugir a essa
situação. Depois, Marcelo Caetano já
trouxe outra forma de pensar, mas precisava de tempo para fazer a mudança, o país
estava demasiado colado ao ultramar e não era fácil desprendê-lo assim de um
momento para o outro.
Angola, inícios da década de 70, já se vivia o
clima de mudança iniciado por Marcelo Caetano, nas repartições publicas já era
uma boa maioria de funcionários nativos locais, mas também havia alguns
angolanos brancos que tinham dificuldade em aceitar isso, assim como também já
havia escolas em todos os locais para as crianças mesmo nos locais recônditos do
interior, também as populações locais se preparavam para a autonomia e a seguir
a Independência. Disse-me um funcionário administrativo superior, negro e
natural dessas terras, que queriam uma autonomia com o devido tempo para se
prepararem para a Independência e que nunca aceitariam um padrasto em troca de
um pai. Mas, embora contra a vontade de muitos africanos, aceitaram mesmo esse padrasto.
Mas os europeus, nascidos em Angola
tinham um pensamento muito próprio, por vezes até um pouco discriminativo dos
europeus não nascidos em Angola, por vezes não se sabia bem o que eles queriam
para Angola, embora não todos, mas muitos chegavam a considerar-se uma
sociedade à parte dos outros europeus não nascidos em Angola mesmo que já
vivessem em Angola há muitos anos.
Os europeus residentes em Angola, mas
não nascidos em Angola, também tinham a sua maneira de pensar e gostavam de ter
a sua sociedade, depois de muitos anos a residir em Angola, gostavam de se
fazer passar por naturais de Angola, alguns até deixavam de falar nas suas
terras de origem Portugal ou noutro país europeus.
Por tudo isto, porque havia governantes
portugueses que sabiam bem estas situações, queriam muito mais tempo para
prepararem a mudança.
Fui mobilizado para Angola e cumpri o
meu serviço militar centro e norte de Angola.
Na guerra de guerrilhas que se desenrolava e mantinha por algumas partes
do território de Angola ia diminuindo de intensidade, meados de 1972 cruzei-me em Luanda com um oficial das forças armadas
portuguesas, que tínhamos pertencido ao mesmo batalhão onde eu cumpri o meu
serviço militar, e ele disse-me que naquele momento já só havia focos de
guerrilha em alguns pontos do território. Não foi por acaso que passados alguns
anos depois da independência, um general das forças armadas de Angola disse numa
entrevista a um canal de televisão, que se não tem sido a informação que oficiais
das forças armadas portuguesas passavam aos movimentos de guerrilha, esses
mesmos movimentos teriam enfraquecido muito mais cedo e até desistido.
Mas também havia muitos civis mesmo europeus e até nascidos em Portugal que já estavam havia muitos anos em Angola, que se manifestavam com hostilidade aos militares portugueses em Angola. Ouvi eu dizer numa cidade capital de distrito, a um dos maiores proprietários dessa região em Angola, que os militares só iam para lá para ir passar férias. Ora os militares que ele via por ali, eram militares que já tinham passado um ano a construir pontes e estradas em zona de combate, (junto foto eu junto às máquinas na hora de descanso e comer a ração de combate, mesmo aí, tínhamos que ter a G3 ao lado porque o perigo do inimigo estava à espreita) passando muito mal, por vezes tinham que beber a água dos charcos onde as pacaças (vacas bravas) bebiam, pisavam e defecavam, depois de encher o cantil, o médico obrigava a colocar os comprimidos dentro do cantil e era obrigatório deixar passar um determinado tempo para o comprimido fazer efeito, mas a sede por vezes era tão desesperada que não havia paciência para esperar e bebia-se mesmo assim, tinham que fazer operações de combate durante dias e noites a atravessar pântanos com a água a dar pela cinta, descer e subir serras e morros com a roupa a secar no corpo e até com crianças nativas às cavalitas, que foi o meu caso, em resgate e salvamento de populações nativas, porque para muitos angolanos, estas coisas já não existiam ou pensavam que já não existiam.


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