Partia todas as manhãs de mala às costas para a sala de aulas que distava a uns quinhentos metros quase na outra ponta da aldeia e agora dava gosto visitar esse lado da aldeia, pois tinha sido havia pouco temo, inaugurada a estrada nova que agora sim, aquela obra importante que até tinha sido inaugurada por um senhor muito importante ao passar por aquelas terras quando fazia uma volta governamental e de Estado ao país.
Luís, ainda tinha perfeitamente gravado na memória quase todas as palavras que tinha ouvido da boca do padre da aldeia para o estadista e este as escutava com toda a atenção sem interromper o orador, só acenava com a cabeça em sinal de concordar, enquanto o representante da aldeia lhe pedia melhoramentos para esta terra.
Luís tinha nove anos e frequentava a 3ª classe, e, como criança curiosa, furou por entre os adultos e foi ficar mesmo junto às personagens importantes. Assim, bebeu todas as palavras que os ilustres disseram. As que Luís não esqueceu foi o pedido do orador quase de mãos erguidas para o estadista, para que lhe colocasse água e luz eléctrica na aldeia.
À noite, Luís pediu ao pai que lhe explicasse tudo aquilo que tinha ouvido da boca do padre da aldeia e do estadista a dizer que sim com a cabeça, até mandou um dos assessores tomar nota do que tinha ouvido do representante da aldeia.
O pai, que embora não tivesse muita formação académica, mas tinha concluído a 4ª classe, conhecia algo de politica, até tinha sido incomodado por se ter declarado simpatizante de Humberto Delgado quando das eleições anteriores, embora rápido tenha mudado de ideias, pois não gostou de quem representou esse candidato.
Pai de Luís, explicou-lhe que se ele um dia quisesse ser estadista, teria que estudar muito a começar pela escola primária, aprender a ser honesto e cumpridor, para saber respeitar os compromissos de Estado.
Luís, pensou para si próprio que só os filhos de quem era rico teriam possibilidades para conseguir as condições que o pai lhe tinha descrito para se ser politico e estadista. Os filhos dos menos ricos, que era o caso dele, só se estudassem muito e fossem muito inteligentes. Não perdeu tempo e daí para a frente aplicou-se quanto necessário nos seus estudos.
Quando regressou para férias do final do 1º ano do Liceu, já encontrou a sua aldeia com luz eléctrica e água potável em todas as torneiras dos chafarizes construídos por toda a aldeia com água com abundância para quem a quisesse meter em casa. Também ficou agradecidissimo ao Padre e ao Estadista, pois agora já podia estudar durante a noite sem estragar a vista.
Durante a adolescência e já estudante finalista do Liceu, assiste ao derrube do regime do estadista que tanto lhe agradou, mas ficou ainda mais contente, pois ouvia dizer que o novo regime ainda iria ser melhor que o derrubado.
Luís continuou a aplicar-se afincadamente nos estudos - o pai tinha-lhe dito que o primeiro ano que chumbasse o retirava dos estudos e o punha a trabalhar. Alem disso, Luís alimentava a ideia de um dia ser estadista. Também queria ser um homem cumpridor fazendo bem ao país, assim como tinha feito aquele estadista que ele continuava com ele gravado na memória.
Luís formou-se em medicina.
Ainda estudante e com o novo regime, Luís convenceu-se que assim passaria a haver mais hipóteses para todos poderem chegar a estadistas, frequentou vários comícios de todas as correntes politicas e ideologias. Ia gravando também as palavras dos líderes partidários oradores que ouvia nos comícios. Mas à medida que o tempo ia passando, ia-se apercebendo que depois na prática esses líderes políticos não cumpriam com o que diziam nos comícios.
Com o tempo, foi confirmando que os políticos que iam ocupando os cargos de estadistas e governantes do país eram pessoas do seu tempo, alguns conhecia-os do copianço nas escolas e conseguido diplomas de formas menos claras. Não eram nada parecidos com o que ele tinha imaginado para si e com o estadista que tanto o tinha impressionado quando ele era criança e tanto bem tinha feito à sua aldeia.
Verificava agora, que para se ser estadista, as pessoas não precisavam de se aplicarem nas escolas, prepararem-se para ser honestos, respeitarem os compromissos.
Bastava estar em todos os comícios do partido, por vezes até disfarçados, concordar com tudo o que os seus líderes partidários dissessem.
Por isso, agora há pouco tempo, uma obra bastante necessária na sua aldeia foi interrompida, Luís perguntou porque é que essa obra demorava tanto tempo a ser construída, responderam-lhe que enquanto estivesse no poder o partido que não tinha sido o mais votado na aldeia, a obra não seria concluída.
Por isso, Luís também vê agora manifestações nas ruas, gente da sua idade, com vassouras para varrer a classe politica.
As três fotos ilustram as situações: escola primária, comício e manifestação (clicar em cima da foto para ver em tamanho grande.


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