quinta-feira, 2 de junho de 2022

Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã. As pessoas e as coisas - 02-06-2022

Agora
Antes







Odete, acabara de concluir o bacharelato em educação física no ISEF. Meados da década de setenta, nas redondezas onde nasceu e se criou não tinha hipóteses de colocação. (nomes fictícios)

Rumou à capital, mas passado pouco tempo vieram-lhe saudades dos pais e da Terra. Embora ela gostasse de dizer que nunca deveria ter nascido na terra onde nasceu, o desejo foi mais forte.

 Quando dos dias mais pequenos, a camioneta levava um dia a lá chegar. Viagem maçadora. Recorreu ao amigo e conterrâneo Ricardo, com quem tinha travado conhecimento próximo já na capital, que de vez em quando também gostava de ir à terra com o seu automóvel, e este de boa vontade dispensou boleia.

 Partiam cedinho pelas 06:00h para evitar as grandes filas (bichas) ao atravessar as localidades, só tinham 25 km de autoestrada até Vila Franca de Xira. O primeiro teste à paciência era no Carregado, fotos em anexo (pode ampliar foto clicando). Dali para a frente, cada localidade e aglomerado populacional era mais um teste à paciência com o pára e arranca. Mesmo assim, Ricardo, com destreza e condução segura, fazia essas várias centenas de quilómetros em 6 horas. Por volta do meio-dia lá estavam eles a almoçar na sossegada Santa Terrinha em casa da mãe de Odete.

 Ricardo, era um jovem que depois de passar a sua adolescência a trabalhar na agricultura. também rumou à cidade e fixou-se na capital a trabalhar, ao mesmo tempo que estudava à noite. Jovem alegre e divertido, atlético, não passava despercebido às jovens namoradeiras.

 Odete, era uma jovem que quando passava, deixava os homens a olhar para trás. A sua elegância, o seu porte fino com lindos e grandes olhos castanhos numa cara rosada davam-lhe uma beleza rara e não resistiu ao porte atlético e simpatia de Ricardo, que começou a sentir algo mais por ele, mas essas viagens acabaram depressa.

 Odete tinha recebido uma cultura de classe social e lutava entre o que já gostava de Ricardo e a diferença entre a criação dos dois.

 Ela, criou-se no Liceu vestindo roupas de marca e se alguma vez passou por Ricardo nesses tempos, nem lhe chamou à atenção.

 Enquanto, Ricardo nesses tempos quase nem tinha tempo para se divertir e roupas de marca nem sabia o que eram.

 Agora, Odete gostava de Ricardo e começava a ficar um pouco perdida por ele e como não era parva, via em Ricardo um homem de futuro, mas o problema social começava a traí-la.

 Deu a entender a Ricardo que estava disposta a sacrificar a diferença social entre os dois para o aceitar, mas não escolheu a melhor forma de dizer isto a Ricardo. Disse-o de uma forma humilhante para Ricardo, talvez involuntariamente, mas era a formação sócio/cultural/familiar que lhe dava essa forma de ver as coisas e a estava a trair.

 Ricardo, embora não sendo vaidoso, mas tinha plena consciência da sua posição na sociedade. Já tinha viajado e vivido algum tempo no estrangeiro, por isso, sabia bem o chão que pisava.

 Ricardo, embora já começasse a gostar de Odete, mas assim, achou que não estava ali a mulher da sua vida.

 Odete conheceu outro homem, casou, mas em breve haveria de ficar com uma filha para criar depois de um divórcio.

 Ricardo, concluiu o seu curso universitário ao mesmo tempo que constituía uma família feliz com a mulher com quem casou e a vida profissional proporcionou-lhe condições sociais a nível de classe social que Odete nunca conseguiu.

 Decorridas três décadas cruzaram-se novamente, mas agora a diferença social inverteu-se. Quando Ricardo quis falar de igual para igual com Odete, ela olhava para ele com a mesma diferença com que olhava trinta anos antes, mas agora olhava para Ricardo de baixo para cima.

 O mesmo aconteceu com o cruzamento do Carregado, fotos em anexo, antes e agora está um cruzamento/nó de Autoestradas em todas as direções, abrindo os caminhos do futuro, que uma delas leva Ricardo à sua terra em metade de tempo de há trinta anos.

 E, enquanto esta viagem há trinta anos era uma viagem de cansaço, hoje é uma viagem de passeio e turismo. Tendo em conta também o automóvel de há trinta anos e o automóvel de hoje.

 Em três décadas, mudam enormemente os tempos, a sociedade e as as condições socioeconómicas das pessoas

 















 

Sem comentários:

Enviar um comentário