terça-feira, 6 de setembro de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã







 


VOLTA AO PORTUGAL DE HOJE, DE ONTEM E DE AMANHÃ: - Anos 50 e 60 do sec. XX, Portugal vivia e passava por um tempo de grande agitação e transformação. Junto às fronteiras, as populações tentavam esgueirar-se à procura de melhor vida. Nas suas terras e trabalhos agrícolas, os homens ganhavam entre 15 a 20 escudos por dia e quase de sol a sol, as mulheres de dez de 10 a quinze escudos. As mulheres ganhavam menos porque não subiam às arvores, apanha de azeitona e outras situações parecidas e também ao fim do dia iam mais cedo para casa para atender assuntos domésticos, enquanto os homens ficavam até mais tarde para carregar e descarregar o produto apanhado, nos carros dos animais e/ou nos tratores agrícolas. Com a construção de muitas barragens por todo o país, iam chamando por muitos homens para a sua construção, começavam logo a ganhar acima de 30 escudos diários, na agricultura começou a faltar mão de obra. Mas para compor melhor a situação, os homens à medida que as barragens iam terminando, tinham desenvolvido os seus conhecimentos porque tinham trabalhado alguns anos com horários de trabalho entre 8 e 10 horas diárias e sobrava-lhes tempo para verem televisão no Café e conversarem com outros que tinham vindo de outras regiões do país e assim iam alargando os seus conhecimentos, muitos deles já não queriam voltar ao passado, a Europa do centro, com a sua falta de mão de obra chamava por eles.

No litoral do país e interior Norte centro, não era bem assim, as indústrias aumentavam de dia para dia, trabalho e empregos não faltavam, as famílias numerosas não perdiam tempo a empregar os filhos e filhas assim que atingiam os 14 anos, em alguns casos até começavam logo a seguir ter terminado a escola primaria, porque os alunos que terminavam a escola primária e seguiam para o ensino secundário era uma percentagem muito baixa, dependia da região do país e o acesso que tinham ao ensino secundário e, para o universitário ainda era mais reduzidíssimo. Assim, numa boa parte do país, não faltava onde começar a trabalhar, mas em outra parte do país, interior profundo junto às fronteiras a solução era emigrar nem que fosse clandestinamente, porque o regime governamental dificultava a obtenção de documentos de identidade que lhes permitisse emigrar legalmente.

A larga maioria da juventude masculina, a partir de 1961 passou a terem de ir à guerra do ultramar em comissão de 2 anos, já na década de 70 quando a comissão no ultramar estava a chegar ao fim, era vê-los todos a pensar na vida pós passagem à disponibilidade. Os naturais das regiões onde o país estava em franco desenvolvimento, já quase todos sabiam para onde iam trabalhar e tinham quase garantido o lugar à sua espera. O Santos (nomes fictícios), dizia que terminava a comissão como comandante de secção, com 8 ou 9 homens (furriel miliciano) e já tinha sido informado que tinha um lugar à sua espera na fabrica onde trabalhava a sua mulher, para chefiar uma secção também com o mesmo numero de pessoas, mas aqui eram quase só mulheres e algumas delas tinham os maridos a cumprir serviço militar no ultramar, porque muitos casavam à pressa antes de serem mobilizados para o ultramar para que as suas mulheres ficassem a receber subsídio enquanto os maridos estavam no ultramar. Mas os que eram de regiões mais do interior e fronteiriças, era ouvi-los dizer para que país poderiam emigrar assim que chegassem à sua terra. Eu próprio, acabado de regressar, sentava-me numa esplanada perto da fronteira acompanhado de uma pessoa conhecida e influente da zona, a gerente do café restaurante veio logo atender-nos e como não me conhecia, falou numa linguagem que eu não percebi nada, para o meu acompanhante, ele respondeu que eu não estaria interessado, ela disse: Tem estudos é! Tratava-se de uma angariadora de emigrantes clandestinos e que ganharia a sua comissão.

Isso não impediu que algum tempo mais tarde, tudo documentado e dentro da legalidade, eu apanhasse um avião e ir para outras terras, onde trabalhei, estudei e até ensinei.

Passados alguns anos, Circulava eu numa rua em Paris, vi duas mulheres dos seus 40 anos de idade a arrastar caixotes do lixo e falando em português bem à maneira da sua aldeia, dei-lhes um Bom Dia em bom som e com cara sorridente de as querer cumprimentar, viraram-se de repente, olharam-me e rapidamente entraram em dialogo comigo, interrompiam-se uma à outra e as duas queriam falar, tivemos um bom dialogo incluindo com quem me acompanhava, mas uma não deixou de me dizer que a vinda do marido dela, José (nome fictício) para França tinha sido muito difícil e penosa.

Na primeira tentativa fora borlado, o passador foi a casa buscá-lo durante a noite, a passagem custava 5 contos (5.000 escudos) que na época, inícios da década de sessenta era uma fortuna e muito difícil de conseguir para gente da sua classe, entregou-lhe os 5 contos ao passador, este mandou-o que se despedisse da família para um ou dois anos, que depois já poderia vir legalmente a Portugal e se quisesse poderia levar a família consigo em viagem normal. De seguida disse-lhe que o seguisse, seriam cerca de 3 horas a caminhar bem até à fronteira, só com a roupa que tinha vestida, era para não fazer desconfiar os guardas, portugueses e espanhóis ao atravessar a fronteira raia seca (fronteira terrestre) do outro lado tinham à espera uma viatura já com mais elementos e que os levaria até França. Partiram, depois de já terem caminhado cerca de duas horas e perto da fronteira o passador começou a acelerar o passo, José já não conhecia bem esses caminhos e noite escura ainda pior e acabou por não conseguir acompanhar o passador e perdeu-o de vista e nunca mais o viu. Regressou a sua casa, à mulher e dois filhos, mas sem os 5.000 escudos.

Não era fácil arranjar mais 5.000 escudos para tentar novamente, empenhou um dos seus mais estimados bens que tinham na família para tentar novamente, mas desta vez tiveram mais cudado, falando com quem já tinha emigrado nas mesmas condições, mas sempre jogando à defesa.

Depois de uma viagem muito penosa, conseguiu chegar a França, passados 3 anos mandou ir a mulher e os dois filhos, juntando no futuro mais uma que nascera lá em França.

Também me contou que muitos foram enganados e burlados, na Aldeia de nome França que fica no Parque de Montesinho junto à fronteira com Espanha, região de Bragança. Recebiam os candidatos à emigração clandestina em qualquer ponto do país, metiam-nos em camionetas próprias para transporte de gado, todas fechadas, andavam a noite inteira às voltas por estradas desconhecidas e próximo do romper do dia largavam-nos junto à placa na estrada que dizia França e mandavam-nos atravessar a localidade ainda de noite, que quando estivessem do outro lado da localidade estavam em França. Foi assim que também muitos ficaram sem os 5 contos e tiveram de dar mais outros 5 contos para fazerem essa viagem tão penosa.

As duas mulheres, diziam-me: agora já temos uma boa Conta no Banco aqui e em Portugal, já podemos ir todos os anos à nossa terra a Portugal com um bom carro, que é alugado para essa viagem, mas todos os anos levamos um diferente.

Meados da década de 90 estacionava eu o meu carro numa área de serviço numa autoestrada no centro da Europa, dois trabalhadores que plantavam rosas num canteiro, dirigiram-se a mim na língua local a perguntar se eu era português, porque por aquelas bandas não se viam muitas matrículas portuguesas, disse-lhes que sim e podiam falar à vontade em português. Quiseram-me contar toda a sua aventura e a vida de um imigrante por aquelas terras. Um disse: eu agora até podia ser um bom GNR em Portugal (teria sido um dos seus sonhos desde criança) e continuou, disse-me que em 1963, tinha ido à inspeção e tinha ficado aprovado para todo o serviço militar, mas depois alguém lhe deu a volta à cabeça (palavras dele) para fugir à tropa, emigrou clandestinamente mas depois à medida que o tempo ia passando ia tendo ideias que talvez não tivesse tomado a melhor opção, não podia voltar a Portugal, queria casar na terra com a namorada que tinha deixado lá e não podia, teve que casar à distancia e manda-la vir e só passados 10 anos é que pode voltar à terra matar saudades da família e alguns já tinham entretanto falecido.

Como eu era bastante mais novo que ele, perguntou-me se eu ainda tinha apanhado a ida ao Ultramar (reparei no pormenor de ele nunca ter utilizado a palavra - guerra) disse-lhe que sim, que tinha estado numa das zonas consideradas mais afetadas pela guerrilha em Angola, enfrentámos muitas vezes o inimigo, construímos pontes e estradas em Angola, salvávamos muitas populações dos riscos que corriam. Regressámos com menos um homem na Companhia dos que tínhamos partido, esse morreu de acidente auto extra-tropa e por culpa própria e, infelizmente um veio sem uma perna pelo rebentamento de uma mina. Ele disse, cada vez tenho mais pena de não ter cumprido uma missão dessas que eu gosto, ajudar quem precisa.

Contei-lhe que a mim, sete dias depois de eu ter assentado praça, me telefonaram da terra a dizer que alguém estava lá vindo de França para me levar para França e eu fugir à tropa, mas eu respondi-lhe que não estava interessado. Curiosamente, esse individuo tinha sido dos primeiros a ser mobilizado para o ultramar em 1961, foi ao ultramar, regressou e emigrou normalmente e legalmente, mas infelizmente vaio a falecer por acidente passados uns anos em França.

O meu interlocutor, disse-me que depois de ter fugido à tropa, no local de trabalho se encontrou com alguns portugueses que tinham ido ao Ultramar em comissão, regressaram, emigraram legalmente e vinham à terra quando lhes apetecia e podiam. E, ainda para mais, lhe tinham dito que no ano em que ele seria chamado, com os estudos que tinha, 2º ciclo dos liceus incompleto, ainda teria ido para o CSM (curso de sargentos milicianos) e no final da tropa teria todas as possibilidades de arranjar uma boa colocação na Função Publica em Portugal.

Assim agora, (palavras dele) vivia a trabalhar a vida inteira para num país que não era o seu, gostava muito da sua terra e das suas gentes, os filhos que tinha nasceram e criaram-se em França, cada dia que passava mostravam menos interesse pela terra dos pais, atormentava-o a ideia de, quando se reformasse, ter de optar viver em Portugal na sua terra onde se sentia com orgulho e se estimavam todos os habitantes, ou continuar na terra que só trabalhou em serviços menores, sempre olhado pelos naturais dessas terras de cima para baixo como sendo pessoas inferiores, para poder estar por perto dos seus filhos.

Américo Martins

 

Americo
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