quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - Tempos de Hoje

      



VOLTA AO PORTUGAL DE HOJE, DE ONTEM E DE AMANHÃ- TEMPOS DE HOJE

                 PAULA, acabava de completar 20 anos e concluiu o ensino secundário.

Filha de pais da classe media da sociedade fronteiriça, não sentiu grandes dificuldades desde a sua meninice, embora também não tivesse sido criada com muitos mimos, os pais com mais filhos, não tinha tempo para isso, mas gostavam de a ver ser e viver um pouco acima das outras da sua idade.

Pais que ainda ouviram falar das grandes dificuldades, avó de Paula, contava-lhes que quando ainda criança, em plena Guerra Civil de Espanha, se recordava de sua mãe estar a descascar as batatas à porta de casa e duas meninas que brincavam ali na rua , ao verem as cascatas das batatas sendo atiradas para um cesto para serem dadas aos animais, as meninas foram tirá-las do cesto e comê-las cruas.

 Era o tempo em que aqui bem perto em Espanha, os cereais eram retirados pelas autoridades aos agricultores logo assim que eram acabados de trilhar ou malhar nas Eiras, e seguiam para alimentar as tropas em combate por todo o país, deixando só para eles uma pequena parte que daria para todo o ano muito regradamente, até os tenadores (garfos) pagavam imposto.

Essa falta de mantimentos tornou-se extensiva a terras portuguesas perto da fronteira com Espanha, porque muitos portugueses aproveitavam uma situação para contrabandear produtos que vendiam em Espanha muito acima dos valores em Portugal.

Os pais de Paula já não viveram esse período, já apanharam o tempo do novo-riquismo, mas era-lhes lembrado pelos seus pais e eles já não queriam falar disso aos seus filhos, preferiam prendá-los ao novo-riquismo.

 Por isso, quando Paula disse que a prenda de ter concluído o ensino secundário depois de 10 anos de escola, a prenda que queria, era ir fazer uma viagem pela Europa, até nem gastava muito porque iria ficar alguns dias em casa de familiares que tinham emigrado para essas terras do centro da Europa.

Em França, Paula ficou em casa de familiares, e como diz a sabedoria popular: o hospede e o carneiro aos três dias toma cheiro, mas Paula não mostrava pressa em sair de casa  dos familiares que tiveram a disposição de a manter bem hospedada e alimentada já havia umas semanas, enquanto a ela pensava ficar por ali sem se preocupar, mas foi convidada a pensar quando pretendia terminar as férias.

 Paula, sentiu logo que já estaria a mais depois desse tempo todo com boa cama e boa mesa, mas não lhe apetecia vir embora já para Portugal, decidiu contactar outros familiares já mais afastados, que também quiseram ser simpáticos em recebê-la.

Paula partiu para lá, mas não deixou esquecido tudo o que tinha conhecido na sua primeira estadia. Tinha conhecido um fronteiriço das suas terras que já andava por ali há uns 10 anos, tinha partido quando tinha exatamente a idade que ela tinha nessa altura e do conhecimento entre os dois ficou uma amizade e até supostamente o princípio de um namoro.

Mesmo ainda em França, Paula recebia e telefonava para o seu amigo especial, os contactos telefónicos eram diários e por vezes várias por dia da parte de João, Paula ao princípio até desvalorizava a situação, era apenas para se divertir, mas depois foi também sentindo mais qualquer coisa por ele.

Paula, termina a sua passagem pelo centro da Europa e regressa a Portugal à sua casa paterna.

A viagem por terras centro-europeias deixou Paula fascinada, visto ao vivo é outra coisa, dizia ela, nada com o que se via nas televisões, mas começava a ser lembrada por seus pais, para ir procurar um emprego, a universidade até poderia ser quando já ganhasse para isso, como faziam outras, lembravam-lhe os pais.

Paula, começou a ficar mais preocupada com o namoro que tinha arranjado em França, do que procurar um trabalho para a sua independência, gastava mais tempo a escrever e enviar cartas para o seu amado em França, do que a procurar emprego.

Aos pais de Paula não lhes passava despercebida tal situação, mas não queriam intrometer-se muito na vida de namoros de Paula, já tinha completado 20 anos, já tinha condições próprias para procurar um bom emprego, se queria namorar que namorasse, que eles soubessem nunca tinha namorado a sério até essa idade, também estava na altura de pensar nessas coisas, só queriam que ela fosse orientando a sua vida.

João, o namorado, decide vir visitá-la a Portugal, mas sem os pais de Paula saberem, ela ia ao encontro de João em local onde não eram conhecidos  e não se ficavam por uns beijinhos no carro em locais onde toda a gente circulava, a pedido de João procuravam local mais íntimo e seguro, junto a um santuário, onde quem por ali fosse iria por bem e nunca iria reparar quem estava dentro de qualquer carro que por ali estava estacionado, de dia ou de noite, era um local sagrado e ninguém se lembraria de ir para ali fazer blasfémias ou pecados

Para não fazerem desconfiar tanto, Paula deslocava-se a pé porque o santuário ficava não muito longe da sua casa, para quem gostasse de caminhar fazia bem aquela distância a pé e quando lá chegava lá estava João à sua espera, todos estes encontros sempre de noite. João, chegou a vir de propósito e diretamente de França só para passar umas horas durante a noite com Paula dentro do carro nas traseiras do santuário debaixo da sombra das árvores da luz dos candeeiros, ele estava mesmo interessado em continuar com o namoro e para uma relação de facto sem grandes demoras.

Paula ficou pensativa, mas seus pais depois de saberem da situação não ficaram só pensativos, queriam saber toda a vida do pretendente à sua filha Paula.

João, conto-lhes a parte normal de um namoro normal, homem vivido, já sabia porque ponto haveria de começar e em que ponto deveria parar.

Paula até via ali, dois em um, com o casamento tinha também a possibilidade de ir para o centro da Europa e aí teria mais possibilidades de oferecer um bom emprego mais bem remunerado que não tinha em Portugal, mas os pais, não acreditaram bem na forma como João contou o seu passado e queriam saber mais sobre a vida de quem pretendia tirar-lhes a sua filha de casa.

Só passado mais algum tempo e com mais algumas viagens a Portugal e encontros noturnos no santuário, João se decidiu contar parte da verdade.

Já tinha sido casado uma vez e pretendia viver novamente mas numa relação de fato, situação que sempre escondeu a Paula e inicialmente também aos pais, só assim que os pais de Paula foram determinantes com ele, não teve se não contar a parte da verdade que seria impossível esconder, se queria continuar com Paula.

Os pais de Paula mais uma vez foram determinantes, o namoro terminaria ali, não era esse homem que desejavam para o marido de sua filha.

Paula, a primeira reação à decisão dos pais foi desobedece-lhes, mas, embora socialmente fosse já uma mulher independente e com capacidade jurídica para decidir por ela própria, faltava-lhe a independência económica e financeira e, pensou em ser mais comedida com as exigências dos seus pais, mas ainda não sabia do que estaria para saber mais à frente.

 Paula acaba por saber que já estava grávida.

João, no meio daquela tempestade que ele próprio provocou, ainda era o mais calmo, sabia que já teria as armas de que precisava para ganhar aquela guerra entre as três partes.

Já desconfiado do que se viria a confirmar, deixou passar o tempo necessário até que se confirmasse a gravidez de Paula.

Confirmada a gravidez de Paula, os maiores confrontos estavam agora entre Paula e os pais.

Enquanto os pais de Paula baralhados e confusos sem saber ao certo o que fazer, Paula também sofria do momento estranho e inesperado em que foi apanhada na sua vida, não era isto nem nada que se parecesse do que estava nos seus planos de início de vida , mas agora já estava nesta situação, também não tinha preparação e vivência de vida independente para resolver essas questões, andava um pouco ao sabor dos ventos, das opiniões dos seus pais e de João. Apetecia-lhe casar quanto mais depressa melhor.

Começou a pressionar João, mas João como ainda não lhe tinha contado toda a verdade, ia tentado empatar a situação sem saber bem que resposta deveria dar a Paula.

Paula ainda estava mais confusa, tal confusão misturada com a preocupação da primeira gravidez, Paula passou por momentos muito difíceis e decidiu jogar as cartas todas contra João.

João, aí foi obrigado a contar a Paula toda a verdade que ele tinha andado a ocultar até aí.

Ainda tinha o divórcio litigioso em Tribunal e não saberia quando poderia se casar legalmente, a ainda mulher dele não estava decidida a facilitar-lhe a vida nesse sentido, poderia era iniciar uma relação de fato.

Paula, entrava numa nova situação que nunca teria imaginado, mas muito menos saberia como sair de tal situação, sabia que seus pais nunca aceitariam que ela fosse iniciar uma relação de fato e com um homem casado.

 A situação de gravidez de Paula em que se encontrava pressionava-a fortemente, apetecia-lhe ir viver maritalmente com João, mas teria os pais totalmente opostos a essa sua decisão.

O divórcio de João marcava passo e sem fim à vista, mas João deixou de vir a Portugal só por causas de Paula, embora não deixasse de a contactar regularmente e sempre com promessas de que assumiria a paternidade do filho em companhia da mãe, mas só quando o divórcio com a sua primeira mulher estivesse encerrado definitivamente, que poderia durar anos.

Paula vivia a expensas dos pais, e agora grávida tinha muito menos condições para procurar emprego e para a sua independência económica e financeira.

Foram longos e penosos os dias que Paula teve de esperar pelo fim do divórcio de João, para os dois em comunhão de mesa e habitação poderem começar a criar o seu rebento.

 

 

 

 




 

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