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| Angola Década 70 |
AVENTURA AFRICANA
Extraído do
livro do mesmo autor da cronica: Romance em Ficção Inspirado e Baseado em Casos
Reais
Quando uma
família, que vivia com dificuldades na Europa e partia para África, partia para
o prometido paraíso e definitivamente para não mais voltar, desfaziam-se de
tudo quanto tinham, pois, a ideia de ir à procura de vida melhor noutras
terras, era para sempre e ali construírem o seu futuro, eram meados do século
XX, foi assim que a família Rolo partiu.
Deixavam para
trás uma aldeia perdida na encosta da serra e partiam para um novo mundo
longínquo atravessando oceanos à procura de um novo futuro.
A partida do Navio
de Lisboa até chegar a Luanda levou próximo de três semanas.
De Luanda até
Vila Palma, foram duas semanas, era tempo das chuvas e o asfalto eram apenas
uns escassos quilómetros a sair de Luanda, dos cerca de 1.000 km que tinham
para percorrer em estradas apenas iniciadas só em terra batida alinhadas com as
Bulldozers e nem cilindro tinham levado por cima, apenas a terra ficava mais
dura quando ficava seca com o calor escaldante no tempo do cacimbo a seguir às chuvas
torrenciais e diluvianas, que depois dos 3 meses de cacimbo, voltariam as
mesmas chuvas.
Então, aquela terra argilosa avermelhada, ficava
dura quase como o cimento, mas logo que vinha nova chuvada e às primeiras
pingas, ficava escorregadio que nem sabão, mas também teriam a parte de deserto
arenoso, que até teriam de prender cordas às árvores e ao eixo entre as rodas
da velha camioneta que os transportava, para conseguirem subir pequenas
encostas de terreno totalmente arenoso. Já com três dias de viajem, atravessar
de jangada o rio com largura a perder de vista, que mais parecia um pântano sem
fim, e a seguir subir o Morro por uma picada lamacenta em ziguezagues com a
camioneta constantemente a patinar sendo preciso meter-lhe braçados de mato
debaixo das rodas para continuar, levou dois dias.
Havia ainda
muitos quilómetros de picada de terra arenosa que quando ficava seca, só
viaturas de tração às 4 rodas conseguiam circular. Por isso, levava este tempo
todo.
Passada semana e
meia, lá chegaram eles a Vila Palma, a Terra Prometida.
Adolescentes,
família de seis irmãos, quatro rapazes e duas raparigas, pais na casa dos 40
anos, eram a família ideal para ir colonizar África nesta era e nestes tempos.
Alguns dos
irmãos, desanimaram completamente durante a viagem. Não fosse tão impossível voltar
para trás, teriam regressado à aldeia que tinham deixado bem no interior de Portugal.
Pois a tão falada
Vila, quase cidade, assim lha “venderam”, ao lá chegarem, só conseguiam ver
muito menos gente que na aldeia que deixaram em Portugal.
Ao chegarem, só
conseguiam ver uma escassa meia dúzia de casas a tijolo, caiadas e branqueadas
alinhadas, metade de cada lado, faziam a curta avenida principal e única da
localidade e em terra batida.
Vila Palma tinha
o nome de vila, mas não era Vila.
O edifício do
Posto do Administrador Estatal, mais três ou quatro casas de comerciantes onde
viviam e trabalhavam pouco mais de uma dezena de europeus (brancos) e alguns
mestiços. Mas depois, nos dias seguintes, foram avistando sanzalas próximas
onde viviam milhares de africanos, que eram os clientes das casas comerciais
que se estendiam ao longo dessa avenida.
A outra casa a
ser construída a seguir, teria que ser a deles.
Deram inicio à
sua nova vida como puderam. Mesmo só com a instrução escolar mínima
obrigatória, uma irmã e um irmão mais velhos, dedicaram-se ao ensino primário,
havia muitas crianças nativas na idade escolar e havia falta de professores,
por isso, o Estado permitia que quem tivesse a 4ª classe e 16 anos de idade podia exercer o ensino primário
enquanto não houvesse professores qualificados, foi assim que os dois irmãos
mais velhos da família Rolo aproveitaram esta oportunidade e era uma e a única
forma mais rápida de começar a ganhar o sustento da família.
Afinal havia
muita gente. Só que eles quando lá chegaram, não lhes tinham explicado que
tanta gente que havia nessa terra, não era brancos, mas sim 99% ou mais, eram
negros e estavam dispersos pelas redondezas e a viver em sanzalas nas suas cubatas
feitas de terra amassada e cobertas com capim da cor da terra debaixo da copa
das árvores, por isso a dificuldade de eles verem tanta gente que vivia por
aquelas redondezas.
Depois de lá
estarem uns tempos, como portugueses que eram com facilidade de adaptação, não
tardaram em reconhecer a realidade e viram que de facto ali havia muita gente e
poderia haver futuro para eles.
Os pais dessa
família, habituados ao trabalho da lavoura em Portugal, não tardaram em
arregaçar as mangas – esta expressão ali não fazia sentido - não era preciso
arregaça-las, porque ali só se usavam camisas de manga curta.
O primeiro
confronto com a realidade e diferença das suas terras para aquelas, foi quando
o Rolo pai entrou numa loja para comprar uma camisa para aqueles climas, mas
estava a achar estranho comprar uma camisa de meia-manga, nunca tinha visto nas
lojas e feiras das suas terras e não queria comprar uma camisa com as mangas cortadas.
O comerciante vendo o embaraço do cliente, de imediato lhe apresentou uma de
manga comprida mas em simultâneo, entra outro cliente e ao ver essa venda,
disse logo ao comerciante: para mim, se só tiver camisas de manga comprida têm
que lhe cortar as mangas. Aqui o sr. Rolo começou a aperceber-se que estava em
realidades diferentes.
Ao mesmo tempo que
se atiravam ao trabalho seriamente, havia que seguir alguns ensinamentos dos
que já lá estavam há muito tempo, alguns já eram a segunda e terceira geração
nascidos em África, alguns até já nem pensavam nas terras europeias das suas
origens, mesmo sendo brancos já se consideravam angolanos 100%.
Os terrenos férteis
e sem fim, não era preciso comprá-los, bastava demarca-los e ir regista-los nas
Finanças, tinham seis filhos para acabar de criar e uma nova vida a começar,
que eram a inveja daqueles que já lá estavam e que para eles olhavam como se
fossem o futuro daquela terra e de Vila Palma, uma família com tantos filhos e
todos tão saudáveis, eram uma promessa para África e era disto e destas
famílias que África precisava para se transformar num dos continentes mais
produtores e mais ricos de todo mundo, porque as condições naturais estavam lá,
era preciso gente que desenvolvesse e pusesse essas terras a produzir.
De início tudo
servia para iniciar a vida, era uma família trabalhadora e logo de início a
vida começou-lhes a sorrir e a correr bem.
Não tardaram em alargar
as instalações da casa que inicialmente construíram, para montarem um
estabelecimento Comercio Geral alargado e com Café-Bar.
O irmão que
tinha seguido a vida de ensino, de imediato deixou o ensino e passou a
dedicar-se à vida do comércio, na vida de professor dava para ir vivendo, mas
não dava para ficar rico, no comércio daria para enriquecer.
A irmã, continuou
no ensino, foi ficando na idade casadoira, e haveria de aparecer um fazendeiro
rico que se haveria de interessar por ela, já por ali andava um, indo beber umas Cucas ao
Café deles e já andava de olho na rapariga.
Com o início da guerra de 61 e
o movimento de tropas portuguesas para Angola, dá-se uma explosão de movimento,
crescimento e desenvolvimento por toda a Angola.
Começa a haver estradas
asfaltadas com centenas de quilómetros e cada vez mais quilómetros de asfalto,
com boas e modernas pontes, deixou de haver carros pendurados nas pontes feitas
de troncos de árvores e a distância de Luanda até Vila Palma, passou a ser
feita em dois ou três dias em tempos de cacimbo, tempo seco, porque no tempo
das chuvas até poderia demorar uma semana ou mais, caso quando os carros
ficavam atascados na lama e não houvesse por ali um fazendeiro com um bom trator
para ir desatolar a viatura.
A família Rolos, já tinha acreditado em
África.
Começaram a
sentir-se já mais africanos-angolanos do que de portugueses. O Portugal da
Europa já tinha ficado para trás e ia passando ao esquecimento, já era uma
miragem.
Mais de dez anos tinham passado. Todos os filhos
já eram agora adultos e bem-criados.
As duas irmãs,
já tinham casado e bem. Não precisaram de se preocupar muito.
Ali em África,
para uma jovem mulher branca, não lhe faltavam pretendentes.
África estava cheia
de homens ricos e solteiros, embora já não jovens. Mas como dizia a experiente
conselheira de casamentos à jovem que queria casar com homem rico e jovem, a
conselheira disse-lhe: se quiseres casar com homem rico, não será jovem. Se
quiseres casar com homem jovem, não será rico.
O irmão mais
velho desta família Rolo, casou por procuração com uma conterrânea camponesa
que tinham feito a escola primaria em simultâneo na sua terra e que agora eram
felizes em África.
Uma das irmãs,
casou com um comerciante fazendeiro e a outra com um seu conterrâneo ido como
militar e tinha ficado por ali a tentar a vida, conheceram-se, apaixonaram-se e
casaram. Ficou mais uma família a constituir-se e a povoar Angola.
Saíram de casa
dos pais e fizeram a sua vida à parte de empresários. Fazendeiros e
comerciantes. Era por estes dois ramos que a maioria dos europeus que iam para
África, começavam e se viria a transformar em grandes capitalistas.
Para os homens
casadoiros em África, já era mais difícil arranjar casamento sem sair de
África. A solução era casar por procuração ou voltar pessoalmente à terra de
origem com figura de capitalistas e procurar casamento – que não era difícil
encontrar casamento para um africano-branco.
Mas estes homens solteiros enquanto em África,
mantinham liberalmente relacionamento íntimo e marital com mulheres africanas-negras.
Não raro quando havia mesmo filhos.
Mas essas ligações
eram só para ir satisfazendo os seus apetites sexuais enquanto não encontravam
uma mulher branca que quisesse casar com eles. Embora algumas ligações a
mulheres africanas, poucos casos, ficariam para sempre e acabariam por
constituir família natural com elas.
Os rapazes da
família dos Rolos, continuavam quase todos por casar. Recorreram ao contacto
por correspondência com raparigas da terra. Mas eles, já se consideravam homens
ricos. Já tinham fazendas, comércios, camionetas de transportes, serrações de
madeiras e um mundo de negócios sem fim, até diziam que já tinham mais gente a
trabalhar por conta deles, do que gente havia na sua aldeia natal.
Referiam-se aos
nativos que trabalhavam nas suas fazendas, na monda do café, do algodão, do
milho, do sisal, do corte de madeiras, também tinham muitas camionetas a
transportar as madeiras e outros produtos agrícolas para o embarque, para toda
a Angola, Portugal continental e estrangeiro.
Para iniciar e
adquirir uma Fazenda, bastava demarcar os terrenos e registá-los nas Finanças.
Por isso, um dos
irmãos, o que tinha sido professor, passou a pedir por correspondência, uma
noiva da terra natal, dizendo que haveria de ser uma professora, porque ele
também já tinha sido professor em África, com a 4ª classe e para os nativos daquelas
bandas, além do mais, dava-lhe um
estatuto superior aos outros fazendeiros que vinham casar a Portugal. Em geral,
casavam com conterrâneas, por vezes só com a instrução primária e camponesas,
mas das mais ricas da aldeia.
Deixou a vida de
professor, porque era um homem rico e precisava de ir administrar as suas
propriedades.
Por
correspondência e pedindo informações da terra de origem e dando as suas que
nem todas correspondiam à verdade, iniciou um namoro muito rápido com uma jovem
que era de facto professora e bem formada e que ir para África também era um
sonho e uma miragem que ela alimentava desde o fim do seu Curso.
Passava-lhe pelo
pensamento, ir dar aulas em África. O contacto com este africano veio mesmo a calhar,
juntou-se a vontade à ocasião.
Em dois meses,
com pouca troca de correspondência da parte dele que praticamente só levava
fotografias dos piqueniques que faziam nas Fazendas, das paisagens das
Fazendas, chegaram ao comum acordo de iniciar a coisa a sério.
O problema dele
era que não se sentia à vontade para se corresponder com uma professora,
escrevia pouco nas cartas, enviava era muitas fotografias para que ela fizesse
a sua opinião através de imagens, mas nem sempre as fotografias correspondiam à
realidade.
Carlos, vamos
chamar-lhe assim, faz uma viagem relâmpago de algumas semanas a Portugal,
conheceram-se pessoalmente e casaram.
Isabel, era uma
jovem professora, que ainda não tinha chegado aos trinta anos, mulher bonita e
ambiciosa que quis conhecer África, que já tinha sonhado com África e que ao
deparar-se-lhe a oportunidade que se lhe deparou, não perdeu muito tempo a
pensar com receio de a perder. Pensava ela que afinal tinha descoberto a África
do futuro sem ter saído da sua terra. Casava com um homem rico e ia para África,
já tinha tudo feito em África, completava assim dois sonhos em um.
Os dois,
pensaram da mesma maneira, que se demorassem muito tempo em conversações
poderiam perder a única oportunidade da vida.
Sem perder
tempo, combinam tudo, Carlos desloca-se a Portugal, apresenta-se em carro
topo-de-gama (alugado em Lisboa) Isabel vê um homem fisicamente de aparência
boa, muito queimado, mas isso seria natural em África, conhecem-se pessoalmente,
dão algumas voltas juntos e decidem casar mesmo.
Isabel estava a
viver um sonho, mas Carlos, passados poucos dias com Isabel já casados, de um
momento para o outro toma uma decisão estranha, diz que tem que regressar a
África por causa dos negócios e parte para África ele só, deixando Isabel também
só em Portugal.
Isabel fica surpreendida, estava a contar
passarem mais algum tempo os dois pelas suas terras de origem, ela tinha
começado a sentir vaidade em apresentar o marido às pessoas conhecidas com quem
se cruzava, só o carro deixava as pessoas de boca aberta, por tudo isto, Isabel
queria dar mais umas voltas e preparar com calma e tempo necessário a viagem
que ia iniciar para África, mas continuava a viver um sonho que nem ela própria
encontrava explicação.
Mas Isabel começou a pensar num senão, Carlos quase não falava, estava sempre calado,
mesmo perante as pessoas a quem Isabel o apresentava e isso começou a deixar
Isabel um pouco preocupada. Carlos não sabia conversar, não sabia dialogar,
tinha partido para África ainda de criança, criou-se no interior do mato onde
não tinha jovens com quem conviver, depois de adulto, como era normal e
aceitável naquelas terras, os namoros eram substituídos por ligações amorosas
íntimas com mulheres africanas rurais que muitas nem sabiam falar português,
por isso ele não estava habituado a conversas de grupo e não sabia conversar.
Teria sido isto a causa de ele ter querido partir tão rápido para África
deixando Isabel para trás!
Ao lado de Isabel,
embora não parecendo nem sendo muito culto, era um homem com apresentação e não
deixava Isabel diminuída sempre que tinham de se apresentar às pessoas.
Após tudo
resolvido e preparado, Isabel parte e viaja para Luanda ao
encontro de
Carlos.
Em Luanda, lá estava
o seu amado Carlos, todo desejoso dela à sua espera e ficou com ela a passar
uns dias na capital de Angola, quis mostra-lhe a bela cidade de Luanda e o que
ele conhecia daquela cidade. Carlos conhecia muito pouco de Luanda, as poucas
vezes que lá se tinha deslocado era em negócios de compra de produtos para
comercializar nas suas lojas e sempre a correr e assim que acabava de tratar
dos negócios voltava logo a Vila Palma, a cultura de praticar algum turismo de
conhecimento não existia nele.
Agora, com
Isabel ao lado tentava ser um bom cicerone, mas pouco tinha para lhe explicar,
lá iam passando de carro, olhando caladinhos, ele não sabia falar, porque pouco
conhecia, ela, era a primeira vez que estava numa cidade de caraterísticas
tropicais, muito diferente das cidades que tinha deixado para trás, quando
deixou Portugal já começava a fazer frio, mas ali em Luanda começava o
verdadeiro calor tropical, só apetecia andar com roupas muito leves e curtas,
coisa que Carlos não a tinha alertado e aconselhado para isso, provavelmente
ele nunca tinha passado tempos em Luanda ao lado de uma mulher que gostasse de
andar de acordo com esse clima, Carlos precisou de ir ao Banco levantar
dinheiro, Isabel ficou à porta do Banco dentro do carro, Carlos poderia tela convidado
a entrar no Banco com ele, até para se ir ambientando à quele ambiente, mas
Carlos como já sabia que Isabel era uma mulher com uma cultura muito acima da
dele, evitava sempre que podia, falar e tratar de assuntos em conjunto.
Isabel, dentro
do carro à porta do Banco Comercial de Angola, plena baixa de Lunda, um dos
edifícios maiores, mais modernos e emblemáticos de todos os territórios
portugueses, não parava de ver entrar e sair figuras interessantes e vestidas
de formas como ela nunca tinha visto, a que mais lhe chamou à atenção e a
deixou abismada, foi uma mulher mais ou menos da sua idade, parou o carro
frente ao Banco mesmo ao lado do dela, saiu e entrou no Banco, mas em biquíni
como vinha da praia. Sem dúvida que Isabel estava num mundo climático e social
muito diferente do que ela tinha deixado na sua terra.
Carlos e Isabel continuaram com as suas voltas por aquela cidade que
deixava Isabel deslumbrada, depois de umas voltas voltavam à Pensão onde
estavam hospedados.
No dia seguinte,
quis mostra-lhe a Ilha mítica de Luanda e levou-a lá para lhe mostrar toda a beleza em conjunto da Ilha com a Baía
de Luanda.
Isabel ao ver
aquela praia da Barracuda no final da Ilha, não aguentou sem querer
experimentar as águas quentes de um azul brilhante e aproveitar para mostrar ao
ar livre pela primeira vez o seu escultural corpo a Carlos e agora ao sol de
África ainda ficaria mais escultural, mas não levavam fato de banho com eles.
Em Luanda, em
qualquer altura do ano, ir à Ilha e não levar fato de banho, é a mesma coisa
que ir à neve e não levar roupa de agasalho.
Isabel sugeriu
logo irem comprar fatos de banho e Isabel já se tinha concentrado que estava em
África e começar a pôr em prática os planos que trazia da Europa, começar uma
vida à africana.
Após percorrerem
algumas lojas de fatos de banho, que em Luanda eram muitas e do melhor que
havia, nunca ela tinha visto em Portugal nem na Europa, eram bikinis próprios
desse clima, clima de África, ficava deslumbrada a olhar para aqueles bikinis,
em Portugal só tinha usado fato-de-banho completo a tapar-lhe o corpo, aqueles
bikinis multicores eram tentadores e encantadores, Isabel não resiste, tenta
convencer Carlos, que não foi fácil e compra o bikini dos seus sonhos, era esse
bikini que passaria a usar sempre que quisesse ir à praia. Carlos, embora com
uma certa vergonha escondida, acedeu e foram dar o mergulho.
Mais um dia de
sonho para Isabel, este sim, estava a corresponder aos seus planos para em
África.
No 3º ou 4º dia
que passavam na praia da Barracuda na ponta da Ilha do Farol, pouco mais faziam
do que sair da Pensão onde estavam hospedados, irem de manhã para a praia,
almoçarem no Tamariz e regressarem à tarde à Pensão, tomarem duche, jantavam e
davam uma voltinha em redor do quarteirão depois de anoitecer, embora em Luanda
houvesse boas casas de cinema com bom ar condicionado e bons espetáculos noturnos.
Luanda era uma cidade de espetáculos noturnos e boas avenidas cheias de belas
montras com as ultimas modas e principalmente na Baixa da cidade, com muitas
montras modernas onde se encontravam para ver todos os produtos mais modernos
do mercado para ver e comprar e depois de anoitecer e vir aquela brisa do mar
da Baía de Luanda era imensamente agradável passear na Baixa de Luanda e
principalmente na Marginal a ouvir a brisa vinda do mar passar por entre a
folhagem das palmeiras e coqueiros da imensa avenida circundante em meia lua de
toda a Baía, todos estes prazeres que Carlos não soube proporcionar a Isabel
quando da chegada a Luanda e antes de a levar para Vila Palma para o interior
de Angola.
Na viagem de cerca
de1.000 km que tinham para percorrer, logo a sair de Luanda, surge-lhes a
primeira recta de 60 km, até Catete em franco desenvolvimento, coisa que Isabel
nunca tinha imaginado ,passando pela cidade de Viana que também estava tudo em
construção e progresso, ainda teriam mais uns 600 km de estrada asfaltada,
depois, os outros 400 seria estrada macadame que daria para uma velocidade até
aos 80/100 k/h.
Passavam por
imensas Fazendas sem fim à vista, Carlos, todo glorioso, ia explicando a Isabel
a importância daquelas fazendas e as suas produções agrícolas e manadas de
animais com milhares de cabeças de gado.
Percorridos já
muitos quilómetros, Carlos continuava a enumerar-lhe as imensas propriedades e
seus proprietários, sabia o nome de quase todos, Isabel questiona-o: já me
falaste em propriedades sem fim e seus proprietários, mas ainda não me
mostraste nenhuma propriedade tua!
Carlos ficou sem
pio! Também captava muito a atenção de Isabel, eram os enormes matagais
selvagens e de onde ao carro passar e com o barulho do chiar dos pneus quando o
carro descrevia as curvas, bandos de macacos espavoridos a polar de árvore em
árvore pendurando-se das compridas lianas penduradas das árvores e os terrenos
avermelhados que lhe faziam lembrar as imagens do Planeta Marte.
Já em Vila
Palma, Isabel tentava ser compreensiva e atenciosa para toda a gente que via,
queria ser a pessoa que sempre foi nas suas terras, toda a gente estimava e era
estimada por toda a gente.
Passado não
muito tempo, não estava a ser de todo aquilo que tinha pensado, mas queria dar
o benefício da dúvida, também poderia que fosse ela que não estava a ver as
coisas com realmente eram.
Em África, não
encontrou o paraíso que ela tinha imaginado. Mas tentou adaptar-se às
circunstâncias. Sempre se considerou uma mulher vencedora e não era agora que
iria dar parte de fraca em tão pouco tempo, por isso, não iria desanimar.
Primeiro, foi
adaptar-se ao clima. Não era que para a região para onde foi, o clima fosse mau,
antes pelo contrário, era um dos melhores de Angola. A temperatura média anual
andava pelos 25 / 30 graus centígrados e a umidade não era elevada.
Havia noites que
até sentia mais frio do que quando passeava na Serra da sua Região . Mas essa situação
também era ultrapassável. Bastava pôr pelos ombros um casaquinho de malha e o
corpo ficava ameno e protegido do frio. Enquanto na Serra da sua região quando
faz frio, teria que vestir casacos de Lã bem quentes.
Às noites,
depois de jantar, dava-lhe prazer sair de casa com o seu
casaquinho de
malha pelos ombros e ir dar uma passeata pela avenida abaixo, quase ou
completamente vazia, o movimento diurno dos nativos que circulavam pela avenida
entrando e saindo de loja em loja e entrando na outra a seguir para ver se
encontravam os Panos, a Fuba, a Mancarra, a Jinguba, os panos para Kimones e o
Óleo de Dendém mais barato, assim que o horário mal cumprido obrigava as lojas
a fechar, esse movimento da Avenida ficava reduzido ao silêncio.
A professora Isabel,
que ainda estava no período de adaptação, tentava desmistificar todo aquele
enigma, aqueles mistérios de África.
Com o braço
metido pelo do seu marido, passos lentos e longos, semi-calados, ela com
sorriso nos lábios olhando para todos os lados, mostrando a si própria a
felicidade com que se movimentava por aquela avenida de terra batida, deliciando-se
com o agradável perfume largado pelos Jacarandás e as frondosas Mangueiras
cheias de apetitosas Mangas prontas a ser comidas, que ladeavam toda a avenida.
Não sabia bem se
havia de falar ao marido nas conversas que tinha durante o dia com a sua colega,
que lhe parecia, desde que a conheceu, boa pessoa.
A colega, era a
Nizé Ginga. Tinha a formação de professora interina.
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