segunda-feira, 13 de junho de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - Aventura Africana

Angola
Angola Década 70
 





                                        AVENTURA AFRICANA

Extraído do livro do mesmo autor da cronica: Romance em Ficção Inspirado e Baseado em Casos Reais

 Partiram ainda crianças para África. Era o sonho de gerações desde há centenas de anos.

Quando uma família, que vivia com dificuldades na Europa e partia para África, partia para o prometido paraíso e definitivamente para não mais voltar, desfaziam-se de tudo quanto tinham, pois, a ideia de ir à procura de vida melhor noutras terras, era para sempre e ali construírem o seu futuro, eram meados do século XX, foi assim que a família Rolo partiu.

Deixavam para trás uma aldeia perdida na encosta da serra e partiam para um novo mundo longínquo atravessando oceanos à procura de um novo futuro.

A partida do Navio de Lisboa até chegar a Luanda levou próximo de três semanas.

De Luanda até Vila Palma, foram duas semanas, era tempo das chuvas e o asfalto eram apenas uns escassos quilómetros a sair de Luanda, dos cerca de 1.000 km que tinham para percorrer em estradas apenas iniciadas só em terra batida alinhadas com as Bulldozers e nem cilindro tinham levado por cima, apenas a terra ficava mais dura quando ficava seca com o calor escaldante no tempo do cacimbo a seguir às chuvas torrenciais e diluvianas, que depois dos 3 meses de cacimbo, voltariam as mesmas chuvas.

 Então, aquela terra argilosa avermelhada, ficava dura quase como o cimento, mas logo que vinha nova chuvada e às primeiras pingas, ficava escorregadio que nem sabão, mas também teriam a parte de deserto arenoso, que até teriam de prender cordas às árvores e ao eixo entre as rodas da velha camioneta que os transportava, para conseguirem subir pequenas encostas de terreno totalmente arenoso. Já com três dias de viajem, atravessar de jangada o rio com largura a perder de vista, que mais parecia um pântano sem fim, e a seguir subir o Morro por uma picada lamacenta em ziguezagues com a camioneta constantemente a patinar sendo preciso meter-lhe braçados de mato debaixo das rodas para continuar, levou dois dias.

Havia ainda muitos quilómetros de picada de terra arenosa que quando ficava seca, só viaturas de tração às 4 rodas conseguiam circular. Por isso, levava este tempo todo.

Passada semana e meia, lá chegaram eles a Vila Palma, a Terra Prometida.

Adolescentes, família de seis irmãos, quatro rapazes e duas raparigas, pais na casa dos 40 anos, eram a família ideal para ir colonizar África nesta era e nestes tempos.

Alguns dos irmãos, desanimaram completamente durante a viagem. Não fosse tão impossível voltar para trás, teriam regressado à aldeia que tinham deixado bem no interior de Portugal.

Pois a tão falada Vila, quase cidade, assim lha “venderam”, ao lá chegarem, só conseguiam ver muito menos gente que na aldeia que deixaram em Portugal.

Ao chegarem, só conseguiam ver uma escassa meia dúzia de casas a tijolo, caiadas e branqueadas alinhadas, metade de cada lado, faziam a curta avenida principal e única da localidade e em terra batida.

Vila Palma tinha o nome de vila, mas não era Vila.

O edifício do Posto do Administrador Estatal, mais três ou quatro casas de comerciantes onde viviam e trabalhavam pouco mais de uma dezena de europeus (brancos) e alguns mestiços. Mas depois, nos dias seguintes, foram avistando sanzalas próximas onde viviam milhares de africanos, que eram os clientes das casas comerciais que se estendiam ao longo dessa avenida.

A outra casa a ser construída a seguir, teria que ser a deles.

Deram inicio à sua nova vida como puderam. Mesmo só com a instrução escolar mínima obrigatória, uma irmã e um irmão mais velhos, dedicaram-se ao ensino primário, havia muitas crianças nativas na idade escolar e havia falta de professores, por isso, o Estado permitia que quem tivesse a 4ª classe e  16 anos de idade podia exercer o ensino primário enquanto não houvesse professores qualificados, foi assim que os dois irmãos mais velhos da família Rolo aproveitaram esta oportunidade e era uma e a única forma mais rápida de começar a ganhar o sustento da família.

Afinal havia muita gente. Só que eles quando lá chegaram, não lhes tinham explicado que tanta gente que havia nessa terra, não era brancos, mas sim 99% ou mais, eram negros e estavam dispersos pelas redondezas e a viver em sanzalas nas suas cubatas feitas de terra amassada e cobertas com capim da cor da terra debaixo da copa das árvores, por isso a dificuldade de eles verem tanta gente que vivia por aquelas redondezas.

Depois de lá estarem uns tempos, como portugueses que eram com facilidade de adaptação, não tardaram em reconhecer a realidade e viram que de facto ali havia muita gente e poderia haver futuro para eles.

Os pais dessa família, habituados ao trabalho da lavoura em Portugal, não tardaram em arregaçar as mangas – esta expressão ali não fazia sentido - não era preciso arregaça-las, porque ali só se usavam camisas de manga curta.

O primeiro confronto com a realidade e diferença das suas terras para aquelas, foi quando o Rolo pai entrou numa loja para comprar uma camisa para aqueles climas, mas estava a achar estranho comprar uma camisa de meia-manga, nunca tinha visto nas lojas e feiras das suas terras e não queria comprar uma camisa com as mangas cortadas. O comerciante vendo o embaraço do cliente, de imediato lhe apresentou uma de manga comprida mas em simultâneo, entra outro cliente e ao ver essa venda, disse logo ao comerciante: para mim, se só tiver camisas de manga comprida têm que lhe cortar as mangas. Aqui o sr. Rolo começou a aperceber-se que estava em realidades diferentes.

Ao mesmo tempo que se atiravam ao trabalho seriamente, havia que seguir alguns ensinamentos dos que já lá estavam há muito tempo, alguns já eram a segunda e terceira geração nascidos em África, alguns até já nem pensavam nas terras europeias das suas origens, mesmo sendo brancos já se consideravam angolanos 100%.

Os terrenos férteis e sem fim, não era preciso comprá-los, bastava demarca-los e ir regista-los nas Finanças, tinham seis filhos para acabar de criar e uma nova vida a começar, que eram a inveja daqueles que já lá estavam e que para eles olhavam como se fossem o futuro daquela terra e de Vila Palma, uma família com tantos filhos e todos tão saudáveis, eram uma promessa para África e era disto e destas famílias que África precisava para se transformar num dos continentes mais produtores e mais ricos de todo mundo, porque as condições naturais estavam lá, era preciso gente que desenvolvesse e pusesse essas terras a produzir.

De início tudo servia para iniciar a vida, era uma família trabalhadora e logo de início a vida começou-lhes a sorrir e a correr bem.

Não tardaram em alargar as instalações da casa que inicialmente construíram, para montarem um estabelecimento Comercio Geral alargado e com Café-Bar.

O irmão que tinha seguido a vida de ensino, de imediato deixou o ensino e passou a dedicar-se à vida do comércio, na vida de professor dava para ir vivendo, mas não dava para ficar rico, no comércio daria para enriquecer.

A irmã, continuou no ensino, foi ficando na idade casadoira, e haveria de aparecer um fazendeiro rico que se haveria de interessar por ela,  já por ali andava um, indo beber umas Cucas ao Café deles e já andava de olho na rapariga.

Com o início da guerra de 61 e o movimento de tropas portuguesas para Angola, dá-se uma explosão de movimento, crescimento e desenvolvimento por toda a Angola.

Começa a haver estradas asfaltadas com centenas de quilómetros e cada vez mais quilómetros de asfalto, com boas e modernas pontes, deixou de haver carros pendurados nas pontes feitas de troncos de árvores e a distância de Luanda até Vila Palma, passou a ser feita em dois ou três dias em tempos de cacimbo, tempo seco, porque no tempo das chuvas até poderia demorar uma semana ou mais, caso quando os carros ficavam atascados na lama e não houvesse por ali um fazendeiro com um bom trator para ir desatolar a viatura.

 A família Rolos, já tinha acreditado em África.

Começaram a sentir-se já mais africanos-angolanos do que de portugueses. O Portugal da Europa já tinha ficado para trás e ia passando ao esquecimento, já era uma miragem.

 Mais de dez anos tinham passado. Todos os filhos já eram agora adultos e bem-criados.

As duas irmãs, já tinham casado e bem. Não precisaram de se preocupar muito.

Ali em África, para uma jovem mulher branca, não lhe faltavam pretendentes.

África estava cheia de homens ricos e solteiros, embora já não jovens. Mas como dizia a experiente conselheira de casamentos à jovem que queria casar com homem rico e jovem, a conselheira disse-lhe: se quiseres casar com homem rico, não será jovem. Se quiseres casar com homem jovem, não será rico.

O irmão mais velho desta família Rolo, casou por procuração com uma conterrânea camponesa que tinham feito a escola primaria em simultâneo na sua terra e que agora eram felizes em África.

Uma das irmãs, casou com um comerciante fazendeiro e a outra com um seu conterrâneo ido como militar e tinha ficado por ali a tentar a vida, conheceram-se, apaixonaram-se e casaram. Ficou mais uma família a constituir-se e a povoar Angola.

Saíram de casa dos pais e fizeram a sua vida à parte de empresários. Fazendeiros e comerciantes. Era por estes dois ramos que a maioria dos europeus que iam para África, começavam e se viria a transformar em grandes capitalistas.

Para os homens casadoiros em África, já era mais difícil arranjar casamento sem sair de África. A solução era casar por procuração ou voltar pessoalmente à terra de origem com figura de capitalistas e procurar casamento – que não era difícil encontrar casamento para um africano-branco.

 Mas estes homens solteiros enquanto em África, mantinham liberalmente relacionamento íntimo e marital com mulheres africanas-negras. Não raro quando havia mesmo filhos.

Mas essas ligações eram só para ir satisfazendo os seus apetites sexuais enquanto não encontravam uma mulher branca que quisesse casar com eles. Embora algumas ligações a mulheres africanas, poucos casos, ficariam para sempre e acabariam por constituir família natural com elas.

Os rapazes da família dos Rolos, continuavam quase todos por casar. Recorreram ao contacto por correspondência com raparigas da terra. Mas eles, já se consideravam homens ricos. Já tinham fazendas, comércios, camionetas de transportes, serrações de madeiras e um mundo de negócios sem fim, até diziam que já tinham mais gente a trabalhar por conta deles, do que gente havia na sua aldeia natal.

Referiam-se aos nativos que trabalhavam nas suas fazendas, na monda do café, do algodão, do milho, do sisal, do corte de madeiras, também tinham muitas camionetas a transportar as madeiras e outros produtos agrícolas para o embarque, para toda a Angola, Portugal continental e estrangeiro.

Para iniciar e adquirir uma Fazenda, bastava demarcar os terrenos e registá-los nas Finanças.

Por isso, um dos irmãos, o que tinha sido professor, passou a pedir por correspondência, uma noiva da terra natal, dizendo que haveria de ser uma professora, porque ele também já tinha sido professor em África, com a 4ª classe e para os nativos daquelas bandas,  além do mais, dava-lhe um estatuto superior aos outros fazendeiros que vinham casar a Portugal. Em geral, casavam com conterrâneas, por vezes só com a instrução primária e camponesas, mas das mais ricas da aldeia.

Deixou a vida de professor, porque era um homem rico e precisava de ir administrar as suas propriedades.

Por correspondência e pedindo informações da terra de origem e dando as suas que nem todas correspondiam à verdade, iniciou um namoro muito rápido com uma jovem que era de facto professora e bem formada e que ir para África também era um sonho e uma miragem que ela alimentava desde o fim do seu Curso.

Passava-lhe pelo pensamento, ir dar aulas em África. O contacto com este africano veio mesmo a calhar, juntou-se a vontade à ocasião.

Em dois meses, com pouca troca de correspondência da parte dele que praticamente só levava fotografias dos piqueniques que faziam nas Fazendas, das paisagens das Fazendas, chegaram ao comum acordo de iniciar a coisa a sério.

O problema dele era que não se sentia à vontade para se corresponder com uma professora, escrevia pouco nas cartas, enviava era muitas fotografias para que ela fizesse a sua opinião através de imagens, mas nem sempre as fotografias correspondiam à realidade.

Carlos, vamos chamar-lhe assim, faz uma viagem relâmpago de algumas semanas a Portugal, conheceram-se pessoalmente e casaram.

Isabel, era uma jovem professora, que ainda não tinha chegado aos trinta anos, mulher bonita e ambiciosa que quis conhecer África, que já tinha sonhado com África e que ao deparar-se-lhe a oportunidade que se lhe deparou, não perdeu muito tempo a pensar com receio de a perder. Pensava ela que afinal tinha descoberto a África do futuro sem ter saído da sua terra. Casava com um homem rico e ia para África, já tinha tudo feito em África, completava assim dois sonhos em um.

Os dois, pensaram da mesma maneira, que se demorassem muito tempo em conversações poderiam perder a única oportunidade da vida.

Sem perder tempo, combinam tudo, Carlos desloca-se a Portugal, apresenta-se em carro topo-de-gama (alugado em Lisboa) Isabel vê um homem fisicamente de aparência boa, muito queimado, mas isso seria natural em África, conhecem-se pessoalmente, dão algumas voltas juntos e decidem casar mesmo.

Isabel estava a viver um sonho, mas Carlos, passados poucos dias com Isabel já casados, de um momento para o outro toma uma decisão estranha, diz que tem que regressar a África por causa dos negócios e parte para África ele só, deixando Isabel também só em Portugal.

 Isabel fica surpreendida, estava a contar passarem mais algum tempo os dois pelas suas terras de origem, ela tinha começado a sentir vaidade em apresentar o marido às pessoas conhecidas com quem se cruzava, só o carro deixava as pessoas de boca aberta, por tudo isto, Isabel queria dar mais umas voltas e preparar com calma e tempo necessário a viagem que ia iniciar para África, mas continuava a viver um sonho que nem ela própria encontrava explicação.

 Mas Isabel começou a pensar num senão,  Carlos quase não falava, estava sempre calado, mesmo perante as pessoas a quem Isabel o apresentava e isso começou a deixar Isabel um pouco preocupada. Carlos não sabia conversar, não sabia dialogar, tinha partido para África ainda de criança, criou-se no interior do mato onde não tinha jovens com quem conviver, depois de adulto, como era normal e aceitável naquelas terras, os namoros eram substituídos por ligações amorosas íntimas com mulheres africanas rurais que muitas nem sabiam falar português, por isso ele não estava habituado a conversas de grupo e não sabia conversar. Teria sido isto a causa de ele ter querido partir tão rápido para África deixando Isabel para trás!

Ao lado de Isabel, embora não parecendo nem sendo muito culto, era um homem com apresentação e não deixava Isabel diminuída sempre que tinham de se apresentar às pessoas.

Após tudo resolvido e preparado, Isabel parte e viaja para Luanda ao

encontro de Carlos.

Em Luanda, lá estava o seu amado Carlos, todo desejoso dela à sua espera e ficou com ela a passar uns dias na capital de Angola, quis mostra-lhe a bela cidade de Luanda e o que ele conhecia daquela cidade. Carlos conhecia muito pouco de Luanda, as poucas vezes que lá se tinha deslocado era em negócios de compra de produtos para comercializar nas suas lojas e sempre a correr e assim que acabava de tratar dos negócios voltava logo a Vila Palma, a cultura de praticar algum turismo de conhecimento não existia nele.

Agora, com Isabel ao lado tentava ser um bom cicerone, mas pouco tinha para lhe explicar, lá iam passando de carro, olhando caladinhos, ele não sabia falar, porque pouco conhecia, ela, era a primeira vez que estava numa cidade de caraterísticas tropicais, muito diferente das cidades que tinha deixado para trás, quando deixou Portugal já começava a fazer frio, mas ali em Luanda começava o verdadeiro calor tropical, só apetecia andar com roupas muito leves e curtas, coisa que Carlos não a tinha alertado e aconselhado para isso, provavelmente ele nunca tinha passado tempos em Luanda ao lado de uma mulher que gostasse de andar de acordo com esse clima, Carlos precisou de ir ao Banco levantar dinheiro, Isabel ficou à porta do Banco dentro do carro, Carlos poderia tela convidado a entrar no Banco com ele, até para se ir ambientando à quele ambiente, mas Carlos como já sabia que Isabel era uma mulher com uma cultura muito acima da dele, evitava sempre que podia, falar e tratar de assuntos em conjunto.

Isabel, dentro do carro à porta do Banco Comercial de Angola, plena baixa de Lunda, um dos edifícios maiores, mais modernos e emblemáticos de todos os territórios portugueses, não parava de ver entrar e sair figuras interessantes e vestidas de formas como ela nunca tinha visto, a que mais lhe chamou à atenção e a deixou abismada, foi uma mulher mais ou menos da sua idade, parou o carro frente ao Banco mesmo ao lado do dela, saiu e entrou no Banco, mas em biquíni como vinha da praia. Sem dúvida que Isabel estava num mundo climático e social muito diferente do que ela tinha deixado na sua terra.

 Carlos e Isabel continuaram  com as suas voltas por aquela cidade que deixava Isabel deslumbrada, depois de umas voltas voltavam à Pensão onde estavam hospedados.

No dia seguinte, quis mostra-lhe a Ilha mítica de Luanda e levou-a lá para lhe mostrar  toda a beleza em conjunto da Ilha com a Baía de Luanda.

Isabel ao ver aquela praia da Barracuda no final da Ilha, não aguentou sem querer experimentar as águas quentes de um azul brilhante e aproveitar para mostrar ao ar livre pela primeira vez o seu escultural corpo a Carlos e agora ao sol de África ainda ficaria mais escultural, mas não levavam fato de banho com eles.

Em Luanda, em qualquer altura do ano, ir à Ilha e não levar fato de banho, é a mesma coisa que ir à neve e não levar roupa de agasalho.

Isabel sugeriu logo irem comprar fatos de banho e Isabel já se tinha concentrado que estava em África e começar a pôr em prática os planos que trazia da Europa, começar uma vida à africana.

Após percorrerem algumas lojas de fatos de banho, que em Luanda eram muitas e do melhor que havia, nunca ela tinha visto em Portugal nem na Europa, eram bikinis próprios desse clima, clima de África, ficava deslumbrada a olhar para aqueles bikinis, em Portugal só tinha usado fato-de-banho completo a tapar-lhe o corpo, aqueles bikinis multicores eram tentadores e encantadores, Isabel não resiste, tenta convencer Carlos, que não foi fácil e compra o bikini dos seus sonhos, era esse bikini que passaria a usar sempre que quisesse ir à praia. Carlos, embora com uma certa vergonha escondida, acedeu e foram dar o mergulho.

Mais um dia de sonho para Isabel, este sim, estava a corresponder aos seus planos para em África.

No 3º ou 4º dia que passavam na praia da Barracuda na ponta da Ilha do Farol, pouco mais faziam do que sair da Pensão onde estavam hospedados, irem de manhã para a praia, almoçarem no Tamariz e regressarem à tarde à Pensão, tomarem duche, jantavam e davam uma voltinha em redor do quarteirão depois de anoitecer, embora em Luanda houvesse boas casas de cinema com bom ar condicionado e bons espetáculos noturnos. Luanda era uma cidade de espetáculos noturnos e boas avenidas cheias de belas montras com as ultimas modas e principalmente na Baixa da cidade, com muitas montras modernas onde se encontravam para ver todos os produtos mais modernos do mercado para ver e comprar e depois de anoitecer e vir aquela brisa do mar da Baía de Luanda era imensamente agradável passear na Baixa de Luanda e principalmente na Marginal a ouvir a brisa vinda do mar passar por entre a folhagem das palmeiras e coqueiros da imensa avenida circundante em meia lua de toda a Baía, todos estes prazeres que Carlos não soube proporcionar a Isabel quando da chegada a Luanda e antes de a levar para Vila Palma para o interior de Angola.

Na viagem de cerca de1.000 km que tinham para percorrer, logo a sair de Luanda, surge-lhes a primeira recta de 60 km, até Catete em franco desenvolvimento, coisa que Isabel nunca tinha imaginado ,passando pela cidade de Viana que também estava tudo em construção e progresso, ainda teriam mais uns 600 km de estrada asfaltada, depois, os outros 400 seria estrada macadame que daria para uma velocidade até aos 80/100 k/h.

Passavam por imensas Fazendas sem fim à vista, Carlos, todo glorioso, ia explicando a Isabel a importância daquelas fazendas e as suas produções agrícolas e manadas de animais com milhares de cabeças de gado.

Percorridos já muitos quilómetros, Carlos continuava a enumerar-lhe as imensas propriedades e seus proprietários, sabia o nome de quase todos, Isabel questiona-o: já me falaste em propriedades sem fim e seus proprietários, mas ainda não me mostraste nenhuma propriedade tua!

Carlos ficou sem pio! Também captava muito a atenção de Isabel, eram os enormes matagais selvagens e de onde ao carro passar e com o barulho do chiar dos pneus quando o carro descrevia as curvas, bandos de macacos espavoridos a polar de árvore em árvore pendurando-se das compridas lianas penduradas das árvores e os terrenos avermelhados que lhe faziam lembrar as imagens do Planeta Marte.

Já em Vila Palma, Isabel tentava ser compreensiva e atenciosa para toda a gente que via, queria ser a pessoa que sempre foi nas suas terras, toda a gente estimava e era estimada por toda a gente.

Passado não muito tempo, não estava a ser de todo aquilo que tinha pensado, mas queria dar o benefício da dúvida, também poderia que fosse ela que não estava a ver as coisas com realmente eram.

Em África, não encontrou o paraíso que ela tinha imaginado. Mas tentou adaptar-se às circunstâncias. Sempre se considerou uma mulher vencedora e não era agora que iria dar parte de fraca em tão pouco tempo, por isso, não iria desanimar.

Primeiro, foi adaptar-se ao clima. Não era que para a região para onde foi, o clima fosse mau, antes pelo contrário, era um dos melhores de Angola. A temperatura média anual andava pelos 25 / 30 graus centígrados e a umidade não era elevada.

Havia noites que até sentia mais frio do que quando passeava na Serra da sua Região . Mas essa situação também era ultrapassável. Bastava pôr pelos ombros um casaquinho de malha e o corpo ficava ameno e protegido do frio. Enquanto na Serra da sua região quando faz frio, teria que vestir casacos de Lã bem quentes.

Às noites, depois de jantar, dava-lhe prazer sair de casa com o seu

casaquinho de malha pelos ombros e ir dar uma passeata pela avenida abaixo, quase ou completamente vazia, o movimento diurno dos nativos que circulavam pela avenida entrando e saindo de loja em loja e entrando na outra a seguir para ver se encontravam os Panos, a Fuba, a Mancarra, a Jinguba, os panos para Kimones e o Óleo de Dendém mais barato, assim que o horário mal cumprido obrigava as lojas a fechar, esse movimento da Avenida ficava reduzido ao silêncio.

A professora Isabel, que ainda estava no período de adaptação, tentava desmistificar todo aquele enigma, aqueles mistérios de África.

Com o braço metido pelo do seu marido, passos lentos e longos, semi-calados, ela com sorriso nos lábios olhando para todos os lados, mostrando a si própria a felicidade com que se movimentava por aquela avenida de terra batida, deliciando-se com o agradável perfume largado pelos Jacarandás e as frondosas Mangueiras cheias de apetitosas Mangas prontas a ser comidas, que ladeavam toda a avenida.

Não sabia bem se havia de falar ao marido nas conversas que tinha durante o dia com a sua colega, que lhe parecia, desde que a conheceu, boa pessoa.

A colega, era a Nizé Ginga. Tinha a formação de professora interina.  

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