quarta-feira, 18 de maio de 2022

Volta ao Portugal de ontem, de hoje e de amanhã: Cronica nº 219


Construindo pontes e estradas em Angola



Edifícios construídos pelos portugueses em África 


Cronica nº 219, continuação da Cronica nº 218

Também me disseram há alguns anos, que o país estava à espera que determinados elementos falecessem e suas famílias tivessem menos influencia nas decisões do poder, para depois iniciar processos de esclarecimentos de como se formaram determinadas riquezas pessoais e familiares.

Também numa visita turística no interior do país a uns engenhos hidráulicos históricos, alguém que conhecia a localidade, quis levar-nos a visitar uma fundação ao lado e explicou-nos todo o imbróglio da história daquela fundação e dos terrenos onde foi instalada, aquilo não lembrava nem ao diabo, neste caso teve mais a ver com Deus.

O nosso país e a nossa sociedade, desde há 500 anos se virou mais para o mar e menos para a civilização europeia, não foi por acaso que Salazar chegou a dizer, orgulhosamente sós. Os governantes desses tempos, mesmo já na segunda metade seculo XX ainda tinham um pensamento demasiado preso ao ultramarismo, não queriam aceitar que o mundo estava a mudar em passos largos e que Portugal era um país europeu e não podia fugir a essa situação. Depois,  Marcelo Caetano já trouxe outra forma de pensar, mas precisava de tempo para fazer a mudança, o país estava demasiado colado ao ultramar e não era fácil desprendê-lo assim de um momento para o outro.

 Angola, inícios da década de 70, já se vivia o clima de mudança iniciado por Marcelo Caetano, nas repartições publicas já era uma boa maioria de funcionários nativos locais, mas também havia alguns angolanos brancos que tinham dificuldade em aceitar isso, assim como também já havia escolas em todos os locais para as crianças mesmo nos locais recônditos do interior, também as populações locais se preparavam para a autonomia e a seguir a Independência. Disse-me um funcionário administrativo superior, negro e natural dessas terras, que queriam uma autonomia com o devido tempo para se prepararem para a Independência e que nunca aceitariam um padrasto em troca de um pai. Mas, embora contra a vontade de muitos africanos, aceitaram mesmo esse padrasto.

Mas os europeus, nascidos em Angola tinham um pensamento muito próprio, por vezes até um pouco discriminativo dos europeus não nascidos em Angola, por vezes não se sabia bem o que eles queriam para Angola, embora não todos, mas muitos chegavam a considerar-se uma sociedade à parte dos outros europeus não nascidos em Angola mesmo que já vivessem em Angola há muitos anos.

Os europeus residentes em Angola, mas não nascidos em Angola, também tinham a sua maneira de pensar e gostavam de ter a sua sociedade, depois de muitos anos a residir em Angola, gostavam de se fazer passar por naturais de Angola, alguns até deixavam de falar nas suas terras de origem Portugal ou noutro país europeus.

Por tudo isto, porque havia governantes portugueses que sabiam bem estas situações, queriam muito mais tempo para prepararem a mudança.

Fui mobilizado para Angola e cumpri o meu serviço militar centro e norte de Angola.  Na guerra de guerrilhas que se desenrolava e mantinha por algumas partes do território de Angola ia diminuindo de intensidade, meados de 1972 cruzei-me  em Luanda com um oficial das forças armadas portuguesas, que tínhamos pertencido ao mesmo batalhão onde eu cumpri o meu serviço militar, e ele disse-me que naquele momento já só havia focos de guerrilha em alguns pontos do território. Não foi por acaso que passados alguns anos depois da independência, um general das forças armadas de Angola disse numa entrevista a um canal de televisão, que se não tem sido a informação que oficiais das forças armadas portuguesas passavam aos movimentos de guerrilha, esses mesmos movimentos teriam enfraquecido muito mais cedo e até desistido.

Mas também havia muitos civis mesmo europeus e até nascidos em Portugal que já estavam havia muitos anos em Angola, que se manifestavam com hostilidade aos militares portugueses em Angola. Ouvi eu dizer numa cidade capital de distrito, a um dos maiores proprietários dessa região em Angola, que os militares só iam para lá para ir passar férias. Ora os militares que ele via por ali, eram militares que já tinham passado um ano a construir pontes e estradas em zona de combate, (junto foto eu junto às máquinas na hora de descanso e comer a ração de combate, mesmo aí, tínhamos que ter a G3 ao lado porque o perigo do inimigo estava à espreita) passando muito mal, por vezes tinham que beber a água dos charcos onde as pacaças (vacas bravas) bebiam, pisavam e defecavam, depois de encher o cantil, o médico obrigava a colocar os comprimidos dentro do cantil e era obrigatório deixar passar um determinado tempo para o comprimido fazer efeito, mas a sede por vezes era tão desesperada que não havia paciência para esperar e bebia-se mesmo assim, tinham que fazer operações de combate durante dias e noites a atravessar pântanos com a água a dar pela cinta, descer e subir serras e morros com a roupa a secar no corpo e até com crianças nativas às cavalitas, que foi o meu caso, em resgate e salvamento de populações nativas, porque para muitos angolanos, estas coisas já não existiam ou pensavam que já não existiam.



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